Em abril último, Justin Bieber desfilou no tapete vermelho do Grammy 2022 com um calçado que chamou a atenção: uma Crocs preta de plataforma grossa, uma criação em parceria com a grife espanhola Balenciaga. Em recentes festivais de música como o Rock in Rio, o sapato foi a preferência de influenciadores digitais. Pelo conforto, é um favorito entre profissionais da saúde e idosos, a ponto de ter por um tempo a fama de “coisa de tiozão”. O produto, que já teve um design considerado, no mínimo, duvidoso, agora é popular entre jovens na faixa dos 20 anos. É bom explicar: o modelo é chamado no universo da moda de babuche, mas a marca Crocs fez tamanha investida no produto que passou a denominar o calçado.

O que antes era brega virou fashion. “Uso até para ir na balada”, conta Nycole de Jesus, 20, de São Paulo. Estudante de Moda, ela entrega que a babuche fez parte de sua infância e segue na fase adulta, mesmo diante das críticas. “Meus amigos me zoavam. Falavam que era ‘feio e esquisito’. Mas eu sempre gostei”, diz. “Tenho um para cada ocasião. Não tem coisa melhor. É estiloso, confortável e bonito aos meus olhos”. Obviamente, ela comemora a tendência.

UNIFORME Segurança e praticidade: o médico Julio Pierezan, 32, preza pelo conforto nas longas cirurgias (Crédito:Marco Ankosqui)

Há 20 anos no mercado, o modelo antiderrapante não teve tanto sucesso em seu início. No entanto, se ressignificou com novidades, como parcerias com marcas de luxo, colaborações de artistas – a cantora colombiana Karol G é uma delas – e edições temáticas de filmes e personagens da Disney. A geração atual consome ainda os acessórios, uma espécie de bóton para aplicação na peça, com uma infinidade de opções, entre elas até os rostos dos rapazes do grupo pop sul-coreano BTS. “Poder personalizar ajuda”, aprova Nycole. “Eu acho o sapato lindo, mas vejo o público dividido. Tem gente que usa só para ficar em casa ou para trabalhar, como profissionais de saúde. Já ouvi enfermeira dizer que jamais pensou em usá-lo fora do hospital”. Nas salas de cirurgia de alguns hospitais, a Crocs faz parte do vestuário recomendado à equipe.

O médico Julio Pierezan, 32, costuma ficar até 12 horas em uma cirurgia de transplante capilar em sua clínica na capital paulista. Pela comodidade e praticidade, ele é adepto do calçado anatômico há anos. “É um sapato fácil de higienizar e tem a questão da biossegurança, por ser emborrachado. Se cair uma agulha, ela não penetra. O mesmo com fluidos, como sangue”, detalha ele. “Uso para trabalhar, para ir ao mercado ou à farmácia. Mas, realmente, não sei se usaria em um festival de música”, diverte-se.

RÉPLICAS Bancas de jornal: modelos genéricos custam R$ 49, e originais são vendidos em lojas a partir de R$ 153 (Crédito:Marco Ankosqui)

A liberdade de estilo esbarra no código de vestimenta. Para a consultora de moda Danielle Ferraz, 47, Bieber inovou com seu tamanco moderno. Porém, há limites. “Existe, sim, o dress code. Em um casamento, por exemplo, é melhor usar algo social”, sugere. A especialista analisa que a reviravolta no uso ocorreu durante o confinamento forçado na pandemia. “Todos buscaram conforto. Por causa disso, a Crocs entrou para a lista dos dez itens mais procurados no mundo, juntamente com o pijama e o moletom”, relaciona.

No período, os jovens foram fisgados por uma questão bem atual. “A geração Z abraçou o produto porque gosta do diferente. Quando falamos de coisas instagramáveis, nos referimos ao polêmico, o que chama a atenção. Tudo que é ‘ame ou odeie’ gera discussão e provoca engajamento. Por isso, esse é um dos looks mais usados no TikTok”, completa.

Uma Crocs original tem preço inicial de R$ 153, mas o valor aumenta conforme o modelo; o de Bieber está avaliado em R$ 5 mil. No comércio popular, ganha espaço. Na região da Avenida Paulista, em São Paulo, opções genéricas são vendidas em bancas de jornal por R$ 49. Em lojas online, existem variações a partir de R$ 20. “O consumidor deve considerar que o pirata não oferece a mesma durabilidade e segurança”, alerta Danielle. No momento, o objeto está no centro de outro debate.

A Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional acusa a Crocs de enquadrar sua criação em uma categoria que paga menos impostos para importação, a de pantufas. Para o órgão, a empresa deve pagar R$ 33 milhões por aquisições dessa forma entre 2011 e 2014. Em dezembro, o Tribunal da Receita discutirá se é de fato pantufa ou sandália de plástico. Por enquanto, pode chamar de Crocs que está tudo bem.