Que audácia. Os gays se tornaram o oráculo da humanidade. Dúvidas sobre vinhos, decoração, sedução, sexo ou até sobre a melhor maneira de apertar a mão do interlocutor? Consulte-os. Eles estão aí para ajudar os primitivos heterossexuais a desfrutar as benesses da civilização moderna. A verdade é que, depois de sofrerem toda sorte de preconceitos estúpidos, os gays usam desta vez a seu favor um dos muitos estereótipos que os acompanham. O de que são hábeis conquistadores, criativos na cama, requintados gourmets, eficientes decoradores e com enorme bom gosto. Eles aproveitam a boa fama escrevendo livros. “É claro que existem héteros que sabem cozinhar. Pelo que sei, os grandes chefs não são gays. Mas essa idéia de especialização nos dá uma visibilidade positiva”, afirma André Fischer, organizador do Festival Mix Brasil da Diversidade Sexual. Fischer é um dos autores que colocam fermento neste promissor filão literário: o dos títulos escritos por gays, com dicas para leitores não gays. Ele assina a adaptação de Dicas de sexo para mulheres por um homem gay (Ed. Jaboticaba, R$ 29, 206 págs.), versão tropicalizada de Sex tips for straight woman from a gay man, escrito em 1997 pelos americanos Dan Anderson e Maggie Berman, ele gay, ela sua fiel amiga. O original, que não foi lançado no País, nasceu das conversas de Dan e Maggie sobre agruras com o mundo masculino, preferência de ambos. O resultado é um receituário bem-humorado sobre como dar mais prazer a um homem que Fischer trouxe para a realidade brasileira. “É um livro que leva a mulher a ter um controle maior na relação sexual. Muitas me disseram que depois de lê-lo tiveram um upgrade na vida sexual”, diz Fischer.

Como uma resposta bem humorada a André Fischer, a jornalista Milly Lacombe, colunista da revista TPM, lançou o seu Segredos de uma lésbica para homens (Ed. Jaboticaba, R$ 25, 106 págs.). “As mulheres heterossexuais vieram me agradecer. Acho que o livro funciona até porque tudo que falo foi testado por mim”, diz Milly, que não se limitou a suas experiências. Fez uma larga pesquisa de campo ouvindo depoimentos de amigos. “Reuni mulheres heterossexuais e pedi que expusessem suas dúvidas. A primeira coisa que sugeriram foi que eu fizesse um mapa indicando aos homens onde fica o clitóris. Mas tive o cuidado de deixar claro que não são só lésbicas que sabem fazer uma mulher gozar”, diz. “O melhor do meu livro foi falar de sexo abertamente, com naturalidade. Foi banalizar minha própria homossexualidade”, diz Milly, que, se não tivesse se descoberto lésbica, seria, com o perdão do machismo, a mulher ideal para qualquer homem perdido. É bonita, ensina como ninguém os melhores, e nem sempre conhecidos, atalhos do sexo oral e pasmem! numa quarta-feira à noite pode ser vista em pleno estádio do Pacaembu, em São Paulo, encontrando uma certa poesia num sofrível embate entre Corinthians e Mogi Mirim. Nem tudo é mesmo perfeito.

Menos preocupado com sexo, Queer eye for the straight guy (Editora Arx, R$ 65, 256 págs.) reúne numa edição luxuosa as melhores dicas espalhadas pelo programa televisivo americano do mesmo nome (em português, algo como um olhar gay a homens heterossexuais), exibido pelo canal pago Sony aos domingos, às 20h. Para quem não conhece o show televisivo, é bem mais engraçado do que as videocassetadas do Faustão. Os gays Ted Allen, especialista em gastronomia e vinhos, Thom Filicia, craque em decoração rápida, Carson Kressley, entendido em moda, Jai Rodriguez, expert em cultura, e Kyan Douglas, guru da aparência, promovem uma revolução estética na vida dos homens heterossexuais, sempre com a eficiência e o estardalhaço devido. Os Fab Five – como eles se auto-intitulam, numa alusão ao termo Fab Four (os quatro fabulosos), como eram chamados os Beatles – têm a missão de tornar seu discípulo atraente para agradar a uma mulher. O final é sempre feliz e os cinco se derretem em lágrimas diante do êxito romântico.

O livro é dividido pela área de conhecimento dos cinco, com vastidão de dicas, diga-se, muito úteis, embora algumas um tanto fúteis. Há receitas variadas, uma enormidade de conselhos de beleza, que inclui até o uso de um cortador de pêlos do nariz, no capítulo “Jardinagem avançada”, e uma infinidade de conselhos de como decorar a casa, como se vestir e como se comportar.

Queer eye ajuda, portanto, a confirmar o conceito de que gays são chiques e descolados. É claro que devem existir homossexuais bregas, mas eles não escrevem livros nem estão na televisão.