O drama que atingiu em cheio o coração da família de João José Vasconcellos Jr., sequestrado no Iraque no dia 19 de janeiro pelo grupo extremista Brigadas al-Mujahadin, em cooperação com o Ansar al-Sunna, ultrapassou a esfera política do Itamaraty. Causou comoção e o envolvimento de vários setores da sociedade brasileira. Na quarta-feira 26, Ronaldo, jogador da Seleção Brasileira e do Real Madrid, colocou todo o seu carisma junto ao povo iraquiano em favor da libertação de Vasconcellos. “Em uma situação como essa, muito delicada, e vendo muita gente falar que sou querido no Iraque, eu peço que haja pelo menos um contato que possa iniciar a negociação para libertar o brasileiro João José Vasconcellos, que é mineiro como a minha noiva (Daniela Cicarelli). Espero que essa mensagem chegue ao coração dos que o sequestraram e que tenham um pouco de piedade para que ele possa voltar ”, apelou o Fenômeno em uma gravação a ser veiculada nas principais emissoras árabes. A diplomacia do futebol (talvez uma das mais prestigiosas faces da Nação) já havia entrado em campo no ano passado, quando a seleção canarinho fez um amistoso no devastado Haiti. Pelé e Ronaldinho Gaúcho, que também foram convocados pela família Vasconcellos, preferiram não se manifestar. O irmão do sequestrado, Luiz Henrique de Vasconcellos, contou em entrevista a ISTOÉ que a solidariedade chega de várias partes do País. “São apoios voluntários, espontâneos, de entidades. Todos demostram sua indignação e solidariedade”, disse ele.

Diariamente no Iraque reféns são sequestrados por dinheiro ou razões políticas. Mas nunca se imaginaria que um cidadão brasileiro seria refém de rebeldes iraquianos. “O Brasil sempre foi uma país pacífico, não apoiou a guerra no Iraque nem mandou tropas. Portanto, no pensamento do brasileiro essa violência se torna ainda mais injustificável. Aliás, qualquer sequestro é injustificável”, afirmou o irmão Luiz Henrique Vasconcellos. Mas ele supõe que a ação contra seu irmão João José tenha acontecido pela vertente política, porque faz parte de uma série de ações terroristas para desestabilizar o Iraque em vésperas de eleições e também porque a termelétrica para a qual João José trabalha iria trazer grande benefício à região. O engenheiro é funcionário da construtora Norberto Odebrecht, única empresa brasileira com contratos na reconstrução do Iraque. Mas ainda pode haver uma razão financeira. Os sequestradores sabem que as empresas internacionais no Iraque possuem um seguro para seus trabalhadores e, eventualmente, podem utilizá-lo em casos de resgates.

Última viagem – Como a obra em que João José Vasconcellos trabalhava estava quase no final, essa seria sua última viagem ao país em guerra. Ele passou o Natal no Brasil com a família e embarcou para Bagdá no dia 25 de dezembro. No dia do sequestro, Vasconcellos deveria deixar o Iraque. Ele saiu de Beiji, no Norte do Iraque, em direção ao aeroporto de Bagdá. Seguranças da empresa britânica Janusian
Security Risk Management, contratada pela construtura Odebrecht, acompanhavam-no. O engenheiro estava no penúltimo carro, uma BMW preta, entre um segurança britânico e outro iraquiano. O comboio caiu em uma emboscada e a BMW foi metralhada, matando os dois seguranças. Vasconcellos foi levado como refém,
em uma operação altamente planejada. As primeiras informações que chegaram
ao Brasil diziam que, além do sequestro de Vasconcellos, um outro brasileiro teria sido morto. No entanto, tanto a Odebrecht quanto o Itamaraty negaram a morte de qualquer cidadão. João José Vasconcellos é o segundo brasileiro a sofrer as consequências da violência iraquiana. O diplomata brasileiro Sérgio Vieira de
Mello, representante das Nações Unidas no Iraque, foi morto em um atentado
em agosto de 2003, quando um caminhão-bomba destruiu a sede das Nações Unidas em Bagdá.

Além dos canais extra-oficiais, o governo brasileiro enviou o embaixador do Oriente Médio, Affonso Celso Ouro Preto, a Amã, capital da Jordânia. Ouro Preto viaja à Síria para encontrar-se com o presidente Bashar al-Assad – acusado de permitir a presença de grupos terroristas na Síria –, para que intervenha pela libertação de Vasconcellos. A idéia é fazer algum contato com as Brigadas al-Mujahadin. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva está acompanhando passo a passo o caso. Outra possibilidade cogitada seria o contato com sunitas iraquianos, como o xeque Abdul Salam al-Kobeissi ou ainda a Associação dos Clérigos Muçulmanos do Iraque, que já concordou em interceder a favor do brasileiro. O Itamaraty também entrou em contato com lideranças palestinas e países como o Reino Unido, a França e a Espanha, que tiveram cidadãos sequestrados, em busca de caminhos que levem à soltura do engenheiro.

Em alguns casos, como aconteceu com os jornalistas franceses, os apelos para libertação são ouvidos. Em outros, nem com a dinheirama envolvida os rebeldes cederam e acabaram degolando seus reféns. Alguns sequestradores alcançaram seus objetivos políticos. Em julho passado, a mensagem de um refém filipino obrigou Manila a retirar seus 51 soldados do Iraque. É raro ver situações em que os governos negociem diretamente com os rebeldes, como deve ter sido o caso da Itália, que nega ter pago o resgate pela libertação das italianas de mesmo nome, Simona. Mas o fato é que os reféns estrangeiros são como ouro puro nas mãos dos extremistas. Do Nepal aos EUA, cerca de 33 países já viram seus cidadãos se tornarem reféns desde abril de 2004. Segundo o International Corporate Protection Group (ICT), 132 sequestrados foram libertados, 39 assassinados e 27 continuam presos ou desaparecidos.

Apesar da dor, do intenso sofrimento, a família Vasconcellos não perde a esperança e organiza para o sábado 29 uma grande manifestação em Juiz de Fora pela libertação de João José. Eles acreditam que ainda vão ver o dia em que ele regresse para casa. São e salvo. “Esse afeto que sempre houve entre o povo brasileiro e os iraquianos pode pesar a favor de João José. A nossa esperança é que realmente isso ocorra”, disse o irmão Luiz Henrique.