02/02/2005 - 10:00
Nas últimas eleições iraquianas, em outubro de 2002, o então presidente Saddam Hussein foi reeleito ao cargo com 11.445.638 votos, 100% dos sufrágios. Quatro anos antes, o mesmo candidato só obteve apoio de 99% dos eleitores. No domingo 30, os atuais 12 milhões de cidadãos com direito a votar não terão a mesma unanimidade diante das urnas. As Nações Unidas estimam o comparecimento às seções eleitorais em menos de 50%. O desinteresse no processo decorre, principalmente, do fato de que o exercício do direito democrático pode significar morte brutal. Os insurgentes do país – cerca de 20 mil – devem ganhar reforço para a realização de atentados.
Estima-se que desde o início da invasão americana, em março de 2003, o equivalente a 0,1% da população de eleitores iraquianos morreu (12 mil pessoas, de acordo com a organização Iraq Body Count). Somente em abril de 2004, antes da transferência de poder da “Autoridade Provisória” (comandada pelos Estados Unidos) ao atual governo de transição, 1.200 civis (0,01%) foram vítimas da violência. “Os insurgentes prometem um aumento nos atentados no domingo de eleições. É possível se montar um modelo de cálculo, em que o número de vítimas será pelo menos de 1.200”, disse a ISTOÉ o matemático Abraham Wollinsky, do Instituto de Estatísticas de Nova York.
A fórmula, assim como a idéia de que a democracia é a ditadura da maioria, representa uma deformação da lógica quantitativa. No Iraque, 60% da população
– e de eleitores – é xiita, 20% é da etnia curda e os outros 20% compõem o grupo sunita, que deverá boicotar as eleições. Assim, imagina-se que a maioria dos
mortos neste domingo sangrento será mesmo de xiitas e curdos. Não apenas porque são maioria, mas também porque vão votar. No que se refere à
democracia – que o governo George W. Bush, agora, diz ter sido a inspiração da invasão –, as porcentagens também indicam possíveis desvios da lógica. Se
menos de 50% dos que têm direito a voto irão às urnas, então o conceito de
“maioria de eleitores decidindo os destinos do país” vai por água abaixo. Some-se
a isso o fato de que os xiitas terão mais parlamentares ocupando a Assembléia Legislativa. Mais um exemplo desta desproporcionalidade: o maior número de iraquianos que se registraram para votar no exterior está no Irã, um país de xiitas.
Os que residem nos Estados Unidos (cristãos e sunitas, formando os grupos
mais representativos) estão apenas em terceira posição nos registros eleitorais internacionais. Os cristãos, aliás, estão fugindo do país em números maiores do
que nos tempos duros de Saddam Hussein: 50 mil até agora. O risco que está surgindo é mesmo o de uma ditadura da maioria.
Aposta-se na barbada de uma vitória da Aliança Iraquiana Unida – uma colcha de retalhos xiita, em que estão desde os seguidores do grã-aiatolá Ali al-Husaini al-Sistani – o maior líder religioso do país – até a milícia radical do xeque Adil Abd al-Mahdi, considerado fugitivo da Justiça americana e que moveu guerrilha contra as tropas de ocupação no começo de 2004. Os curdos – que também não compõem grupo coeso, devem ocupar alguns assentos no Parlamento, e mesmo um punhado de sunitas moderados ganhará lugar na casa. Formarão, ao todo, 275 legisladores, que devem escolher um presidente, dois vices e um primeiro-ministro – que, do quarteto, é o que terá mais poder. Espera-se que o protegido do aiatolá Sistani, Abdul Aziz al-Hakin, seja nomeado para este cargo. “Existem movimentos para que o presidente saia da etnia sunita, como forma de compromisso e de trazer este grupo para dentro do governo”, diz Carlos Valenzuela, chefe da missão de coordenação das eleições da ONU. Esta manobra serviria para tentar aplacar os ânimos sunitas, que com certeza vão participar do plebiscito para a aprovação de uma nova Constituição – a ser escrita pelos novos eleitos – em 15 de outubro. A Carta Magna só poderá ser implantada se todas as 19 províncias do Iraque a sancionarem. Quatro destes territórios são sunitas, que podem rejeitar as leis e jogar no limbo o futuro da nação.
As estatísticas também mostram os humores americanos – outro povo que tem tudo a ver com esta equação das arábias: 50% dos cidadãos americanos querem a retirada de suas tropas do Iraque logo após às eleições. Paul Wolfowitz, o subsecretário da Defesa, considerado o arquiteto máximo da invasão iraquiana, disse que a saída dos soldados americanos é “impensável”. Porém, o Pentágono calcula que a debandada aconteça em 2007. “O governo eleito neste dia 30 só ganhará legitimidade caso inclua as minorias e exija a retirada imediata das forças de ocupação do Iraque”, disse a ISTOÉ o dr. Shak Hanish, representante na Califórnia do partido União Democrática Iraquiana. Até mesmo uma ala grande dos insurgentes – principalmente aqueles ligados ao Baath (o partido de Saddam Hussein) – diz que só deporia armas se fosse estabelecida uma data próxima para a saída dos americanos. A oferta foi rejeitada por Washington. Na equação entre os que ganham e os que perdem no Iraque só há um ponto em comum entre os iraquianos: todos querem os Estados Unidos fora do país.