Mais lenha na fogueira da divergência econômica. Além de surpreender economistas e empresários, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central contrariou boa parte da Esplanada dos Ministérios em Brasília ao divulgar, na quinta-feira
27, mais uma ata superconservadora, que provocou imediata queda de 2,04% na Bolsa de Valores. Ao explicar a elevação de meio ponto porcentual na Selic, a taxa de juro básica da economia, o BC revelou que cogitou aplicar um aperto ainda maior e anunciou que o aumento dos juros prosseguirá pelos próximos meses, cumprindo “etapas adicionais de ajuste”. Dentro do governo, um grupo graduado – os
ministros do Desenvolvimento, Luiz Fernando Furlan; da Agricultura, Roberto Rodrigues; das Relações Exteriores, Celso Amorim; da Casa Civil, José Dirceu; o líder do governo no Senado, Aloizio Mercadante (PT-SP); e o presidente da Câmara, João Paulo Cunha – criticou o exagero da ortodoxia do BC. A quinta elevação consecutiva nas taxas de juro irritou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que está cada vez mais atento aos argumentos do grupo. Segundo um interlocutor próximo do presidente, na última semana Lula passou a examinar um processo de substituição na diretoria do BC, incluindo seu presidente, Henrique Meirelles, com o objetivo de torná-la mais sensível à realidade brasileira.

A ata maldita do Copom soou como um desafio aos desejos do Planalto e esquentou o óleo da fritura. Na verdade, trata-se da mais recente de uma longa série que começou em janeiro de 2003, quando o BC entrou na trilha do conservadorismo. No Palácio do Planalto, avalia-se que a diretoria do BC quebrou a confiança do governo ao dar continuidade à elevação dos juros depois de, em dezembro, sinalizar internamente que o arrocho chegara ao fim. Até Antônio Palocci, pego de surpresa com a decisão do Copom, teria ficado contrariado. O ministro, principal suporte político de Meirelles, também ficou irritado com as críticas dos colegas à política econômica, que ostentou bons resultados em 2004. Na quinta-feira 27, Palocci deixou Brasília a caminho do Fórum Econômico Mundial, um encontro de líderes de países ricos e executivos dos maiores conglomerados financeiros e empresariais do planeta, realizado anualmente em Davos, na Suíça, sem comentar a ata. Para o público estrangeiro, não acusou o golpe: em uma entrevista ao jornal econômico inglês Financial Times, desmentiu substituições na diretoria do banco. Já Meirelles desembarcou na Suíça exibindo aos seus ex-pares do mercado financeiro mundial a cartilha ortodoxa cumprida à risca. No Brasil, conta com uma porta aberta: uma instituição financeira dá como certa a troca do cargo de presidente do BC por uma candidatura em 2006. “Meus planos, no momento, são de cumprir a meta de inflação”, desconversou ele em Davos. Na verdade, o presidente do BC sonha em concorrer ao governo do Estado de Goiás. Para isso, terá que deixar o cargo até outubro de 2005.

Lula não disfarçou seu descontentamento com as avaliações econômicas do BC. Na quinta-feira 20, logo após o anúncio do aumento dos juros, o presidente colocou Palocci e Meirelles para ouvir a opinião do presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Armando Monteiro Neto, sobre as metas inflacionárias de 2005, entre outros pontos. Monteiro disse o que cada vez mais economistas vêm afirmando: “A meta é muito apertada. A inflação brasileira está impregnada pela elevação dos preços administrados (tarifas públicas e combustíveis) e pelo aumento da carga tributária. O impacto é no sistema de preços.” Dentro do governo, há a convicção de que a autoridade monetária é insensível ao dano que sua insistência em perseguir a meta inflacionária de 5,1% pode causar ao crescimento econômico. O mais antigo crítico da meta é o senador Aloizio Mercadante, que, em julho de 2004, quando os limites da inflação de 2005 nem sequer estavam definidos, alertou para o torniquete que parâmetros ambiciosos demais significariam. Agora, mantém a posição. “O erro original é a meta. Sempre defendi a idéia de que a meta de 2004 fosse estendida para 2005 e 2006. Isso permitiria um processo mais lento de queda da inflação e reduziria os riscos de erro.” Para ele, isso não significa aceitar inflação mais alta. Mercadante não aceita os argumentos da ata do Copom.

Meta absurda – O senador petista tem incomodado a equipe econômica com estudos que mostram a grande sensibilidade da economia brasileira a aumentos de preços externos e ao impacto das tarifas públicas, males que os juros altos não curam. “A meta atual é absurda e inexequível”, diz. Se tivessem seguido a sugestão de Mercadante, os economistas federais não teriam problema para acomodar o erro cometido nas projeções em junho de 2004. Na época, o BC afirmava que seria capaz de chegar ao final do ano com uma inflação de 6%. Por isso, definiu para 2005 a meta um ponto porcentual mais baixa. Mas o ano fechou com taxa de 7,6%, colocando a área econômica na berlinda. O ex-ministro e deputado Delfim Netto (PP-SP) vai na mesma toada: “Essa meta é absurda mesmo.” E vai além: “O governo eleva gastos com a máquina e, ao mesmo tempo, aumenta juros. O ajuste está recaindo apenas sobre o setor privado. O limite da paciência é finito, e está chegando.” O economista do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea), Fábio Giambiaggi, aponta preocupação semelhante. “Em uma situação de juros em elevação, seria desejável o aumento do superávit primário (resultado positivo nas contas do governo), quando o que se discute é o contrário”, diz. Neste ano, o aperto fiscal, fixado em 4,5% do PIB, superou as expectativas, chegando a históricos 4,61%, R$ 2 bilhões a mais. Em 2005, espera-se um aperto de 4,25% ou menos, se o FMI aceitar a liberação de investimentos produtivos da conta do superávit. Esse ano é considerado decisivo para o desempenho eleitoral de Lula em 2006.

Reação – O setor produtivo execra as projeções da ata maldita por outros motivos. Juros altos atraem o crédito antes destinado a investimentos na economia real e afastam os consumidores das compras. Na sede da Fiesp, em São Paulo, a poderosa entidade que reúne os industriais paulistas, o conteúdo da ata do
Copom caiu como uma bomba. Em nota, Paulo Skaf, presidente da entidade e
visto como um aliado do governo, atacou duramente os argumentos dos técnicos
do BC de que uma expansão da economia – com retomada do consumo e do
crédito e mais empregos – poderia causar descontrole da inflação. “Esses argumentos são injustificáveis. Há que se combater a principal causa da inflação, que é o excesso de gastos do governo.” No setor varejista, Antonio Carlos Borges, diretor executivo da Federação do Comércio de São Paulo, disse que a insistência dos técnicos do BC de controlar a inflação via aumento de juros deixou de ser novidade há algum tempo. “Essa política perdeu o charme e está revertendo as expectativas de empresários e consumidores.” Se o BC cumprir o que escreveu na ata, o Brasil poderá perder todo o esforço de crescimento feito em 2004, segundo Giancarlo Pereira, pesquisador da Universidade de São Paulo (USP) e consultor na área financeira. “É uma política esquizofrênica e vai acabar prejudicando o crescimento do PIB este ano.” Exceção feita ao mercado financeiro, a ata maldita esgarçou o apoio à base de sustentação de Meirelles e sua equipe.