02/02/2005 - 10:00
O controvertido correspondente do The New York Times no Brasil, Larry Rohter, podia embarcar sem essa. Depois da reportagem na qual afirmou que os brasileiros estavam preocupados com o hábito de beber do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Rohter voltou a virar notícia ao ilustrar uma matéria sobre o aumento da obesidade no País, com imagens de mulheres rechonchudas na praia de Ipanema, no Rio de Janeiro. O problema, para o NYT, é que as mulheres fotografadas não eram brasileiras, e sim turistas tchecas. Na sexta-feira 28, o jornal americano publicou uma nota de redação em sua edição lamentando o equívoco. No entanto, reafirma a sua reportagem e isenta Larry Rohter de responsabilidade. O NYT jogou o peso do erro nas costas do fotógrafo John Maier. Ele teria trabalhado independentemente do jornalista. “A publicação da fotografia foi um erro e é um embaraço para o jornal, é um erro grave”, admtiu o ombudsman Daniel Okrent, que criticou Maier por não ter identificado as pessoas que fotografou.
Rohter fez a gracinha de usar a canção de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, um hit brasileiro no Exterior, Garota de Ipanema, para escrever sua reportagem. A originalidade acabou se revelando mais uma peça do questionável método de trabalho do diário americano. Na quinta-feira 27, o jornal O Globo revelou o erro. As três turistas já anunciaram que vão processar o NYT por danos morais.
A tcheca naturalizada italiana Milena Suchopárková, 58 anos, descobriu que estava nas páginas de 13 de janeiro do NYT quando o porteiro do prédio onde estava hospedada, no Arpoador, chegou com um exemplar do jornal carioca nas mãos que reproduzia na primeira página a reportagem publicada no diário americano. “Quase desmaiei”, disse Milena, inconformada por ter sido fotografada sem permissão ao lado de duas amigas, Ludmila Kamberskaed e Hanna Seidlerova, que também estão revoltadas. Segundo Milena, Hanna “achou um absurdo viajar quilômetros e gastar tanto para depois ter o bumbum exposto mundialmente”. As amigas já voltaram para a República Tcheca, mas Milena pretende ficar no Rio até fevereiro e quem sabe desfilar em uma escola de samba.
Essa não é a primeira vez que o ombudsman Daniel Okrent admite que o jornal errou ao publicar reportagem sobre o Brasil. Rohter ficou famoso no País com o artigo “Hábito de Bebericar do Presidente Vira Preocupação Nacional”, em maio de 2004. Na época, Lula chegou a pedir o cancelamento de seu visto de trabalho no País. Okrent, sete meses depois do incidente, veio a público para criticar a escolha da foto da reportagem, que mostrava Lula com um copo de cerveja na tradicional Oktoberfest, em Blumenau (SC).
A julgar pela reação das senhoras de Ipanema da última reportagem de Rohter, o NYT está mesmo precisando rever seus conceitos. Em outra foto da reportagem sobre obesidade aparece a professora carioca Juddy Hoolliday de Jesus, 41 anos, que também não gostou das gracinhas. Ela revelou à Folha de S. Paulo que se sente humilhada pelo fato de sua foto ter sido publicada no NYT e em O Globo, que reproduziu a reportagem. Juddy afirmou ter pensado que o fotógrafo fosse um turista, e não um jornalista em busca de mulheres obesas para estampá-las num dos maiores jornais do mundo. Ela ameaça processar os dois veículos. “Se o The New York Times lançou a semente do preconceito, quem regou foi O Globo”, alega. Segundo Juddy, o episódio provocou “um tsunami” em sua vida, pela quantidade de piadas de mau gosto que tem ouvido. Ela diz também que teme virar chacota entre os alunos quando voltar a dar aulas de inglês, em fevereiro.
Mas quem virou piada foi o próprio Larry Rohter, como “muso” do samba do bloco “Imprensa que Eu Gamo”, formado por jornalistas do Rio, que saiu no sábado 22, arrastando cerca de três mil pessoas em Laranjeiras entoando o refrão “Não gosta de cachaça / Não entende de mulher / O Larry Rohter, será que ele é?” Resultado: as estripulias do jornal renderam ainda mais notoriedade a Rohter e ao bloco, que chegou a ser tema de uma reportagem da agência Reuters