02/02/2005 - 10:00

Reeleito prefeito do Rio de Janeiro em primeiro turno, esperava-se que Cesar Maia tentasse fazer do atual mandato um retumbante sucesso administrativo. Conseguiu a continuidade da própria gestão e passou os últimos anos a repetir que os cofres municipais estavam abarrotados de dinheiro. Um mês após sua posse, porém, o que se vê é uma incrível sucessão de erros e trapalhadas. Pais de alunos formaram filas enormes para garantir vagas nas escolas do município, o Eco-Orla – obra de urbanização da praia da Macumba que custou R$ 10 milhões – foi parcialmente destruído pelo mar 15 dias depois de inaugurado e o prefeito colocou em dúvida a realização dos Jogos Pan-Americanos 2007 no Rio por falta de dinheiro para obras de infra-estrutura na Vila Olímpica. O ponto mais crítico, no entanto, é a saúde, que mesmo Cesar Maia reconhece como calcanhar-de-aquiles. Há hospitais onde faltam remédios básicos, como anestésicos e dipirona. Em outros, aparelhos como respirador, tomógrafo e até ar-condicionado não funcionam. Algumas unidades atendem os pacientes nas macas e as empresas de alimentação ameaçaram suspender o fornecimento de comida por falta de pagamento de uma dívida que chega a R$ 30 milhões. “Todos os hospitais públicos do Rio têm problemas, mas na rede municipal a situação é desastrosa”, denuncia Jorge Darze, presidente do sindicato dos médicos.
O prefeito não concorda que o início tenha sido tão ruim. “Está igual a todos os meus primeiros meses de mandato: concentração no planejamento financeiro dos quatro anos e das linhas centrais de prioridade”, disse a ISTOÉ. Os problemas na área da Saúde, Cesar Maia atribui ao não-cumprimento de compromissos por parte do governo federal. “A crise termina quando o Ministério da Saúde pagar o déficit de seus hospitais que a prefeitura apenas deve gerenciar. Os desequilíbrios vêm daí.” Para o presidente do sindicato dos médicos, o argumento não é convincente. “A justificativa valeria se os problemas se restringissem aos hospitais federais que foram municipalizados. Mas os hospitais municipais também estão em péssimo estado”, reclama Darze. Exemplos não faltam. O Hospital Souza Aguiar – a maior emergência da América Latina – na quinta-feira 27 completou 72 horas com todos os seis aparelhos de raio X fora de funcionamento, segundo denunciou o sindicato. No Hospital Miguel Couto, a Justiça determinou que a prefeitura tome 30 medidas emergenciais, sob pena de multa diária de R$ 50 mil. Entre as providências estão a climatização do centro cirúrgico – onde as operações estão suspensas –, a compra de equipamento para socorrer parada cardiorrespiratória e a manutenção do refrigerador de vacinas. Outro hospital, o Paulino Werneck, funciona sem tomógrafo e centro cirúrgico. No Hospital Salgado Filho, as obras na emergência já duram três anos.
Nas 27 unidades que o governo federal repassou para a prefeitura, a situação é a mesma. Na terça-feira 25, o Hospital da Lagoa suspendeu operações por falta de medicamentos e de condições de infra-estrutura. Somente internações de emergência são aceitas. Um ofício assinado pela diretora do hospital, Maria Alcina Bernardes, informou que pacientes já internados à espera de cirurgia que estivessem em bom estado deveriam receber alta. O Conselho Regional de Medicina do Rio de Janeiro (Cremerj) entrou com ação judicial contra a prefeitura para exigir providências como a reposição dos medicamentos, o conserto de equipamentos e a reforma no prédio. “O hospital está muito precário”, reclama Márcia Rosa de Araújo, presidente do Cremerj. O presidente do sindicato também esteve na unidade. “Não há condições de trabalho. O número de infecções é crescente”, diz Darze. No Hospital de Ipanema, o quadro caótico levou o juiz da 1ª Vara de Fazenda Pública a determinar que a prefeitura resolvesse os problemas do centro cirúrgico, que esteve interditado pela Vigilância Sanitária por causa do vazamento de água no forro. Os elevadores estão sem manutenção e o CTI funciona de maneira improvisada. Nos outros hospitais federais municipalizados, também faltam equipamentos e medicamentos. “Representantes do Ministério da Saúde avaliam que a causa desses problemas não é a falta de recursos, mas a má administração”, conta Darze. Procurado por ISTOÉ, o secretário municipal de Saúde, Ronaldo Cézar Coelho, alegou agenda cheia, para não dar entrevista.
A crise na saúde é um dos vários problemas graves que Cesar Maia não gerencia como deve já no primeiro mês do ano. Outra questão importante foi a falta de recursos para obras de infra-estrutura na vila esportiva, que está sendo construída para o Pan 2007. Há duas semanas, a imprensa publicou que o prefeito colocava em dúvida a realização do evento em terras cariocas. “Se não conseguirmos as parcerias para a promoção do Pan, ele não será realizado”, teria dito. A ISTOÉ, Cesar Maia negou ter posto em dúvida a realização do evento e que, na verdade, naquela ocasião tratava sobre Parcerias Público-Privadas para completar as obras. “Nem sei quem interpretou o que eu disse sobre PPPs daquela maneira. Coisas que quando criança chamava de telefone sem fio”, ironizou. Na última semana, o ministro dos Esportes, Agnelo Queiroz, disse que o governo federal garantirá os recursos necessários à realização do Pan. Antes, porém, o ministro se mostrou surpreso com as declarações de Cesar. “Isso causa prejuízo porque passa a sensação de insegurança para toda a América, para todos os participantes. Não existe a hipótese de o Brasil perder o Pan, que é um compromisso internacional nosso”, garantiu o ministro. Se um dos parceiros do empreendimento tiver dificuldades, acrescentou, “o problema deve ser resolvido entre nós, com diálogo, como tem sido feito há dois anos”.
Dores de cabeça – Outro contratempo foi o desabamento da obra de infra-estrutura na praia da Macumba, batizada de Eco-Orla, apenas 15 dias após ter sido entregue à população. Depois de um ano de obras ao custo de R$ 10 milhões, parte da ciclovia e do deque de madeira não resistiu à força das ondas. Também não faltaram dores de cabeça na área da Educação. Os pais de alunos da rede municipal entraram o ano dormindo em filas quilométricas para assegurar a matrícula de seus filhos em escolas mais próximas de casa. O movimento obrigou a prefeitura a antecipar o início do período de matrículas. A última polêmica em que Cesar Maia se meteu teve como tema a decoração de Carnaval – na verdade, uma sucessão de painéis publicitários com desenhos do cartunista Lan ao lado do logotipo e do símbolo de uma empresa de telefonia móvel. A ornamentação foi questionada na Justiça e o juiz da 1ª Vara de Fazenda Pública chegou a determinar que as marcas comerciais fossem cobertas. No primeiro mês da nova gestão, como se vê, o prefeito – que se credenciou à corrida presidencial em 2006 – contrariou a fama de bom administrador ao empurrar a Cidade Maravilhosa para o caos.
Jogo do Pan: o ministro dos Esportes, Agnelo Queiroz, se mostrou surpreso com as declarações de Cesar de que não havia dinheiro para as obras. “Isso causa prejuízo porque passa a sensação de insegurança para toda a América, para os participantes”
