13/02/2008 - 10:00

NA SELVA Com 17 mil soldados, muitos deles crianças e adolescentes, as Farc ainda dominam 30% do território colombiano
Aestratégia e as imagens lembraram as gigantescas manifestações contra o ETA, o grupo terrorista que luta para desmembrar o País Basco da Espanha. No domingo 3, centenas de milhares de colombianos ocuparam as ruas do país – da capital Bogotá, passando por Medellín, Cali e Cartagena e chegando até a cidades de menor porte – numa veemente corrente de protestos contra as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, as Farc, e sua tática de seqüestrar civis. A comoção causada pelos relatos das reféns Clara Rojas, ex-candidata à vice-presidência, e Consuelo González, ex-deputada, liberadas no início de janeiro, era a peça que faltava para que o governo do presidente Alvaro Uribe desse a cartada da mobilização popular contra os guerrilheiros. Clara expôs ao mundo o drama de ter sido separada de seu filho, Emmanuel, concebido e nascido durante seu cativeiro de seis anos.
Seis décadas depois do início de uma guerra civil que matou 300 mil pessoas, emigrantes colombianos e ativistas políticos transformaram o protesto contra as Farcs numa movimentação global – as passeatas se sucederam em Sydney, Miami, Nova York, Washington, Tóquio, Londres, Madri, Paris, Genebra, Berlim e até no Rio de Janeiro e em São Paulo. Convocadas por estudantes e profissionais liberais através da internet, elas ocorreram dois dias depois que as Farc anunciaram a libertação de mais três reféns.
Para o presidente Uribe, os protestos de rua são a melhor jogada de marketing numa guerra travada em várias frentes. Eleito em 2002, ele implantou uma política de mão de ferro contra as Farc, aumentando a repressão e encurtando o território da guerrilha. Na outra ponta, reintegrou à vida civil integrantes de grupos paramilitares, que contabilizam os assassinatos de dez mil pessoas, entre elas 1.200 ex-guerrilheiros das Farc (incluindo dois candidatos a presidente), que entre 1986 e 1991 aceitaram um acordo de paz com o governo e militaram democraticamente no partido União Patriótica (UP). Ao mesmo tempo, Uribe criou uma legislação especial para permitir a reinserção social de guerrilheiros que abandonassem as armas.
As Farc sentiram o golpe – mais de 1.000 homens e mulheres largaram a guerrilha nos últimos cinco anos, seduzidos pela nova identidade dada pelo governo. Sem a mobilidade de antes, quando obtiveram do então presidente Andrés Pastrana, entre 1998 e 2002, uma área desmilitarizada de 42 mil quilômetros quadrados (o equivalente ao tamanho da Bélgica) para negociações de paz, os guerrilheiros buscaram abrigo físico, tático e político na Venezuela do coronel Hugo Chávez. As Farc ainda têm um efetivo de 17 mil homens – muitos deles crianças e adolescentes recrutados à força –, controlam quase 30% do território colombiano e possuem cerca de 700 reféns em seu poder.
É por conta dessas mudanças que o drama dos seqüestrados foi parar na vitrine política dos três lados agora enredados no conflito. Segundo a guerrilha, as três novas libertações são um gesto unilateral de reconhecimento aos “persistentes esforços para concretizar um acordo humanitário” por parte do presidente Chávez e da senadora colombiana de oposição Piedad Córdoba. No curto prazo, contudo, as Farc esperam trocar 45 reféns de projeção nacional por cerca de 500 guerrilheiros presos. Nenhum aceno foi feito em relação ao seu troféu mais valioso, a ex-candidata a presidente Ingrid Betancourt, seqüestrada em fevereiro de 2002 e mantida em cativeiro desconhecido desde então.

Para o governo, a mobilização das ruas é também uma tentativa de unir um país ainda dividido sobre como enfrentar a guerrilha. Enquanto a grande maioria, vestida de branco, expressava apoio à política de linha dura do presidente Alvaro Uribe – com farpas reservadas a Chávez –, partidos de oposição organizaram passeatas paralelas, com manifestantes trajando preto e desferindo críticas também aos paramilitares de extrema-direita, não apenas às Farc. Os parentes dos seqüestrados preferiram evitar o confronto e mandaram rezar missas pelas vítimas. Em Paris, a família de Ingrid Betancourt classificou os protestos contra as Farc como “justificativa para a política belicosa de Uribe”.
Na batalha por corações e mentes, Uribe tem levado a melhor. As passeatas obrigaram a oposição a também pôr gente na rua e deram visibilidade internacional à crueldade dos guerrilheiros (que acorrentam reféns a árvores e os deixam isolados na selva). E as próprias Farc tiveram de abrir uma porta de negociação com o governo – ainda que seja por intermédio de Hugo Chávez.
A trajetória da guerrilha remonta à guerra civil iniciada em 1948 com o assassinato do líder liberal Jorge Eliécer Gaitán, o principal expoente dos movimentos populares contra a oligarquia latifundiária dominante. Embora o assassinato tenha provocado o Bogotazo, violentos distúrbios civis em Bogotá – Gaitán tinha sido prefeito da cidade –, vários conflitos irromperam depois no campo, onde o governo do Partido Conservador reprimiu duramente as organizações camponesas, inicialmente ligadas ao Partido Liberal. A aliança dos liberais e conservadores para dividir o poder na Frente Nacional, a partir de 1958, no entanto, deixou as organizações camponesas sob influência do Partido Comunista.
As Farc nasceram oficialmente como braço armado do PC, em 1964, quando o governo decidiu retomar os territórios dominados pelos camponeses. O assentamento escolhido foi o Marquetalia, liderado por Manuel Marulanda Vélez, o “Tirofijo” (tiro certeiro). A operação envolveu milhares de soldados do Exército e até aviões. Os camponeses reagiram com a tática de guerrilhas. A primeira negociação do Estado colombiano com os grupos guerrilheiros ocorreu na década de 1980, sob o presidente Belisário Betancur, do Partido Conservador. Em 1984, depois de um armistício assinado entre as Farc e o governo, foi criada a União Patriótica. “Em conseqüência do fracasso da luta política através da UP, as Farc radicalizaram na luta armada”, diz o sociólogo colombiano Jesus Izquierdo. Nos anos 90, em virtude da adoção de práticas de extorsão e da aliança com traficantes, as Farc se expandiram por todo o país, impregnando- se da marca de “narcoguerrilha”.
“Enquanto em algumas regiões do país formavam-se alianças estratégicas entre o narcotráfico e a guerrilha, em outras desencadeavam-se sangrentos confrontos entre esta última e os exércitos privados dos chefes das drogas, agora aliados das Forças Armadas”, diz o professor Santiago Villaveces-Izquierdo, do Programa Presidencial para Substituição de Ilícitos (Plante), de Bogotá. Nas regiões isoladas das bacias do Amazonas e do Orinoco, a guerrilha oferecia proteção militar para laboratórios de coca em troca de uma porcentagem nos lucros. Mas em regiões menos isoladas, onde predominavam grandes latifúndios para criação de gado, o confronto entre guerrilheiros e narcotraficantes foi a tônica, como resposta dos barões da droga aos seqüestros e extorsões praticadas pelas Farc para arrecadar fundos. Essa foi a origem dos famigerados grupos paramilitares, depois agrupados em nível nacional nas Autodefesas Unidas da Colômbia (AUC).
Passando dos 80 anos, Tirofijo é hoje o mais velho guerrilheiro em atividade. Mas, com um líder em decadência, imprensadas contra a selva e sem apoio popular, as Farc vivem atualmente uma espécie de recuo estratégico. Pode ser a deixa que faltava para uma ofensiva de grande porte do governo – uma espécie de overdose militar contra um inimigo que até agora nunca venceu, mas também não pôde ser vencido.
