13/02/2008 - 10:00
CUIDADO Antes de comprar, Simone lê os rótulos com atenção
Há um velho ditado segundo o qual tudo o que é demais passa. Nada mais verdadeiro quando o assunto é a preocupação com a saúde. Na medida certa, é garantia de uma vida com mais qualidade. Em excesso, transforma-se em um pesadelo que pode atrapalhar a vida do indivíduo e a de quem está ao seu lado. O problema é que, nestes tempos de informações maciças sobre a necessidade de adoção de um estilo de vida adequado, muita gente está começando a ir além do ponto. São pessoas que padecem do que os especialistas chamam de ortorexia.
Trata-se de um distúrbio de comportamento caracterizado por uma preocupação demasiada em ser saudável. É diferente da anorexia, transtorno cujo sintoma é a recusa em se alimentar. Os anoréxicos querem emagrecer a qualquer custo. Os ortoréxicos querem ser sadios. Para isso, o indivíduo desenvolve uma obsessão por dietas que considera apropriadas. Ele não come nada que ache nocivo. Entre os alimentos normalmente banidos estão enlatados e carne vermelha. Quase sempre, ingere apenas frutas e legumes – de preferência orgânicos –, risca do cardápio inclusive carnes brancas e passa longe de açúcares e farinhas, por exemplo. O resultado é que as refeições tornam-se o centro principal de atenção da vida da pessoa. Ela perde horas planejando o que vai comer ou gasta um tempo muito grande nos supermercados porque quer ler o rótulo de tudo o que pretende comprar.
Os especialistas diagnosticam um ortoréxico quando essa situação chega a um nível tal que o indivíduo começa a ter prejuízos na sua vida pessoal e/ou profissional. “Ele não quer mais sair para comer fora e se vai à casa de alguém leva sua própria comida, por exemplo”, explica a médica nutróloga Daniela Hueb, de Bauru, interior de São Paulo. É claro que essas atitudes geram problemas nos relacionamentos. Foi o que aconteceu com a nutricionista Simone Odassi. Tudo começou porque ela queria perder peso. Depois, quando viu, recusava-se a ir a casas onde considerava a alimentação inadequada e não queria mais jantar fora com o marido. “Fiquei radical demais”, admite. Hoje, ela tem o apoio do esposo para alertá-la quando está sendo muito rigorosa com as restrições alimentares, mas confessa que ainda passa muito tempo nos supermercados lendo os rótulos.
ALERTA Daniela trata muitos portadores do problema
A ortorexia não é considerada uma doença. Mas tem aumentado tanto que os especialistas estão preocupados. “Há dez anos era raro atender um portador. Hoje, por exemplo, estou com cinco casos no consultório”, afirma o endocrinologista Tércio Rocha, do Rio de Janeiro. No consultório de Daniela é a mesma coisa. “O problema está crescendo demais”, diz. O grande temor é que os indivíduos evitem tanto os alimentos que, aí sim, tornem-se vítimas da anorexia, distúrbio que pode levar à morte.
O tratamento se baseia em medicação (antidepressivos) e psicoterapia. “Queremos ajudar a pessoa a mudar a forma de ver os alimentos”, explica a psicóloga Sueli Guimarães, da Universidade de Brasília. Uma das abordagens é expor o indivíduo gradualmente ao alimento que rejeita. “Aos poucos, ele percebe que nada de tão ruim acontecerá se souber comer corretamente”, afirma a psicóloga. A dona de restaurante Queila Santos já entendeu isso. Ela havia retirado as carnes do cardápio, entre outras coisas. “Comecei a ter tonturas”, lembra. “Percebi que não estava sabendo dosar os cuidados”, conta. Agora, voltou a uma alimentação mais equilibrada. “Só continuo não comendo produtos com corantes e enlatados”, diz.



