13/02/2008 - 10:00
Uma preocupante estatística tem deixado médicos em alerta. Os casos de Aids na população idosa estão alcançando índices alarmantes. Dados do Ambulatório de Aids do Idoso do Hospital Emílio Ribas, em São Paulo – um dos principais centros de referência no tratamento da doença no País – mostram que nos últimos três anos o total de pessoas com mais de 60 anos atendidas mensalmente no serviço aumentou 400%. Saltou de 20, em 2005, para 100, em 2007. Pelo menos 20 delas são indivíduos recém-contaminados. Outro dado que chama a atenção refere-se ao perfil dos pacientes. Segundo o relatório, 85% são homens, 75% casados. E 80% se contaminaram em relações sexuais sem proteção. “Essa constatação revela o risco que as esposas estão correndo. Muitas se infectam por meio dos maridos”, afirma o infectologista Jean Gorinchteyn, médico do centro.
Outra estatística, do Programa Nacional de Doenças Sexualmente Transmissíveis e Aids, do Ministério da Saúde, aponta a mesma tendência registrada pelo Emílio Ribas. Em 2000, foram notificados 29.778 casos na população até 49 anos. Seis anos depois, eram 32.628. Ou seja, um crescimento de 10%. Já entre os indivíduos com mais de 60 anos, o aumento foi de 65% no mesmo período. Em 2000, foram notificados 675 casos. Em 2006, o número subiu para 1.113. “Essas pessoas não envelheceram com a doença. Elas se contaminaram numa fase mais madura da vida”, afirma a médica Mariângela Simão, diretora do Programa Nacional de DST/Aids.
Há várias explicações para esse fenômeno. O primeiro é o incremento da vida sexual dos mais velhos favorecido pelos remédios contra impotência. Depois, há o aumento da expectativa e da qualidade de vida proporcionado principalmente por medicamentos com menos efeitos colaterais. Com mais vigor, eles trabalham, se divertem e se relacionam mais. “Isso configura uma situação de risco porque entre essa população o sexo é praticado sem proteção”, diz Mariângela. A médica toca em um ponto crucial. Entre homens e mulheres com mais de 60 anos, há a percepção de que não correm risco de serem infectados. “Eles são de uma geração que cresceu sem a Aids e, por isso, vivem como se fossem imunes ao vírus”, afirma a especialista.
O crescimento de casos de idosos portadores do HIV coloca um grande desafio à medicina e aos governos. Isso porque algumas peculiaridades precisam ser consideradas no que diz respeito ao tratamento e às políticas de prevenção. Como impedir a proliferação da Aids nessa população? Como encontrar o melhor tratamento que leve em conta as limitações físicas dos idosos? A medicina corre atrás das respostas enquanto aplica os recursos de que dispõe. Hoje, o coquetel de drogas anti-retrovirais, que atacam o vírus, é a conduta-padrão de terapia. O problema é que uma pessoa mais velha em geral já é portadora de doenças como diabete e distúrbios cardiovasculares, enfermidades que podem ser agravadas pelo uso dos medicamentos contra a Aids. Por isso, é preciso escolher aqueles que apresentam menor risco de complicações.
Outro desafio é identificar a doença rapidamente. Como se trata de um cenário novo, os profissionais de saúde não estão habituados a pensar em Aids como uma possibilidade de diagnóstico. O resultado é que não são poucos os casos de pneumonias e diarréias tratadas como sintomas de qualquer outro problema, menos Aids. A mesma coisa ocorre com a demência, sinal de males típicos do envelhecimento, como o mal de Alzheimer, mas também com chance de acontecer com soropositivos.
Na verdade, a raiz dessa falta de atenção pode estar na maneira como em geral a sociedade encara a sexualidade na velhice. “O velho é invisível como cidadão. Ninguém imagina que aquele senhor ou senhora de cabelos brancos tenha vida sexual ativa”, afirma Gylce Cruz, coordenadora do curso de pós-graduação em infectologia e geriatria da Universidade Católica de Santos, em São Paulo. A pesquisadora é uma das poucas no País que se dedicaram a estudar o assunto com mais profundidade. Entre 1999 e 2003, ela realizou sua tese de mestrado traçando um perfil epidemiológico de soropositivos na terceira idade atendidos no município paulista. Foram estudados 54 homens e 43 mulheres com idades entre 60 e 79 anos. Entre outros dados, o estudo mostrou que 31,5% dos homens tinham se infectado em relações com múltiplas parceiras. Em relação às mulheres, 39,5% haviam sido contaminadas pelos maridos. “É ingênuo pensar que o idoso não se relaciona sexualmente. Portanto, é urgente que se criem medidas preventivas para essa faixa etária,” afirma Gylce. Porém, um dos sinais de quanto a questão ainda é ignorada é o fato de o assunto não ter entrado na pauta de prioridades da Organização Mundial da Saúde, por exemplo.


Além das questões que envolvem a prevenção e os cuidados físicos, os especialistas têm pela frente a tarefa de criar um sistema de apoio psicológico dirigido aos mais velhos, considerando sua situação. “A família fica abalada. É difícil para aquele homem visto como o bom pai, o avô carinhoso, por exemplo, assumir que está com Aids”, afirma Gorinchteyn. Quanto às mulheres, se forem casadas, há o ressentimento de terem sido infectadas por companheiros de anos e anos de casamento. “Mas em nome da família e da longa caminhada que o casal tem junto, ela o acolhe e passa a cuidar de si e da saúde do companheiro”, conta o médico.

A vergonha e o medo de serem julgados fazem com que mais da metade dos pacientes não conte às famílias. Também é comum recorrerem a disfarces para não ser descobertos. Mentem que vão ao cardiologista quando precisam ir ao infectologista, trocam a embalagem dos remédios e pedem ao especialista que não se identifique se precisar ligar para suas casas. O militar aposentado João, 60 anos, de Brasília, portador há quatro anos, é um dos que escondem sua condição. “As pessoas são preconceituosas. Ficaria muito deprimido se sofresse discriminação”, diz.



