17/12/2008 - 10:00
Cultura
Marcado para morrer
Ameaçado pela máfia napolitana, o escritor Italiano Roberto Saviano, autor de Gomorra, continua em sua batalha contra o crime organizado
Ivan Claudio
Sempre que chegava à sua casa na cidade de Casal di Principe, vizinha de Nápoles, no sul da Itália, o escritor e jornalista italiano Roberto Saviano, 29 anos, assistia a uma cena comum no cinema. Os vizinhos o espreitavam pelas frestas das janelas e iam fechando as venezianas à medida que ele avançava. Se ia a uma padaria ou a um bar, era recebido com um pedido do dono: "Será que você não poderia escolher outro estabelecimento?" Eis o motivo de Saviano ter se tornando uma pessoa indesejável em seu próprio bairro: ele é o autor de Gomorra (Bertrand Brasil, 450 págs., R$ 39), o mais celebrado livro sobre a máfia napolitana, conhecida como Camorra. Desde a sua publicação, em 2006, a obra vendeu mais de dois milhões de exemplares na Itália e virou best seller em 33 países. No início do ano, a detalhada reportagem romanceada ganhou as telas do cinema no filme homônimo de Matteo Garrone, vencedor do Festival de Cannes e disparado favorito ao Oscar de melhor filme estrangeiro. Na sexta-feira 19, livro e filme chegam ao Brasil em um momento crucial da vida de Saviano. Com a cabeça a prêmio pela máfia, que jurou matá-lo até o Natal, e vivendo sob proteção do governo italiano, o escritor formado em filosofia saiu da clausura e decidiu enfrentar a ameaça de vendeta. Mas não sem a companhia de seus três seguranças, que ele chama de "meus companheiros".
Recentemente, Saviano teve mais uma pessoa acrescentada à sua escolta. Trata-se do escritor inglêsindiano Salman Rushdie, jurado de morte no passado pelo regime dos aiatolás, com quem participou no final de novembro de um evento sobre a liberdade de expressão na Real Academia Sueca. "A palavra só ameaça quando sai da sombra", disse Saviano em seu discurso. Seu raciocínio é que a Camorra só se sentiu ameaçada depois que a obra, lançada com uma tiragem de apenas cinco mil exemplares, começou a disparar nas vendas. "Para a máfia um livro é apenas uma bobagem lida por quatro pobres intelectuais de esquerda. Se não começasse a vender dez mil, 20 mil exemplares, não teria acontecido nada", disse em entrevista. Ele passou cinco anos trabalhando em pequenas atividades ligadas à organização e chegava a interceptar mensagens da polícia para chegar mais rápido aos locais de interesse para sua investigação.
A reunião de informações é de arrepiar os cabelos. É claro que o narcotráfico continua na base dos negócios ilícitos, mas o cenário que o livro descortina – e que coloca a Camorra como uma verdadeira empresa globalizada, com tentáculos até no Brasil – é o vasto leque de seu campo de ação.
Construção civil, moda, turismo, coleta de lixo – a máfia se faz presente em várias atividades. Aquela que mais surpreende é a da pirataria da alta-costura, descrita no segundo capítulo, intitulado Angelina Jolie. A estrela americana é lembrada porque a sua aparição na entrega do Oscar com um tailleur de cetim branco, atribuído a uma grife famosa, coroa toda uma prática corrente na indústria da moda devassada pelo escritor. Na verdade, o tal terninho havia sido confeccionado por um alfaiate da periferia de Nápoles e vendido por uma ninharia numa encomenda americana. No livro, fica-se sabendo que a máfia financia esses pequenos ateliês e que existem até leilões de encomendas, quando as fábricas artesanais se comprometem a produzir, em tempo recorde, cópias de peças caríssimas das "maisons".
Angelina não deve ter gostado da idéia, porque quem aparece vestindo o modelito de etiqueta falsa na transposição da história para o filme é Scarlett Johansson, no tapete vermelho do festival de Veneza. Co-autor do roteiro, Saviano costura bem as histórias numa narrativa de estrutura coral, ou seja, na qual não existem personagens principais. Do vasto panorama do livro, selecionou cinco grupos de personagens, definidores de alguma faceta da máfia. Existe o garoto Totò, cujo sonho é virar "vapor" no tráfico de cocaína; o contador Don Ciro, encarregado da assistência aos familiares de mafiosos presos; o negociante de lixo tóxico Franco, responsável por infectar o solo da Campânia com os resíduos produzidos pelas indústrias do norte da Itália; e o citado alfaiate Pasquale, que passa a trabalhar para os chineses. Essas histórias são atravessadas pela trajetória dos bandidos amadores Ciro e Marco, eles também, como Saviano, jurados de morte pelos tubarões do crime organizado. O erro da dupla: não entrar para o quadro da máfia napolitana cujo nome real é Sistema. Segundo o autor, o termo Camorra é coisa de cinema. "É uma palavra que faz rir seus filiados", escreve ele.
Depois do livro e do filme, os integrantes do Sistema devem estar com um riso amarelo.
"No Rio de Janeiro e em São Paulo, os secondiglianesi (mafiosos de Nápoles) dominavam o mercado de roupas"
Roberto Saviano

