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HISTÓRIA Fazenda da Pedra, em São Fidélis, onde dom Pedro II se hospedou em três ocasiões

A comemoração pelos 200 anos da chegada da família real ao Brasil inspira um resgate histórico importante e joga luz em um belo conjunto arquitetônico do norte do Estado do Rio de Janeiro. São mais de 30 fazendas, igrejas e outras construções da região datadas dos séculos XVIII e XIX, que remetem ao Vale do Loire, região da França onde há a maior concentração de castelos do mundo. As edificações fluminenses estão sendo restauradas e deverão ser expostas à visitação pública. A iniciativa nasce da aliança de nove prefeituras com os fazendeiros locais. São casarões da época do ciclo do açúcar, produto que garantia à Coroa um polpudo rendimento. O próprio dom Pedro II e seus ministros estiveram na região, em 1847. “Foi recebido com grandes honras e festas”, relatou Rubem de Almeida Pereira, escritor que acompanhou a comitiva. Quarenta anos após dom João VI e sua família pisarem pela primeira vez no País, dom Pedro II e seu grupo passaram mais de um mês visitando as cidades locais, principalmente Quissamã, onde foi padrinho de um casamento. “É um dos conjuntos mais importantes do ciclo açucareiro no Brasil”, classifica o historiador Milton Teixeira.

A idéia é promover um roteiro turístico. “Além de mostrar um período importante de nossa história, vamos criar uma atividade econômica relevante na região”, diz o secretário de Desenvolvimento Econômico e Geração de Renda de Quissamã, Haroldo Carneiro. “Os custos para a preservação das fazendas são muito altos e o dinheiro do turismo vai ajudar nessa tarefa.” Para viabilizar esses planos, foi criado o Instituto Sete Capitães, cujo nome é uma alusão aos nobres portugueses que no início do século XVI receberam do rei a incumbência de ocupar aquelas terras, desalojando os índios goitacazes que viviam ali. O instituto planeja incentivar a criação de hospedagens nas próprias fazendas no estilo bed and breakfast (cama e café-da-manhã, como são chamadas as casas de famílias credenciadas a receber turistas) e incrementar a infra-estrutura de serviços, além de promover eventos culturais. “Queremos fazer um festival artístico no segundo semestre”, explica Ana Luisa Meneses, que é diretora de eventos do instituto e proprietária da fazenda Duas Barras, inaugurada em 1847, mesmo ano da visita de dom Pedro II. “Conseguimos manter em bom estado o casarão e o mobiliário de época”, diz ela.

Há várias outras atrações. Em Quissamã, onde está o maior número de casas históricas, um exemplo é o solar Mandiqüera, construído entre 1875 e 1879, que foi residência do conde de Araruama. É uma das construções mais suntuosas do interior do Estado do Rio, mas precisa ser restaurada. “Estamos iniciando esse processo de restauração agora”, diz o secretário Haroldo Carneiro. Outros casarões estão em bom estado. Como é o caso da Fazenda São Manuel, de 1886, a Fazenda Santa Francisca, de 1852, e a casa do visconde de Araruama, que foi construída em 1826 e virou museu. Outro destaque não é nenhum casarão de família rica. É a Fazenda Machadinha, uma antiga senzala que ainda abriga 40 famílias de descendentes de escravos.

Nos municípios vizinhos, a Fazenda da Pedra, localizada em São Fidélis, tem a sede datada do século XVIII. Ali, dom Pedro II e a comitiva real se hospedaram em três oportunidades. Na cidade também está a mais antiga das construções, a Fazenda Mato da Pipa, de 1777. Na maior cidade da região, Campos, está localizado o Solar dos Airizes. Comenta-se que o escritor Bernardo Guimarães teria se inspirado no local para criar o romance Escrava Isaura. O prédio, que foi bastante castigado pelo abandono, terá sua restauração iniciada ainda este ano. Campos foi a segunda cidade mais importante do período imperial e abriga várias fazendas importantes do ciclo do açúcar. Macaé, São João da Barra, Carapebus, Casemiro de Abreu, Rio das Ostras, Silva Jardim são as outras cidades que compõem o roteiro.

Com o Instituto Sete Capitães, os municípios da região norte fluminense, conhecidos pelos royalties do petróleo que enchem os cofres das prefeituras, iniciam uma nova atividade econômica. “Essa é uma saída inteligente para restaurar o patrimônio e colocá-lo ao alcance do público”, elogia o historiador Teixeira. Ainda há vários obstáculos a serem superados – além da infra-estrutura de serviços, é urgente a melhoria da rodovia RJ-196, que dá acesso a Quissamã –, mas a matéria-prima para um charmoso passeio pelo passado do Brasil está ali.

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