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Davos e Porto Alegre abriram alas neste ano para o bloco do Planalto passar. O duelo de idéias, que desde 2001 atrai os holofotes mundiais em dois fóruns antagônicos – o Econômico e o e Social –, se transformou neste ano em gigantescas passarelas para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e seu governo. Uma semana antes de o Carnaval chegar, representantes de 18 ministérios e outros órgãos da administração federal desfilaram nas avenidas globais durante seis dias, entre a quarta-feira 26 e a segunda-feira 31, quando termina o Fórum Social. A missão dos ministros de Lula foi mostrar e defender as ações dos dois anos de sua gestão, além de tentar atrair investimentos estrangeiros – a palavra de ordem deste terceiro ano de mandato. Entre os mais importantes produtos expostos na vitrine brasileira em Davos estavam as Parcerias Público-Privadas (PPPs), o principal instrumento para atrair capital privado para obras de infra-estrutura. O governo pretende atrair neste ano US$ 20 bilhões em investimentos estrangeiros diretos. “Brasil e Parceiros: Oportunidades de Investimentos”, era o título de um dos seminários de Davos.

Além de se tornar estrela do encontro das elites mundiais, transformando-se numa espécie de porta-voz do combate à fome, Lula também encontrou terreno fértil para a tarefa de vender o Brasil lá fora. O País foi alvo de muitos elogios no Fórum Econômico, que divulgou um estudo ressaltando como ponto positivo de 2004 a volta do crescimento econômico (que chegou a 5%). Mas o principal desafio aconteceu nas vésperas de Davos. Figura cativa do Fórum Social Mundial, criado em Porto Alegre, em 2001, por ONGs e movimentos de esquerda, Lula foi com a cara e a coragem enfrentar o que já sabia que ouviria: vaias. Lá, a temperatura estava bem mais alta, dentro e fora das salas de debate. Na quinta-feira 27, o presidente encarou um estádio com mais de dez mil ativistas. As vaias eram insistentes, mas partiam de uma minoria na platéia: eram radicais do PSTU, do PSOL e do MST. Lula não perdeu o controle: “Os de fora que não se assustem.

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Os que não querem ouvir são os filhos do PT que se rebelaram. É próprio da juventude, que um dia vai amadurecer, e estaremos de braços abertos para recebê-los”, afirmou, durante o lançamento da campanha “Chamada Global para a Ação Contra a Pobreza”. Boa parte do público o aplaudia. Muitos usavam camisetas com a inscrição “100% Lula”, distribuídas pelo PT, que há meses preparava cuidadosamente a estratégia de ação e de defesa do partido e do governo no Fórum Social. Lula lembrou ainda dos velhos tempos de líder sindical, quando teve que enfrentar vaias de companheiros nas tensas assembléias dos metalúrgicos. “Ouço esse barulho desde 1975. Meus ouvidos estão calejados. A democracia também tem esse gesto feito pela boca daqueles que não têm paciência de ouvir as verdades”, disse Lula.

O encontro dos pobres foi transmitido pela TV Brasil,
a tevê pública internacional, através de parceria da Radiobrás com a TV Câmara e a TV Senado. As principais estrelas do FSM foram o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, os escritores José Saramago (Portugal), Prêmio Nobel de Literatura, Eduardo Galeano (Uruguai), o físico austríaco Fritjof Capra e a ex-primeira-dama da França Danielle Miterrand, além de Lula, é claro. O presidente ousou ainda mais ao propor ao Fórum Social – criado justamente para se contrapor ao Econômico – uma união entre os dois. “Se ficarmos apenas reunidos entre nós, falando da fome, e não conversarmos com aqueles que são responsáveis por ela, será muito mais difícil. Ou nós nos juntamos ou nós não teremos saída”, disse Lula.

Davos ainda está muito distante de Porto Alegre. Mas algo já mudou. Na edição deste ano, o encontro de Davos foi pautado pela discussão sobre a fome, o tema levantado por Lula há dois anos. O Fórum Econômico Mundial, nascido há 35 anos nos alpes suíços, reúne a elite financeira e econômica, além de estrelas do mundo cultural. É a segunda vez que Lula participa do evento. Na primeira, em janeiro de 2003, ele havia acabado de assumir o Planalto e atraiu as atenções mundiais ao lançar a proposta de criar um fundo para combater a miséria com a taxação sobre transações financeiras. No ano passado, Lula ficou de molho: não participou de nenhum dos fóruns. Mas agora, o presidente voltou à cena mundial com toda a força. Na sexta-feira 28, ao desembarcar na gelada Davos – a temperatura era de cerca de 15 graus negativos –, Lula sentiu o calor da recepção dos líderes mundiais, que escolheram como tema prioritário do encontro justamente o seu assunto número 1: a guerra contra a fome no mundo. O presidente da França, Jacques Chirac, foi um dos mais entusiasmados defensores do projeto de Lula. “Consegui introduzir lá (em Davos) o tema do combate à fome e à pobreza”, comemorou Lula. De fato, uma pesquisa feita com os participantes do Fórum Econômico mostrou que eles consideram a erradicação da fome a tarefa mais importante. Outro líder mundial, o primeiro-ministro britânico, Tony Blair, brindou Lula com boas notícias ao convidá-lo a participar da reunião do G-8 (grupo dos sete países mais industrializados do mundo e a Rússia), em julho, na Escócia. A pauta anunciada por Blair inclui a luta contra a pobreza na África. Será a segunda vez que o Brasil participará do encontro. Em 2003, Lula foi convidado para a reunião pelo francês Chirac, mas no ano passado o Brasil não foi chamado.

E não foram somente os políticos que fizeram coro a Lula. Estrelas do cinema, da literatura, da música e do mundo dos negócios também participaram de discussões sobre a luta contra a fome e a Aids, e a ajuda aos países africanos. Era uma fauna variada. A atriz Angelina Jolie, embaixadora da boa vontade da agência para refugiados da Organização das Nações Unidas (ONU), era uma das mais mobilizadas nos debates, que também contaram com a presença dos atores Richard Gere, Sharon Stone, além do escritor Paulo Coelho, do fundador da Microsoft, Bill Gates, e do vocalista do grupo de rock U2, Bono Vox. “Podemos nos tornar a geração que acabou com a pobreza extrema”, disse Bono.

O tema deste ano do Fórum de Davos encaixa-se com perfeição ao samba-enredo do presidente Lula: “Assumindo responsabilidades por escolhas difíceis.” Durante seis dias, Brasília ficou às moscas. Além de integrantes do governo, a cúpula e militantes do PT – acuado com críticas sobre a política econômica – decidiram sair em campo para se defender. “A importância e o valor que o PT confere ao FSM se expressam pela presença e participação do presidente Lula por quatro vezes – duas na condição de líder do partido e duas na condição de presidente da República” – dizia uma carta divulgada pelo presidente do PT, José Genoino. De fato, Lula já fez história com suas participações nos eventos: é o único chefe de Estado com ginga suficiente para participar dos dois fóruns rivais, em Davos e em Porto Alegre. Haja jogo de cintura.