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CONSUMO Por baixo do xador, as jovens árabes ricas vestem roupas de grifes famosas no Ocidente

Ricas, bonitas, divertidas e em busca do amor de suas vidas: assim são as protagonistas de Vida dupla: romance sobre o Oriente Médio hoje (Nova Fronteira, 256 págs., R$ 34,90), assinado pela jovem Rajaa Alsanea e que tem sido descrito como uma versão saudita do famoso seriado americano Sex and the city. As moças, todas com 20 e poucos anos, representam uma geração dividida entre os rígidos valores islâmicos e a forte influência ocidental. São elas a simpática Sadeem, a submissa Gamrah, a rebelde Michelle e a espirituosa Lamees. Há uma quinta personagem, a misteriosa e sexy narradora da história, que inicia a maioria dos capítulos repetindo a seguinte frase: "Agora que passei meu batom vermelho berrante, minha marca registrada, vamos continuar (…)." Essa narradora explica que não se identifica por temer represálias. Pois bem, o medo da personagem (portanto fictício) virou medo mesmo, na vida real, na própria autora do livro: Rajaa Alsanea, então com 23 anos, teve o seu romance banido do país, recebeu furiosas ameaças de morte pela internet e foi processada por "manchar a imagem dos jovens sauditas no exterior". Tudo porque os temas que são tabus para os povos de religião islâmica estão presentes no romance, como sexo antes do casamento, homossexualidade, consumo de bebida alcoólica e divórcio. Diante da tempestade de críticas e ameaças, Rajaa concluiu o seu curso de odontologia em Riad, capital da Arábia Saudita, e partiu para uma pós-graduação nos EUA. Atualmente ela tem 26 anos.

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"Voltarei ao meu país e abrirei um consultório para curar dores de dente. As outras dores, eu as tratarei escrevendo"
Rajaa Alsaena

Para sua surpresa e seu alívio, Garotas de Ryiadh (nome original do livro) foi traduzido para o inglês e outros 17 idiomas. Fez sucesso na Inglaterra e virou best-seller nos EUA. Até mesmo na Arábia Saudita, Rajaa acabou reabilitada e recentemente foi homenageada como "Intelectual do Ano do Mundo Árabe" pelos leitores do principal jornal do país, o Elaph. Na edição brasileira, Rajaa escreve que o seu objetivo é mudar a imagem que os ocidentais têm da Arábia Saudita: "Eles nos vêem como a terra das mil e uma noites, com xeiques e odaliscas, ou a terra de Bin Laden e outros terroristas, o lugar onde as mulheres se vestem de preto dos pés à cabeça e onde cada casa tem um poço de petróleo no quintal." É com esse propósito de mudança que ela retrata a juventude endinheirada de Riad em toda a sua modernidade, ligada à tecnologia de comunicação e adepta da internet – é a internet, aliás, a zona livre de conversação entre jovens muçulmanos de sexo oposto, uma vez que, pessoalmente e em público, eles só podem conversar entre si se forem parentes. Assim, a tecnologia da internet os livra de punições. O livro também é um manifesto de amor à liberdade que, segundo a autora, se desfruta na Inglaterra e nos EUA – a rigor é mais isso do que uma crítica profunda aos hábitos e à cultura sauditas. Há trechos em que uma das garotas ganha do namorado o seu presente preferido: um lanche do Burger King (iguaria difícil de adquirir em Riad). Em outra passagem, Michelle é abandonada pelo noivo com quem vivia uma relação apaixonada, sob a alegação de que é "impura" (a mãe de Michelle é americana). Para esquecer o ex-namorado, o seu pai a encaminha aos EUA, onde ela passa uma temporada estudando no "país da liberdade". No Dia dos Namorados (data adotada no início da década de 90 e hoje proibida), a amiga Sadden ganha do pretendente a namorado um ursinho Teddy Bear, importado do território americano – e o brinquedo canta músicas em inglês. São detalhes desse tipo que no livro fazem a felicidade das moças.

Rajaa afirmou à ISTOÉ que a repercussão de seu livro superou as expectativas que ela tinha: "O mais importante é que o romance incitou o diálogo sobre o papel da mulher na minha sociedade." Rajaa tem viajado pelo mundo divulgando o seu romance, que está na lista de best-sellers da revista alemã Der Spigel e ganhou uma terceira edição na Inglaterra em apenas seis meses. Sobre a edição brasileira, foi a seu pedido que a editora não estampou a sua foto nas capas nem nas orelhas do livro. Motivo: "Ia parecer uma autobiografia, e não é. Além disso, detesto usar o visual para promover meu trabalho. Quero voltar ao meu país e abrir um consultório dentário. Das outras dores, que não as de dente, dessas eu tratarei escrevendo."

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