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Fartamente consumido pela garotada de classe média, o rap já não é mais apenas sinônimo de música combativa e de caras carrancudas. Depois de a moda abraçar a estética do grafite, de as baladas de hip-hop dominarem as casas noturnas do circuito mauricinho e de até Chico Buarque declarar em entrevista recente que o canto falado é “um fenômeno muito interessante”, uma nova geração de rappers está dando novos contornos a essa linguagem musical tipicamente urbana. E essa geração é literalmente nova, já que seus representantes mal entraram na adolescência. Do Rio de Janeiro vem Tony Di Menor, aposta da gravadora Indie Records, e Stephan, filho do rapper Marcelo D2. Em São Paulo, a MC Cindy, Diego Beatbox e o DJ Will se destacam e já abrem shows para artistas conhecidos da cena hip-hop como o grupo paulistano Z’África Brasil e o rapper fluminense De Leve.

Poderia ser deste último, aliás, as rimas de Penetra, que começa com os versos bem-humorados “Meu estilo é largado/de tênis rasgado/e boné pro lado.” O papo carregado de sotaque carioca vem de Antonio Mariano Jardim, o rapper Tony Di Menor, 15 anos, na faixa de abertura do CD Di Menor. Produzido pelo DJ Nuts, colaborador do Planet Hemp e de O Rappa, o álbum chega às lojas no início de fevereiro com direito a videoclipe e luxos raros para um estreante. Segundo Alexandre Martins, vice-presidente da Indie, o trabalho de estréia de Tony faz jus ao investimento. “O moleque tem muito talento, atitude e presença de palco”, elogia. “É tudo autêntico. Não é como essas boy bands criadas para ganhar dinheiro”, garante. Tony assina todas as faixas, que espelham a vida de um garoto carioca da zona sul, nascido em Ipanema e criado no Arpoador. Seu pai, o instrutor de jiu-jítsu Sérgio Malibu, dá aulas para globais, como os atores Marcelo Faria e Raul Gazzola. Aliás, foi pela mão de Faria que Tony fez uma apresentação no Domingão do Faustão, num concurso de jovens talentos. “Eu tô só esperando para ver qual que é essa de ser famoso para tirar uma onda”, festeja o garoto.

A namoradinha da escola, as baladas de matinê e os rolês com os amigos: está tudo lá, em forma de rimas. Mas não pense que as músicas são pueris. Há boas sacadas como “Mas se eu beber, vou ficar mortinho/quem ganha dinheiro bebendo é Zeca Pagodinho”, ainda da faixa Penetra. Ou “Existem vários tipos de Maria/Maria Gasolina, Tatame/Microfone e Parafina”, da música Filosofia das Marias, um deboche explícito, respectivamente, às admiradoras de mauricinhos, pitboys, roqueiros e surfistas. A inspiração vem de nomes como De Leve e Marechal e do americano Snoop Doggy Dogg. Os Racionais MC’s, nome mais conhecido do público, não entra na lista, apesar de Tony se confessar fã do grupo paulistano. “Sei que eles me criticariam por eu ser de classe média e me meter a fazer rap”, diz. Com o gene da língua solta, Stephan, 12 anos, já está enturmado. Filho mais velho de Marcelo D2, o menino participou do CD do pai, A procura da batida perfeita no rap Lodeando, travando com ele um papo rimado sobre a viagem para a Disney, o Play Station, o futebol e os valores familiares.

Nem sempre, contudo, a aprovação dos pais acontece de imediato, como no caso da paulistana MC Cindy, 16 anos. Candidata ao cargo de futura diva do rap brasilis – posto atualmente ocupado pela talentosa Negra Li –, Cíntia Mendes da Silva conta que teve dificuldades em contar para a mãe evangélica que cantava rap. “Eu mostrava as letras e dizia que era poesia. Para ela, rap era sinônimo de violência. Consegui provar que não é assim e hoje ela é minha fã”, lembra a jovem. Para orgulho da mamãe-tiete, recentemente a rapper participou do show de abertura do festival Indie Hip Hop, em São Paulo, que teve como atrações o coletivo californiano Hieroglyphics e os brasileiros Black Alien, Instituto e Z’África Brasil. Sua especialidade é o freestyle, a chamada rima de improviso. “É uma técnica que exige raciocínio rápido e vocabulário. Leio muitas revistas e livros para ter uma bagagem bacana”, explica.

Criada no bairro do Grajaú, na zona sul de São Paulo, Cindy começou a cantar no coral de uma igreja evangélica. Seu visual não poderia ser mais chique. Mistura o streetwear com turbantes coloridos à Erika Badu e Lauryn Hill, embora essas não sejam suas maiores referências na música. “Amo Elis, Jill Scott e Diana Ross”, afirma. Ao lado de Negra Li e da cantora Quelinah, Cindy foi escalada para o filme Antônia, de Tata Amaral, que começa a ser rodado em fevereiro. “Vamos falar sobre as mulheres no hip-hop. Há atores profissionais no elenco, mas boa parte são artistas da cena”, adianta a cineasta. Resta saber se esses rappers-mirins terão carreiras longevas. Nos anos 1990, o fenônemo pop da vez atendia pelo nome de Kris Kross. Aos 13 anos, os rappers americanos Chris Kelly (o Kris) e Cris Smith
(o Kross) ganharam o mundo com o hit Jump. Venderam milhões de discos e faturaram rios de dólares. Mas, ao crescer, perderam a graça. Espera-se que o mesmo não aconteça no Brasil.