01/06/2005 - 10:00
A pedagoga e orientadora Pilar Guembe e o professor de filosofia e escritor Carlos Goñi têm quase 20 anos dedicados ao ensino, principalmente no trato com adolescentes em Barcelona. Em entrevista por e-mail, eles falam do livro Não conta para os meus pais (editora Relume Dumará, 200 págs., R$ 29,90), em que dividem suas experiências com os pais e educadores.
ISTOÉ – “Não conta para os meus pais” é uma frase dita pelos adolescentes nos 31 casos analisados no livro. Trata-se de um código universal que demonstra a falta de confiança e/ou diálogo com os pais? Como mudar isso?
Pilar Guembe e Carlos Goñi – Por força do nosso trabalho nos transformamos em confidentes de muitos adolescentes, que sempre acabam seus relatos com esta frase que deu título ao livro. Segundo dizem, não encontram em seus pais a proximidade, a receptividade e a compreensão que necessitam. Os adolescentes têm medo de decepcionar os pais e serem rechaçados, com reações desproporcionais, quando os pais não aceitam seus erros. A forma de mudar essa relação passa, em primeiro lugar, pelos pais. É preciso que tenham consciência do momento vital que seus filhos estão vivendo. Em segundo lugar, que valorizem a comunicação como base para a educação, principalmente nesta etapa que é a adolescência. E, por último, que dediquem tempo a seus filhos.
ISTOÉ – O que chama mais atenção na relação entre pais e filhos?
Pilar e Carlos – É o desconhecimento mútuo. Os pais não sabem o que seus filhos fazem, pensam ou sentem. Os filhos fazem pouco caso dos pais. Vivem juntos, mas não se conhecem. Também observamos a falta de critério e de autoridade dos pais, elementos imprescindíveis para educar. A maior dificuldade nessa relação é a desorientação mútua. Os adolescentes estão vivendo uma etapa difícil, com muitas mudanças. Os pais também têm dificuldades porque ninguém os ensinou a ser pais e, menos ainda, a enfrentar esta nova situação.
ISTOÉ – A violência transformou os pais em refém do medo. A maioria não dorme enquanto os filhos não voltam para casa. Como lidar com essa “paranóia”, como dizem os jovens?
Pilar e Carlos – Os pais se encontram desarmados diante de situações em que a sociedade e o entorno ficam muito violentos. O trabalho educativo pode ficar prejudicado por um furacão externo. Logo, a impotência e o medo entram em jogo. Em tais circunstâncias, é necessária a união de pais e filhos. Mas isso somente não basta, há que se lutar para que medidas sociais e políticas ponham um freio nessa avalanche de violência em todas suas formas. No entanto, o que está ao alcance dos pais são as medidas educativas, como controle de horários e de ambientes a serem freqüentados pelos filhos.
ISTOÉ – Qual a diferença entre um adolescente espanhol e um brasileiro? A cultura e a distribuição de renda não influenciam no comportamento desse adolescente e também de seus pais?
Pilar e Carlos – Em essência, as características dos adolescentes são comuns. Por outro lado, é fato que as condições sociais e econômicas podem afetar sua forma de viver nessa etapa vital. Mesmo na questão da renda, um adolescente europeu não leva vantagem sobre um brasileiro. A sociedade, tanto na Espanha quanto no Brasil, é minada por contravalores e o que se destaca são o hedonismo, o individualismo e o consumismo, que fazem dos jovens seres tremendamente egoístas e manipuláveis. Sua rebeldia juvenil não se volta contra as injustiças sociais, e sim contra seus pais. Quem sabe uma sociedade mais deficitária em meios será mais rica em fins, valores responsáveis pela construção da pessoa.
ISTOÉ – É possível conscientizar os jovens de que mais vale um ato solidário do que uma roupa nova?
Pilar e Carlos – O mais importante que podemos fazer para que nossos filhos não caiam em um poço sem fundo é ajudá-los a buscar um sentido para a vida, que sejam homens e mulheres cujos interesses ultrapassem o ter simplesmente. É preciso ensiná-los que coisas são meios e pessoas, fins. Essa é uma tarefa a ser feita desde que nascem.
ISTOÉ – Embora seja um livro dirigido aos pais, os srs. aconselham os adolescentes a lê-lo. O que pode ser mudado no modo de eles pensarem?
Pilar e Carlos – As conversas que reproduzimos no livro são reais e, por isso, os adolescentes se vêem refletidos nelas. Acreditamos que a leitura pode ser de grande ajuda para que se reconheçam. O ideal é que seja lido por pais e filhos juntos, que cada caso sirva para que se entabule uma conversa, porque se contam o que sentem e vivem, não terão que repetir “não conte para os meus pais”.