Nunca se falou tanto em Juscelino Kubitschek. O presidente que pagou caro, mas tocou um projeto de nação, sobe no palanque da memória nacional através da minissérie da Rede Globo e do lançamento de vários livros no ano em que o Brasil fará sua quinta eleição presidencial após o fim da ditadura militar. Um momento em que o País está cansado, esperando há décadas o trem do desenvolvimento chegar. Na última eleição presidencial, em 2002, o Brasil comemorou o centenário de JK. Neste ano, os brasileiros vão às urnas, lembrando de novo – para o bem ou para o mal – o mineiro de Diamantina que conseguiu tocar seu ambicioso projeto de industrialização do País, mas atropelou a estabilidade econômica. O dia 31 de janeiro marca o 50º ano da posse do presidente bossa nova, que se elegeu com o lema “50 anos em 5”: acelerar meio século de desenvolvimento no seu mandato. Foi justamente naqueles anos dourados de JK que os brasileiros experimentaram, pela primeira vez, o gosto da vitória na Copa do Mundo (na Suécia, em 1958). Neste ano o País vai torcer para que os nossos jogadores conquistem pela sexta vez o campeonato mundial e para que os nossos políticos coloquem em prática, finalmente, um projeto de nação.

Desde que o brasileiro voltou a eleger presidentes, em 1989, a promessa número 1 dos pretendentes foi domar a economia, com estabilidade e sem inflação. Esse discurso de responsabilidade fiscal pouco tem a ver com o governante que entre 1955 e 1960 escreveu as páginas mais eufóricas da República. Mesmo assim, é difícil encontrar um político que não tente se projetar como herdeiro de seus sonhos e práticas. Todos – ou quase todos – querem ser JK. Ao mesmo tempo, prometem não fazer, com a economia, o que ele fez. O médico Juscelino Kubitschek terminou seu mandato sob acusações de corrupção e de ter deixado a herança maldita da inflação e do endividamento. Mas hoje é lembrado por seu ambicioso Programa de Metas, que investiu pesadamente em cinco setores: energia, transportes, alimentação, indústria de base e educação. Realizou a antiga idéia de transferir a capital para o coração do Brasil, prevista desde a Constituição de 1891. Semeou mais de 20 mil quilômetros de estradas e recuperou mais de cinco mil quilômetros das antigas. Implantou a indústria automobilística no País, ironicamente o berço do nascimento político do ex-metalúrgico da região do ABC Luiz Inácio Lula da Silva, que hoje é o 13º homem a governar, não mais do Palácio do Catete, no Rio, mas do Planalto, em Brasília.

Crença no planejamento – Depois de JK, nenhum outro presidente chegou ao fim do mandato com um projeto prometido e cumprido. Nem com tantas obras no currículo. E não é só porque as circunstâncias históricas não se repetem. Nas qualidades pessoais, no ritmo administrativo ou na articulação política, JK não foi perfeito, mas é, definitivamente, inimitável. “Na campanha presidencial deste ano, todos vão querer tirar uma casquinha de JK. Mas ninguém pode ser equiparado a ele. Depois de Juscelino nenhum presidente realizou um plano de desenvolvimento com política industrial. Ele foi um grande político, independentemente de suas qualidades e seus defeitos. Teve um grande sentido de construção de nação”, afirmou Maria Victoria Benevides, professora de sociologia da Faculdade de Educação da USP e integrante do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, criado pelo governo Lula. Ela é autora do livro O governo Kubitschek: desenvolvimento econômico e estabilidade política, sua tese de mestrado, feita com base em muitas horas de entrevistas com o próprio JK, a partir de 1974. O livro foi publicado em julho de 1976, um mês antes da trágica morte de Juscelino no acidente da via Dutra. “Ele assinava comigo os livros na noite de autógrafos. Foi sua última aparição pública”, lembrou. Maria Victoria ressalta que o governo JK estimulou a auto-estima do brasileiro: “Ele era um homem público que acreditava em planejamento, um espécime raro hoje, que está fora de moda no Brasil. É o tipo de personagem que cresce com o tempo”, disse. “Em termos de construção de Estado, Juscelino aproveitou tudo o que veio de Getúlio, que encaminhou a industrialização, recusando a idéia de que o Brasil tinha somente vocação agrária”, explicou Maria Victoria.

É impossível que a onda JK não contamine os discursos dos que se armam para a eleição de outubro, apesar da ponderação da autora da minissérie em cartaz, Maria Adelaide Amaral: “Estamos no ar no primeiro semestre e dará tempo para o público refletir e os candidatos concluírem que não são nem serão nunca JK.” Há pouco tempo o presidente Lula – que deverá se candidatar à reeleição – se comparou a Juscelino e a Getúlio, ao reclamar das críticas da imprensa. Na campanha, o petista tentará mesclar a imagem dos dois: o “pai dos pobres” com o programa Bolsa-Família, ao mesmo tempo que pretende reconquistar os votos perdidos da classe média, com sua promessa de desenvolvimento sustentado. Em 2002, Lula se apegou ao exemplo de JK: “Aquele menino pobre de Diamantina devolveu a auto-estima ao País e o sonho de que era possível crescer. JK fez de seu governo um gerador de esperança.”

Rol de elogios – Seu concorrente naquela campanha, José Serra se derramou em elogios na ocasião. “Juscelino foi a maior e melhor referência de presidente bem-sucedido na sacolejada política brasileira”, disse o tucano, que, hoje prefeito de São Paulo, sonha disputar novamente a Presidência. Anestesista e ex-prefeito de Pindamonhangaba, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), outro presidenciável, cita JK como o político que mais admira e gosta de lembrar que, assim como seu ídolo, exerceu a medicina e a política durante um bom tempo. “Garantidor das liberdades, bem-humorado, Juscelino transformou esperanças em realidade. Estadista, bom administrador, teve o mérito de cumprir um audacioso plano de governo. Criou um clima justificado de orgulho nacional que precisamos restaurar no Brasil”, elogia Alckmin, que reivindica o parentesco com José Maria Alkmin, fiel escudeiro e ministro de JK. O ex-governador do Rio Anthony Garotinho (PMDB) repete a promessa, feita em 2002, de unir a justiça social de Getúlio Vargas e o desenvolvimentismo de JK. “Ele mudou a capital para desenvolver o Centro-Oeste e conseguiu, mas o Brasil precisa se integrar mais”, afirma Garotinho.


O abismo que separa JK dos líderes de hoje, no entanto, vai muito além da capacidade de sedução do pé-de-valsa de Diamantina. Ele chegou ao Catete em janeiro de 1956 para liderar um país à beira do colapso político, com o trauma do suicídio de Getúlio (1954). Resistiu a uma tentativa de golpe para evitar sua posse e a duas rebeliões militares no governo, com o apoio do marechal Henrique Teixeira Lott, ministro da Guerra. Foi além: imprimiu um crescimento de 8% ao ano, manteve a democracia como valor sagrado, quando direita e esquerda cultuavam ícones totalitários, e mudou o patamar da economia. JK enfrentou a tensão da guerra fria e a oposição virulenta dos quartéis e da UDN do demolidor Carlos Lacerda. Mais tarde, na ditadura militar, durante o exílio em Portugal, Lacerda e Juscelino se aproximaram para formar a Frente Ampla contra o regime autoritário. “Defendemos, juntos, a causa que sustentamos separados: a da tolerância dos contrários. Fiz real oposição ao governo de JK, sofri as conseqüências disso e ele também. Foi isso, afinal, que nos aproximou e acabou por nos tornar amigos. Fui punido por ter estendido a mão a este valoroso adversário”, lamentou Lacerda ao saber da morte de Juscelino.

O golpe que o cassou e o exilou na Europa impediu o sonho de voltar ao seu Planalto em 1965. Nenhum presidente, talvez com exceção de Vargas, foi tão estudado como Juscelino. E poucos o dissecaram como o jornalista Cláudio Bojunga, que gastou 11 anos para escrever JK, o artista do impossível, da Editora Objetiva. Para Bojunga, é impossível reunir em um mesmo presidente as três grandes dimensões de JK: o crescimento com planejamento, o respeito absoluto ao estado de direito sob as nuvens negras da política mundial e uma efervescência cultural. Em relação a FHC e Lula, Bojunga é impiedoso: “Juscelino se cercava de artistas, sonhava, ousava. Fernando Henrique fez um bom trabalho de estabilização da economia, mas governou com tecnocratas e sociólogos, sem imaginação ou efervescência. JK recebeu um país em péssimas condições políticas e foi muito além do que se esperava. Lula recebeu o governo na paz e decepcionou.” A senadora Heloísa Helena (PSOL-AL) é mais virulenta: “É uma vigarice eleitoreira se apropriar de experiências históricas positivas para ludibriar mentes e corações. Juscelino deve se contorcer na cova, pois esses personagens (Lula e FHC) promovem a desestruturação do Estado, são truculentos com adversários e manipulam os movimentos sociais, em um enorme abismo entre o discurso e a prática.” Para o escritor Carlos Heitor Cony, que escreveu os quatro volumes de Memórias de JK, Vargas era um estadista e JK, não. Era um chefe de governo, tocador de obras. O gaúcho era “pesadão” e não gostava de viajar, enquanto o mineiro era inquieto, cigano, um “bicho-carpinteiro”, como gostava de se dizer.

Cony conviveu com JK, escrevendo as memórias, de 1969 até a véspera do acidente que o matou em 22 de agosto de 1976. É um dos poucos que explicam, com segurança, por que JK não se separou de dona Sarah para assumir o amor com Maria Lúcia Pedroso. “Ele gostava de mulher, traçava quem desse sopa. Mas, entre mulher e política, ficava com a política”, diz. Seus últimos dois anos, segundo Cony, foram atormentados pelas pressões de dona Sarah pela separação, que ele queria evitar para não prejudicar a carreira política. Sonhava ser convocado como um nome de consenso para apaziguar o Brasil na redemocratização. Mas os militares só largariam o osso em 1984, com a eleição de Tancredo Neves pelo Colégio Eleitoral.

Um dos raros políticos que não endeusam JK, o prefeito do Rio, Cesar Maia (PFL), o define como “cria de Getúlio” e lembra que sua atuação não foi brilhante o tempo todo: “Depois, JK foi crescendo em erros, sendo o maior deles tirar o corpo fora da campanha de 1960 (Jânio Quadros venceu o marechal Lott) para tentar voltar em 1965. Articulou para derrubar o parlamentarismo, reconheceu o governo Castelo Branco acreditando na promessa das eleições em 1965”.

Críticas a Brasília – O jornalista Hélio Fernandes, dono do jornal Tribuna da Imprensa, que pertenceu a Carlos Lacerda, foi assessor de JK na campanha de 1955 e diz ter rompido com ele por causa de Brasília, “pai e mãe da inflação no Brasil”. Hélio relativiza a fama de democrático de Juscelino, lembrando que ele próprio, seu irmão Millôr Fernandes e Carlos Lacerda foram afastados dos programas de televisão da época por pressão do presidente. A hostilidade dos cariocas pela perda da corte não contamina Anthony Garotinho, que em 2002 estreou seu programa de tevê entre fotos de Vargas e JK. Para mudar o Brasil, segundo ele, é preciso reagrupar três qualidades de JK: planejamento, desenvolvimento e integração do Brasil.

Consultor da minissérie da Rede Globo, o escritor e ex-ministro Ronaldo Costa Couto, autor de Brasília Kubitschek de Oliveira, refere-se a JK com superlativos: “Foi o maior empreendedor da América Latina. Como disse Guimarães Rosa, foi o poeta da obra pública.” A inflação e a dívida seriam problemas bem menores do que as iniciativas que fizeram o País mudar de patamar – era preciso quebrar ovos para a omelete. Ele recorre a uma frase de JK, reproduzida no livro: “Outros governos poderão empreender a revalorização da moeda, com os aplausos e o apoio de toda a Nação, mas não poderiam fazê-lo, de forma alguma, se encontrassem o País atado a uma situação colonial, sem estradas, sem energia, sem obras de base”, declarou JK em dezembro de 1960, prestes a entregar o cargo a Jânio Quadros.

O cientista político Marcos Figueiredo, do Instituto Universitário de Pesquisas do Estado do Rio de Janeiro (Iuperj), ajuda a pôr uma pá de cal na pretensão dos que tentam se comparar a JK. “Depois dele, não houve presidente com o mesmo alto-astral político, a visão estratégica e a capacidade de pôr idéias em prática”, sentencia. Para o cientista político Valeriano Mendes, da Unicamp, “nenhum político reúne a mistura de JK: habilidade política, carisma, capacidade de enfrentar desafios de seu tempo e criatividade que o fez escapar das amarras da burocracia estatal para governar.” Lembrando que JK fez o que fez à custa da inflação e do endividamento, além de ter saído do governo acusado de corrupção, Valeriano ressalta que um projeto de desenvolvimento hoje deve respeitar o equilíbrio macroeconômico. Os desafios hoje são imensos: “Para ser um JK hoje é preciso ser melhor do que o próprio JK.”