24/12/2008 - 10:00
Internacional
O plano de caroline
A última herdeira de John Kennedy se candidata ao Senado e se prepara para liderar a dinastia mais famosa dos Estados Unidos
Luiza Villaméa
Durante os últimos 45 anos, a discrição foi a marca de Caroline Kennedy. Acostumada à vida pública na infância – parte dela passada na Casa Branca – Caroline esteve em imagens que correram o mundo. N‑a mais dramática, acompanhada pela mãe, Jacqueline Bouvier Kennedy, e pelo irmão John-John, participava do funeral do pai, o presidente John F. Kennedy, assassinado em Dallas, em 22 novembro de 1963. Cinco dias depois, Caroline completou seis anos. Manteve-se distante dos holofotes até a semana passada, quando, aos 51 anos, anunciou sua disposição em concorrer à vaga de Hillary Clinton no Senado. "Eu realmente acredito que posso ajudar a levar a mudança para Washington", disse Caroline em Rochester, no norte do Estado de Nova York, na quarta-feira 17. "Tenho um compromisso vitalício com o serviço público."
Herdeira do clã político mais famoso dos Estados Unidos, Caroline surpreendeu ao se lançar candidata ao Senado. Com o anúncio, imprimiu maior relevância a um aspecto que vem catalisando as atenções nesse período de transição presidencial – a sucessão no Senado de Obama e de Hillary, que foi nomeada secretária de Estado do próximo governo. Caberá aos governadores dos Estados que eles representam nomear os novos senadores. Em Illinois, o governador Rod Blagojevich está sendo acusado de tentar vender a vaga de Obama. Em Nova York, o governador David Paterson preferiu adotar a lei do silêncio. Sinalizou apenas que sua decisão sairia depois que Hillary renunciasse ao Senado, ou seja, depois da posse de Obama, no dia 20 de janeiro.
O recolhimento de Paterson acabou aguçando os ânimos entre aqueles que defendem e os que atacam o plano de Caroline de ser a próxima senadora pelo Estado de Nova York. Um dos mais expressivos representantes do primeiro grupo é o ativista de direitos humanos Al Sharpton, para quem a inexperiência política de Caroline não a impedirá de personalizar "a liderança necessária ao Estado e ao país". Entre os que discordam, o que causou mais barulho foi o deputado democrata Gary Ackerman. "Não sei quais são as qualificações de Caroline Kennedy, exceto que ela é famosa, como é também o caso de J. Lo", afirmou, referindo-se à cantora Jenniffer Lopez.

Em vez de entrar na polêmica, Caroline tratou de honrar a garra política dos Kennedy. Embarcou para o norte do Estado de Nova York, numa tentativa de conquistar aqueles que mais resistem à idéia de serem representados no Senado por uma outra "advogada de Manhattan". Como Hillary, Caroline é formada em direito, mas deixou a cidade de Rochester elogiada como "encantadora" pelo prefeito Robert J. Duffy. Por enquanto, nenhum adjetivo similar foi dirigido aos seus potenciais adversários na disputa: o prefeito da cidade de Buffalo, Byron Brown; o promotor-geral de Nova York, Andrew Cuomo; e a congressista nova-iorquina Nydia Velázquez.
Mãe de três filhos, casada com o designer Edwin Schlossberg e escritora profícua, Caroline jamais se candidatou a um cargo eletivo, mas conhece como poucos os bastidores da política. Integra o conselho de administração de diversas organizações culturais e filantrópicas, preside a Fundação da Biblioteca John Kennedy, em Boston, e está à frente de uma instituição voltada para a melhoria do ensino em Nova York. Durante quase dois anos, trabalhou – a US$ 1 por mês – como executiva de uma instituição encarregada de buscar parcerias estratégicas para as escolas públicas de Nova York. Quando deixou o posto, em agosto de 2004, havia ajudado a arrecadar mais de US$ 65 milhões.
Sua primeira atuação política ocorrera quatro anos antes, quando apoiou a candidatura de Al Gore à Presidência. Na campanha seguinte, posicionou-se ao lado de John Kerry. No começo deste ano, se dirigiu diretamente ao grande público, manifestando sua escolha pela candidatura Obama em um momento no qual Hillary parecia ser a favorita entre os pré-candidatos democratas. "Eu nunca tive um presidente que tenha me inspirado da forma que as pessoas dizem ter sido inspiradas por meu pai", escreveu Caroline no The New York Times. "Pela primeira vez, eu acredito ter encontrado o homem que pode ser este presidente – não apenas para mim, mas para uma nova geração de americanos."
Sete meses depois, subiu ao palco da Convenção Democrata em Denver, que declarou Obama como o candidato do partido à Presidência. Reforçou seu apoio ao senador de Illinois e ao tio, o senador Ted Kennedy, que, aos 76 anos, se submete a tratamento contra um câncer no cérebro. "Estou aqui para homenagear dois homens que mudaram a minha vida e a vida deste país", declarou, ao introduzir Ted Kennedy no palco. Pouco depois, foi indicada para a comissão que ajudou a escolher Joe Biden como vice da chapa de Obama.
A escalada de Caroline na política começou em janeiro,
quando ela apoiou Obama, antes de ele ser favorito
A crescente participação de Caroline na política partidária culminou em sua própria candidatura. Se confirmada a indicação ao Senado, ela assumirá a liderança política do clã. Originalmente preparado para o papel, seu irmão, John-John, morreu em um acidente aéreo em 1999. Por outro lado, Ted Kennedy, senador por Massachusetts desde 1962, foi obrigado a se afastar da política para cuidar da saúde. E o posto hoje ocupado por Ted é emblemático – foi conquistado nas urnas em 1952 por seu irmão John, pai de Caroline. Já a vaga aspirada por Caroline foi de seu tio Bobby Kennedy, assassinado durante a campanha presidencial de 1968. A mais velha dos 11 filhos de Bobby, Kathleen Kennedy Townsend, tentou assumir a liderança agora ensaiada por Caroline, mas não foi bemsucedida. Em 2002, acabou derrotada na campanha para o governo de Maryland. Em 2008, ao contrário de Caroline e de seu tio Ted, Kathleen apoiou a pré-candidata Hillary Clinton.
