Brasil

A marcha de Palocci
Com o apoio de empresários e campanha publicitária já encomendada, o ex-ministro se prepara para 2010

Sérgio Pardellas

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A notícia de que o Supremo Tribunal Federal (STF) adiou para fevereiro ou março o julgamento do deputado Antônio Palocci (PT-SP) caiu como uma ducha de água fria no Palácio do Planalto. Na comunidade jurídica de Brasília, a absolvição do ex-ministro é tida como líquida e certa e nas últimas semanas o presidente Luiz Inácio Lula da Silva vinha intensificando as consultas, iniciadas a partir de julho, com empresários, banqueiros e lideranças políticas. Elas dão a Lula a certeza de que Palocci é uma poderosa carta para ser jogada em 2010. Nessas conversas, o presidente se convenceu de que a acusação contra o ex-ministro de ter quebrado o sigilo bancário do caseiro Francenildo Costa não abalou o prestígio dele junto aos formadores de opinião. O presidente percebeu que o parlamentar petista terá todo o apoio do empresariado se quiser retornar ao jogo político. E Lula tem projetos para Antônio Palocci.
O plano A do presidente é fazer de Palocci candidato ao governo de São Paulo. Lula revelou isso na primeira quinzena de setembro em uma conversa reservada no gabinete de Gilberto Carvalho. No encontro, o presidente disse que pretende trabalhar a fim de evitar que o seu sucessor, caso eleito, tenha de enfrentar, como ele em 2003, governadores da oposição nas principais capitais do País e incluiu o nome do ex-ministro no bate-papo: “O Palocci tem todas as condições de ser o nosso candidato para vencer em São Paulo. Essa é a minha idéia”, comunicou. Depois das eleições municipais e com a derrota de Marta Suplicy na capital paulista, o presidente voltou a tocar no assunto com um assessor. Na ocasião, avaliou que, para vencer no maior colégio eleitoral do País, Palocci é mais forte do que o senador Aloizio Mercadante e do que o prefeito eleito em São Bernardo do Campo, Luiz Marinho.
O plano B é colocar Palocci na sucessão presidencial caso a candidatura da ministra Dilma Rousseff continue patinando. Essa possibilidade foi revelada por Lula em uma outra conversa, em novembro, com lideranças do PMDB, entre eles o senador José Sarney (AP), Renan Calheiros (AL) e Henrique Eduardo Alves (RN). Segundo relato de um dos participantes, Lula disse que Palocci “não pode ser considerado carta fora do baralho” na sucessão de 2010. O script da reabilitação política do ex-ministro já está pronto. A julgar pela sondagem do presidente junto a empresários, o parlamentar petista não teria grandes dificuldades em retornar. “Eu prefiro Palocci como candidato do que Dilma ou qualquer outro ministro do Lula”, disse à ISTOÉ Sérgio Bueno, ex-integrante do mercado financeiro e um dos maiores produtores de soja do Tocantins.
Um dos obstáculos de Palocci seria conseguir sua redenção perante a opinião pública. Por isso, a idéia é, tão logo o ex-ministro seja absolvido no STF, colocar na praça uma campanha nacional, já encomendada, na tentativa de recuperar a imagem de Palocci entre a população. O formato da campanha está em fase de finalização e nos próximos dias será decidido se ela será uma iniciativa do PT ou uma ação suprapartidária. Mas diversos empresários consultados por Lula, como Antônio Ermírio de Morais, do Votorantim, Jorge Gerdau, do grupo Gerdau, e banqueiros, como Roberto Setubal (Itaú) e Márcio Cypriano (Bradesco), se disporiam a ajudar. “Na verdade, o empresariado nunca abandonou Palocci.O ex-ministro continua sendo o candidato do coração do PIB para suceder Lula, até porque os nomes que estão até agora colocados como candidatos têm perfis intervencionistas”, disse à ISTOÉ um dos empresários que têm sido procurados pelo presidente.
Para sacramentar a recondução de Palocci ao cenário político nacional, o ex-ministro tanto pode voltar à Esplanada dos Ministérios como ser encaixado por Lula em um cargo de visibilidade no Congresso, a liderança do governo, por exemplo. Como médico sanitarista, Palocci tem chances de assumir o Ministério da Saúde, no lugar de José Gomes Temporão, movimento que já vem sendo costurado pelo Planalto e pelo PMDB. No meio empresarial há uma torcida quase incontida para que o deputado retome as rédeas da economia do País.
De perfil discreto, o ex-ministro não quer holofotes antes do tempo. Publicamente, evita ao máximo falar sobre seu futuro político. Às vezes, porém, deixa escapar algumas avaliações. Como a que fez no dia 1º de setembro em palestra proferida por ele na Casa das Garças, um centro de estudos e debates fundado por economistas e empresários ligados ao PSDB e à PUC do Rio. Instado a falar sobre seus projetos políticos, Palocci não descartou uma candidatura majoritária. Explicou apenas que esse projeto “não se planeja de forma solitária, mas a partir de um movimento de partidos”. Estavam presentes o ex-ministro da Fazenda Pedro Malan e os economistas Ilan Goldfajn, Armínio Fraga, Edmar Bacha e Gustavo Franco.