O senador Aécio Neves (PSDB-MG), uma das principais lideranças políticas do País, está finalizando um acordo de pactuação pelo Brasil com as oposições e com o PMDB, o partido mais importante da base aliada da presidente Dilma Rousseff.

 

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Articulação: Aécio tem mantido frequentes reuniões com lideranças do PMDB

 

 
O PSDB já discute com o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), com o vice-presidente da República, Michel Temer, e outras lideranças peemedebistas como será o período pós-impeachment. Há consenso para que tucanos apoiem o eventual governo de Temer. 
 
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“Fernando Henrique está participando de tudo. Ele está muito
alinhado com nossas idéias e acha que o impeachment é a saída”
 
Segundo ele, esta nova gestão representaria um período de transição até 2018, a fim de que o Brasil tenha tranquilidade para começar a aprovar imediatamente após a saída de Dilma agendas estruturantes para tirar o País da crise.
 
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“Vamos negociar uma agenda para os próximos dois anos,
que possa ser implementada pelo vice-presidente, Michel Temer,
e que permita ao Brasil voltar a respirar”

 
 

 

ISTOÉ –

Qual é o caminho da oposição para tirar o Brasil da crise?
Aécio –

Achava que o melhor caminho era uma nova eleição, para que assumisse um presidente legitimado pelo voto. Mas compreendo que isso só aconteceria a partir de uma decisão do TSE (de cassar a chapa eleita PT-PMDB). E essa decisão pode chegar, mas talvez o Brasil não aguente esperar tanto por isso. Nesse momento, há um consenso de que a emergência é tão grande que qualquer cenário é menos danoso para o Brasil do que a presença de Dilma na Presidência. Por isso, nós do PSDB temos discutido essa questão, estamos centrando todo nosso esforço político e de mobilização na aprovação rápida do impeachment. E, a partir daí, vamos negociar uma agenda para os próximos dois anos, que possa ser implementada pelo vice-presidente, Michel Temer, e que permita ao Brasil voltar a respirar.
ISTOÉ –

Nesse caso, num cenário de impeachment…
Aécio –

Isso. Há hoje uma convergência de reunir esforços para que o impeachment possa ser votado nos próximos 45 dias. Daremos a nossa contribuição à governabilidade no pós-Dilma. Daremos solução a questões estruturais.
ISTOÉ –

Com quem está sendo costurado esse consenso de pós-Dilma com governo de transição até 2018?

Aécio –

Com o PSDB e as oposições. Estamos tendo conversas com lideranças do PMDB, especialmente no Senado e a nossa expectativa é a de que o partido compreenda que, mais do que o interesse por cargos em um governo moribundo, a legenda tem uma oportunidade única de honrar a sua história. É hora de o PMDB voltar os olhos para o passado, compreender que o que fez dele o maior partido do País não foi a distribuição de cargos, mas sim a coragem que teve de enfrentar a ditadura e romper com ela.

ISTOÉ –

Como estão essas conversas?
Aécio –

Tive inúmeras conversas com o senador Renan. Ele, por ter se tornado o mais visível sustentáculo dentro do PMDB a esse governo, tem que compreender que a história cobrará dele também. O caminho neste momento é o de anteciparmos a saída da presidente da República. Sempre com base em preceitos constitucionais para que, num clima de harmonia, possamos construir as bases para um governo de transição. Ele duraria dois anos e aí, em 2018, o Brasil retoma seu caminho a partir do voto popular. As bases do PMDB espalhadas pelo Brasil inteiro estão vendo que com a presidente Dilma não se reinicia um novo processo no Brasil.
ISTOÉ –

Como será esse processo de convencimento do senador Renan? Porque ora ele é parlamentarista, ora é governista, outra é pró-impeachment…
Aécio –

O que foi dito ao presidente Renan quando ele surgiu com a ideia de presidencialismo com menos poderes para a presidente é que ele quis preservar sempre a figura da presidente Dilma. E, não é por vontade da oposição, por revanchismo eleitoral. É uma constatação nua e crua não apenas da classe política, mas da sociedade brasileira de que a presidente no cargo é um anticlímax, é a antítese de tudo o que o Brasil precisa. Será que o Brasil aguenta mais dois anos e oito  meses de aprofundamento da crise econômica, do desemprego, da inflação, da carestia, dessa conflagração nacional que estamos assistindo hoje? Eu acho que não.

ISTOÉ –

E o vice-presidente Michel Temer concorda com isso?
Aécio –

Nos falamos por telefone recentemente, ficamos de ter algumas conversas e estas têm que ser feitas à luz do dia, têm que ser naturais. Porque o vice Michel, querendo ou não, goste-se ou não, terá um papel importante nesse processo. Lideranças de oposição têm tido alguns contatos com ele. Eu, por representar a institucionalidade e ser presidente do PSDB, tenho tido um pouco mais de cautela. Mas não se surpreendam se dentro de poucos dias essas conversas se tornarem mais frequentes. 

ISTOÉ –

Pode soar como uma tentativa de conspiração?

Aécio –

São conversas à luz do dia, não podem ser vistas como uma tentativa de conspirata. O Michel, além de vice-presidente da República, para mim o mais importante é que ele é presidente de um grande partido. E na condição de presidente do PMDB seria algo incompreensivo se não houvesse conversas. Já ocorreram no passado e vão ocorrer com mais naturalidade.
ISTOÉ –

Qual seria o acordo para a eleição de 2018?
Aécio –

Caberá o compromisso de construir uma grande aliança, sem interferência no processo de 2018. E, obviamente, que quem assumir não estará disputando a eleição de 2018 para que fique claro que essa agenda não ficará contaminada pelos projetos futuros. O PSDB continua tendo um projeto do Brasil. Nós apresentamos propostas para o País, discutimos com amplos setores da sociedade e ela está registrada no TSE. Queremos resgatar essa proposta. Não vamos abdicar desse projeto. Mas o Brasil não aguenta chegar até 2018 com esse escárnio todo.

ISTOÉ –

PSDB e PMDB podem se enfrentar nas urnas em 2018?
Aécio –

Sim. Essa transição não terá compromisso com 2018, mas sim com uma agenda de salvação nacional. Vejo três grandes temas que deveriam ser a base desta agenda: a reforma da Previdência; a simplificação do sistema tributário; e um vigoroso enxugamento do tamanho do Estado. Tudo isso, emoldurado por uma reforma política que racionalize o número de partidos. Além disso, o Brasil tem que resgatar a credibilidade nacional, fugirmos dessa anacrônica política “bolivarianista” que atormentou durante todo esse período. Também o resgate da meritocracia no setor público, com a profissionalização das agências reguladoras,  das estatais, dos fundos de pensão.
ISTOÉ –

Na prática, ninguém quer discutir essas reformas. Por que em um  governo de transição elas seriam aprovadas?

Aécio –

Um novo governo teria legitimidade, porque a presidente da República não acredita na reforma da Previdência e seu partido rejeita essa reforma. O novo governo tem que ter uma característica essencial: acreditar naquilo que propõe.

ISTOÉ –

O senhor apoiaria uma discussão sobre CPMF?

Aécio –

A CPMF, a meu ver, é recessiva. Nesse momento, não é o instrumento que o Brasil precisa para resgatar o que é essencial, que é a confiança e a credibilidade. Não está na nossa agenda a criação de novos impostos. 

ISTOÉ –

O PSDB participaria do governo Temer com cargos?
Aécio –

Não temos qualquer pretensão de ocupar cargos. Não acho que seja necessário, acho que não seria nem sequer adequado. Se alguém, do ponto de vista individual, optar por isso, é de cada um, mas enquanto partido defenderei a tese de que devemos nos concentrar nessa agenda de saída da crise, o que sinalizaria do ponto de vista da economia com a diminuição das taxas de juros de longo prazo, com resgate do planejamento das empresas para voltarem a investir. O Brasil precisa mudar o sinal, como o que aconteceu na Argentina. Que, mesmo sem  reformas estruturantes, com 30, 60 dias da posse do (presidente Maurício) Macri investimentos que deveriam estar vindo para o Brasil já estão indo para a Argentina. E essa mudança de expectativa não ocorrerá com a presidente Dilma no cargo.

ISTOÉ –

Essa definição sobre o posicionamento do PSDB em um eventual governo de Michel Temer foi acertado com o ex-presidente Fernando Henrique?
Aécio –

Sim, ele está participando de tudo. Está muito alinhado com tudo isso e acha que o impeachment é a saída. 

ISTOÉ –

O senhor foi acusado na delação do senador Delcídio do Amaral.

Aécio –

Todas as delações têm que ser investigadas. As citações do senador Delcídio em relação a mim foram explicadas e esclarecidas e pela sua fragilidade não terão qualquer consequência. O que é fato deve ser investigado. O que é falso deve ser arquivado

ISTOÉ –

A nomeação do ex-presidente Lula como ministro da Casa Civil foi uma “cartada final” da gestão Dilma…
Aécio –

O PT e a presidente da República não compreenderam ainda o que aconteceu no Brasil. O poder pode muito, mas o poder não pode tudo. E a indignação espontânea à nomeação do ex-presidente Lula é uma manifestação que o governo deveria receber com absoluta humildade. Atacar as instituições, as investigações da Lava Jato, atacar a imprensa, dividir o País entre “nós” e “eles”, tudo isso deixa claro que é nesses estertores finais do governo que está em curso uma tentativa de “venezuelização” do Brasil.