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Enquanto algumas linhas do budismo atraem os brasileiros ao difundir a prática da meditação ou os best-sellers de Dalai Lama, a Escola da Terra Pura – primeira ramificação budista a fundar um templo no País – corre o risco de desaparecer. A tradição (ou linha) surgiu no século XIII no Japão, onde é chamada de Jôdo Shinshu, e cruzou o mundo nos primeiros navios de imigrantes. Hoje, são 62 templos espalhados pelo Brasil. No entanto, 24 estão fechados. Mesmo onde há monge, o número cada vez menor de fiéis é motivo de preocupação. São tão poucos que a tradicional cerimônia realizada diariamente às sete da manhã foi suspensa na maioria dos templos. Onde ocorre, não chega a dez o número de presentes. Até no aniversário de morte de Shinran Shônin – celebrado com festa neste fim de semana (15 e 16) na sede latino-americana da Escola Jôdo Shinshu Honpa Honganji, em São Paulo – o número de visitantes diminui a cada ano.

Uma boa imagem do abandono é a porta, sempre fechada, do primeiro templo budista do País, fundado em 1932 no município de Cafelândia, a 400 quilômetros de São Paulo. “Antes era um galpão feito de madeira. Meu pai foi um dos construtores”, conta Issao Makino, 81 anos, que guarda as chaves da casa sagrada desde a morte, há dois anos, do último monge residente. Hoje, só há cerimônia no local uma vez ao mês, quando a reverenda japonesa Chijo Okayama deixa o mosteiro de Lins, também no interior paulista, para ir à cidade: para suprir a falta de missionários, é comum que um único monge peregrine por diversos municípios. Makino lamenta. “Às vezes, chega turista do Japão para visitar o templo e encontra tudo fechado. Deveriam ter mais consideração com o primeiro templo do País.”

Um dos principais obstáculos para a difusão da doutrina entre os mais jovens é a pronúncia japonesa utilizada na leitura dos sutras (discursos feitos por Buda e compilados por discípulos, normalmente grafados em chinês). Netos e bisnetos de imigrantes já não conhecem o idioma. “Esse budismo ficou restrito à colônia, que sempre encarou o templo como espaço de convívio social, onde era possível matar saudade do Japão e falar a língua nativa”, conta Frank Uzarski, professor de ciências da religião da PUC de São Paulo. Por isso, as tentativas de adaptar a doutrina foram rejeitadas pelos mais velhos. Hoje, projetos de tradução de textos sagrados voltam à cena para impedir o esvaziamento dos templos. Em muitos, a língua oriental ainda é usada até para atender o telefone.

Outra característica da Terra Pura que a distancia dos brasileiros é o costume de reverenciar os antepassados. É uma prática que atrai muitos fiéis, mas não é costume no País. “Realizamos até 30 cerimônias desse tipo em um único domingo”, conta o reverendo Marco Takaaki Yasunaka, de São Paulo. Para cada sessão, a família costuma desembolsar um salário mínimo. “Esse budismo de imigração tem de morrer para nascer o budismo missionário”, defende Ricardo Mário Gonçalves, um dos primeiros brasileiros sem ascendência oriental a se tornar reverendo. “Se nada mudar, quando o último imigrante falecer, só restará aos missionários fechar os templos e regressar ao Japão”, afirma. Há 25 anos, Ricardo foi chamado por seu superior para produzir material de divulgação em português que contemplasse as especificidades locais. Os resultados foram insuficientes. Hoje, todos os monges têm sido instigados a agir de modo a revigorar a religião no País. “Vim do Japão com a missão de achar uma criança que se dispusesse a virar monge. Estou aqui há seis anos e ainda não a encontrei”, revela o monge Kazuhiko Hirose, 75 anos, responsável pelo templo Higashi, de Bastos, no interior paulista.

Próximo dali, em Lins, a reverenda Chijo Okayama conseguiu fazer um sucessor. O jovem Fábio Takahashi, 26 anos, deixou a cidade há oito para trabalhar em uma fábrica de componentes eletrônicos no Japão. Acabou ingressando em uma escola de budismo e agora pretende trocar Kioto por São Paulo. “Espero assumir o templo de Lins quando a reverenda se aposentar e vou trabalhar para divulgar nossa doutrina”, promete o jovem monge. Na cidade, crianças e jovens foram atraídos pelas diversas dinâmicas criadas pela reverenda Okayama. Aos sábados, há aulas de japonês, dança e videokê. Uma vez por mês, o lugar se transforma em um grande refeitório onde é servido um yakisoba comunitário. O banquete faz o maior sucesso. Em cada evento, são vendidas mais de mil porções ao custo de R$ 5, o que garante o dinheiro necessário para a manutenção do mosteiro. Dona-de-casa e mãe de quatro filhos, a reverenda Okayama se desdobra para cumprir as obrigações religiosas em Lins e visitar sete cidades da região, que não têm monge. “É muito trabalho para uma única pessoa”, desabafa. Quando forem vencidos os obstáculos de língua e cultura, talvez ela consiga alguém para ajudá-la.