17/01/2001 - 1:00
Nas profundezas do mar. Ali estaria o corpo do ex-secretário-geral do Partido Comunista do Chile, Víctor Díaz, segundo um relatório elaborado pelas Forças Armadas chilenas e anunciado no domingo 7, em rede televisiva, pelo presidente Ricardo Lagos. No documento, o primeiro reconhecimento público das Forças Armadas chilenas de que a ditadura do general Augusto Pinochet (1973-1990) torturou e assassinou opositores políticos, estão listados casos de 400 desaparecidos. Estima-se que cerca de três mil pessoas teriam sido assassinadas durante a ditadura; destas, há 1.192 casos já comprovados por grupos de direitos humanos. Mas até a divulgação desse relatório, os governos democráticos que sucederam Pinochet tinham conseguido identificar apenas 171 desaparecidos. O caso de Victor Díaz, levado em maio de 1976 de uma casa onde estava escondido em um bairro de Santiago, simboliza bem aqueles anos de chumbo: ele foi uma das 130 pessoas atiradas de helicópteros pelos militares. “A informação é crua e dolorosa, pois fala de mortes, sepulturas clandestinas e de corpos jogados ao mar, rios e lagos do Chile”, afirmou Lagos.
No documento, diz o jornal chileno La Tercera, os militares revelam, entre outras coisas, que dias depois do golpe de Estado de 11 de setembro de 1973 – quando Pinochet derrubou o presidente Salvador Allende – foram incinerados no Cemitério Geral de Santiago os corpos de quase 200 opositores. Apesar das revelações, o relatório é vago em relação ao local onde está a maioria dos corpos dos desaparecidos. O Exército admitiu ter lançado 27 presos na costa de Pichilemu e no porto de Santo Antonio, ao norte de Santiago. Concretamente, os mapas apresentados pelos militares indicam onde foram enterrados outros 30 corpos que, uma vez encontrados, poderão ser objeto de testes de DNA para confirmar suas identidades. Outros 20 corpos foram declarados “não-identificados” e estariam sepultados em uma vala comum próxima a Santiago, também não localizada. O documento foi elaborado em seis meses pela chamada Mesa de Diálogo sobre Direitos Humanos, instaurada em 1999, composta por oficiais das três forças e integrantes de várias igrejas chilenas.
A reação dos chilenos mesclou alívio com decepção. “É muito doloroso saber que, depois de tanto tempo lutando, meu pai não terá uma sepultura digna”, disse a ISTOÉ Viviane Díaz, filha do ex-dirigente comunista e hoje presidente da organização chilena Familiares dos Detidos Desaparecidos. Viviane encontrou-se com o presidente Lagos antes do pronunciamento pela televisão. Ela comoveu-se com os outros parentes dos desaparecidos que ouviram em silêncio o informe sobre as vítimas da ditadura. Viviane chegou a consolar vários deles que desabaram em pranto. “Houve um sentimento de frustração, de impotência e raiva por parte de alguns”, disse ela. “Fui informada de que meu marido foi jogado no mar em frente à Tucapilla e pronto. Não aceito essa informação. Isso é uma fraude; aliás, é uma manobra inteligente do Exército. Todos os dados indicam que Carlos foi enterrado em uma fossa clandestina no deserto de Atacama”, disse Carmen Hertz, advogada que abriu um processo contra Pinochet pelo desaparecimento de seu marido, o jornalista Carlos Berger, assassinado na Caravana da Morte, um esquadrão militar que executou pelo menos 75 presos políticos um mês depois do golpe militar de 1973.
Reuters |
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Alívio e revolta Lagos e Viviane Díaz, filha de desaparecido |
Na ótica dos militares, os opositores que teriam sido atirados ao mar perderam a condição de desaparecidos, o que é visto por muitos como uma manobra para que cessem as investigações sobre seu paradeiro. A Suprema Corte irá encabeçar uma investigação sobre os casos que constam no relatório, e eventualmente abrirá processos. Eles estarão encarregados de verificar a veracidade das informações prestadas pelos militares – algo difícil de saber, principalmente os casos dos que foram jogados ao mar. “A não ser que perguntem aos tubarões”, ironizou Carmen Hertz. “Não podemos estar contentes. Além do mais, onde estão os outros 800 desaparecidos?”, indagou Viviane. Quem deveria responder a essa pergunta é o Exército, que detém a maior parte das informações. Além disso, não se sabe nada sobre o destino das 360 vítimas da Dina (Direção Nacional de Inteligência, a polícia secreta do governo Pinochet), responsável por grande parte das atrocidades cometidas entre 11 de setembro de 1973 e 11 de março de 1978. Gladys Marín, líder do Partido Comunista do Chile, acusou o Exército de montar uma “verdadeira farsa”. Ela diz que o documento “omitiu todos os crimes da Dina, que ocorreram nos anos mais brutais da repressão”. Neste período ocorreram cerca de 98% dos 1.192 casos, segundo os próprios representantes da Mesa de Diálogo. E estes crimes estão cobertos pela auto-anistia baixada por Pinochet em 1978.
Não é à toa que um relatório dessa importância foi divulgado neste momento. “Estamos dando um sinal muito forte de compromisso com o Chile. Não há porque continuar buscando maiores antecedentes sobre o paradeiro dos desaparecidos, devido à situação em que se encontra o país”, afirmou o comandante da Marinha, almirante Jorge Arancibia, numa clara alusão à situação de Pinochet. Destituído de sua imunidade parlamentar desde agosto, o ex-ditador e senador vitalício está sendo finalmente submetido a uma batelada de exames médicos, depois de driblar a Suprema Corte e não comparecer na data marcada pelo juiz Juan Guzmán. Cercado por uma segurança reforçada de carabineros (a polícia militar nacional), o general foi duas vezes ao Hospital Militar de Santiago fazer os exames que deverão apontar se ele é demente ou está em condições de ser julgado, como exigem as leis chilenas.
Interrogatório marcado – Pinochet é acusado pela Justiça de ser o autor intelectual da Caravana da Morte, além de outros 204 casos de atrocidades cometidos durante a ditadura. A briga jurídica contra o ex-mandatário começou em 1998 quando, a pedido do juiz espanhol Baltazar Garzón, ele foi detido em Londres, onde ficou em prisão domiciliar por 503 dias. Pinochet foi libertado e voltou ao Chile, depois de a Justiça britânica ter concluído que ele estava “muito doente” para ser julgado ou extraditado para a Espanha. Os resultados dos exames devem abrir as portas para que o juiz Guzmán realize o interrogatório, marcado para a segunda-feira 15.
O presidente Lagos chegou a reconhecer que os dados fornecidos pela Mesa de Diálogo não foram “suficientes”. Mas depois declarou que não é missão do Executivo decidir o que é certo ou errado, uma vez que esse é o papel dos tribunais. A Igreja Católica, que fez parte das investigações, declarou que dará continuidade ao trabalho. O porta-voz do Comitê Permanente da Conferência Episcopal do Chile, Enrique Palet, pediu a colaboração da sociedade chilena para “avançar na descoberta da verdade”. Os chilenos continuam esperando que essa verdade venha à tona um dia, como os golfinhos no mar. Isso, caso ela não tenha sido devorada pelos tubarões.