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A partir de fevereiro, na região da Costa do Sauípe, litoral norte da Bahia, haverá mais do que a luxuosa rede composta por cinco hotéis e seis pousadas. No entorno desse empreendimento, passará a funcionar a primeira usina de adubo orgânico da região, que processará as mais de oito mil toneladas de lixo produzidas diariamente nesse complexo turístico. Uma tecnologia desenvolvida pela Bio Exton, empresa incubada dentro da Universidade de Uberaba (MG), garantirá a transformação dos resíduos. A iniciativa faz parte do Projeto Berimbau, mantido pela Fundação Banco do Brasil, pela Previ (caixa de previdência dos funcionários do banco) e pela Sauípe S.A. “No processo tradicional seriam necessários 90 dias para a decomposição do material. Com essa tecnologia temos o mesmo resultado em quatro dias”, explica Jacques Pena, presidente da Fundação Banco do Brasil.

A usina produzirá 200 toneladas de adubo orgânico por mês e estará sob a responsabilidade da Verdecoop, cooperativa formada por moradores da região. Além de ser uma alternativa de preservação ambiental, já que não utiliza áreas a céu aberto e não gera cheiro, a usina oferecerá 40 postos de trabalho diretos e 150 indiretos e incentivará a produção rural. O objetivo do Projeto Berimbau é criar cadeias produtivas na comunidade de cerca de dez mil habitantes, que, com baixo índice de instrução e renda – 45% deles são analfabetos, 75% vivem com um salário mínimo e 22%, sem ganho nenhum –, sempre tiveram como principal fonte de renda a agricultura de subsistência e o artesanato. “A maior parte dos cooperados é formada por mulheres, que não tinham dinheiro nem capacitação e agora têm expectativas de uma nova vida”, conta Marivane Lisboa, 40 anos, presidente da Verdecoop. Os pequenos agricultores, também organizados em cooperativa, poderão adquirir o adubo com 20% de desconto, tornando-se mais competitivos para fornecer seus produtos às redes de hotéis e à própria comunidade. Com o aumento da produção rural se fecharia a cadeia: o hotel produz o lixo, o lixo vira adubo, o adubo mais barato beneficia o agricultor que produz mais e pode concorrer no abastecimento da cozinha dos hotéis.

Estão sendo desenvolvidas 42 ações em oito comunidades pertencentes aos municípios de Mata de São João e Entre Rios, nas quais já foram investidos cerca de R$ 2 milhões. Além das cooperativas de agricultores e de processamento de lixo, outra ação bem-sucedida é o Centro Artesanal Porto Sauípe, que fez da produção de chapéus, bolsas, pufs e tapetes de piaçava um comércio rentável. Nestas comunidades, as mulheres sempre fizeram chapéus e bolsas com as crianças se enrolando nas tiras da piaçava, enquanto os homens saíam para enfrentar o mar em suas canoas. Mas, apesar de o artesanato e a pesca serem atividades passadas de geração para geração, se tornaram economicamente insuficientes. Com a capacitação técnica do Sebrae e a sabedoria de antigas artesãs locais, as peças simples, antes vendidas ocasionalmente pelas ruas, hoje são mais sofisticadas e bem-acabadas e vão para várias capitais como São Paulo, Rio, Salvador, Porto Alegre e Belo Horizonte. Também são vendidas na Loja do Artesão, na Vila Nova da Praia. “Aprendi a trançar a piaçava com a minha avó. A produção era pequena e eu vendia nas praias. Agora, temos muito mais pedidos”, explica Marilene Gonçalves, 56 anos, que ganha em média R$ 300 por mês. Marilene descobriu a importância da união de forças. Um aprendizado que passará aos filhos e netos.