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O céu claro e ensolarado da quinta-feira 6 animou o dentista Eduardo Silva, 40 anos, e a jornalista Rita Bragatto, 34. Os paulistas de Sorocaba, interior de São Paulo, casados há 12 anos, esperavam ansiosos o momento de escalar o monte Aconcágua, a maior montanha das Américas. Depois de uma caminhada de 15 horas, finalmente chegaram ao topo. Mas o que prometia ser a realização de um sonho mostrou-se um pesadelo. Cerca de 200 metros
após iniciar a descida de volta, Rita começou a perder os movimentos das pernas devido ao frio (30 graus negativos) e às rajadas de vento de mais de 60 quilômetros por hora. Foram obrigados a parar e a pedir ajuda pelo rádio. O resgate, porém, chegou tarde demais para o dentista. Ele morreu pouco depois, provavelmente
de parada cardíaca.

O acidente gerou uma troca de acusações entre Rita e a administração do parque responsável pelo Aconcágua. Ela reclama da demora no resgate, e os guardas afirmam que os dois foram negligentes ao não contratar um guia e subir naquele horário. Insinuam ainda que a demora em atingir o pico é sinal de falta de praparo físico. “Geralmente, as pessoas costumam sair às três horas da manhã. Partimos meia hora antes porque caminhamos mais devagar e assim teríamos mais tempo para reconhecer o caminho e nos alimentar adequadamente”, justifica Rita, ainda muito abalada. Quanto ao socorro, os argentinos se defendem dizendo que havia outros casos mais urgentes.

O fato é que em esportes de aventura como montanhismo, em que a superação de limites e situações de perigo são ingredientes básicos, definir o que é certo ou errado é no mínimo complexo. Há alguns procedimentos aconselháveis, mas não necessariamente obrigatórios. Tentar descer com a luz do dia é um deles. “Costumo dizer que, se até às quatro horas da tarde o pico não for atingido, o ideal é voltar.
Mas de repente a pessoa quer ver o pôr-do-sol lá de cima”, diz o alpinista Rodrigo Raineri, que estava na montanha quando Rita foi resgatada. Ele e Vitor Negrete, também alpinista e corredor de aventura, foram os primeiros brasileiros a atingir o pico do Aconcágua no inverno, em agosto de 2004. E também os primeiros
a escalar, em 2002, o Aconcágua pela face sul, uma das rotas mais perigosas
do mundo. Foi lá, em 1998, que morreram os brasileiros Mozart Catão, Othon Leonardos e Alexandre Oliveira.

A subida pela face norte, a mais usual, não exige muita técnica. O problema é a altitude, que pode provovar tontura, fadiga, desidratação, confusão mental, congelamento e, em casos mais extremos, edemas pulmonar e cerebral. “O Aconcágua é tranquilo, mas em condições adversas pode ser mortal. Se alguém quebrar o pé, por exemplo, não sai de lá”, diz Negrete, que em março vai tentar junto com o parceiro Raineri escalar o Everest sem oxigênio extra. Quanto à contratação de guias, também não há consenso. “É bom, mas defendo que cada um tem o direito de escalar como quiser”, afirma Negrete. “Depende do estilo de cada um. Tem pessoas que, ao viajarem para a Europa, preferem ir com guias. Outras gostam de explorar os lugares sozinhas”, compara Helena Coelho, 51 anos, montanhista há mais de 20.

Mesmo para alpinistas experientes fica difícil saber o que aconteceu com os paulistas. “Cheguei lá no dia do resgate e fiquei ao lado de Rita por muito tempo.
Ela estava confusa e muito abalada”, diz Raineri. Assim como ele, Helena acompanhou de perto o drama da jornalista. “Quando ela chegou ao acampamento, ainda não sabia que o marido havia morrido. Levei-a para minha barraca e lhe dei chá quente antes de dar a notícia. Ela desmaiou várias vezes”, relata. O corpo do dentista foi sepultado na quarta-feira 12, em Sorocaba. Apesar da tragédia, Rita está tranquila. “O Eduardo me ensinou a gostar de montanha. Ele dizia que estar no alto é estar mais perto de Deus. Não estou traumatizada com a situação, mas com a falta de estrutura do resgate”, diz.