19/01/2005 - 10:00

Há um objeto solitário sobre a mesa da sala de reuniões da Secretaria Estadual da Juventude, Esportes e Lazer de São Paulo, repartição que ocupa um antigo edifício no centro da capital. A taça prateada pode ser confundida com um adorno. Mas não é. Trata-se do símbolo da heróica reabilitação para o esporte do secretário estadual e velejador Lars Grael, 41 anos. Foi conquistada no domingo 9, com a vitória de Lars e o proeiro Marco Lagoa no Sul-Americano da classe Star, de Buenos Aires, Argentina. A próxima prova é o Mundial da classe Star, entre 12 e 20 de fevereiro. Lars estará lá. A vitória de domingo 9 seria apenas mais uma se o velejador-secretário – com seus dois bronzes olímpicos – tivesse uma carreira normal. Mas se tornou a primeira prova de alta performance internacional vencida por ele desde que perdeu a perna direita num acidente estúpido em setembro de 1998, época em que estava no auge. A atual vitória serviu para provar ao mundo que não é um ex-atleta. Pensa até em disputar a classificação para os Jogos de Pequim 2008, “só por disputar”. Teria que eliminar o irmão Torben e Robert Scheidt, este, aliás, derrotado por ele na Argentina.
O teste portenho lhe trouxe contida confiança. Venceu, além das limitações físicas – sentia dificuldades quando projetava o corpo fora do barco –, instabilidades climáticas. “É uma época em que os ventos oscilam de intensidade e direção, com tempestades. Tínhamos uma sensação térmica de 41,3º.” A competição chegou a ser adiada. Não por causa do tempo. Barcos de duplas canadenses ficaram retidos na alfândega. “A burocracia aduaneira da América do Sul é difícil. Os barcos são feitos de composite, fibra e espuma e ficam armazenados em contêineres de ferro numa temperatura de 70º. Acabam estragando. Nos portos de Roterdã (Holanda) e Antuérpia (Bélgica), a liberação é de 45 minutos”, critica Lars, que na quarta-feira 12 estava sob o impacto da notícia de que a Petrobras havia retirado o patrocínio total de R$ 700 mil para os atletas da vela, verba destinada ao emergente handebol. “Era a sobrevivência para atletas olímpicos que têm muitas chances de ficar a ver navios, literalmente.” Lars não se conforma que a vela tão vitoriosa ainda seja discriminada e tachada de elitista, como se seus praticantes fossem milionários. “Em Sydney, na Olimpíada, o Vasco patrocinou a vela e o Eurico Miranda (dirigente do clube) ficou surpreso ao ver como os velejadores trabalhavam, consertavam seus barcos sozinhos, sem nenhuma entourage. É gente que corre atrás”.
Lars só concorda que iatismo é um nome ruim. “Logo se pensa em iate.” Segundo ele, tem que chamar de vela. Apesar da defesa apaixonada de seu esporte, Lars não é exclusivista em seu entusiasmo. Adora todo tipo de atividade. O acidente o afastou de paixões como o tênis e o badminton, tipo de peteca mais sofisticado. Até hoje, aguarda a pensão vitalícia de R$ 7 mil e uma indenização de R$ 2,5 milhões fixada pela Justiça para que seja ressarcido. Locomove-se com espantosa rapidez com duas muletas, embora não descarte que no futuro vá adotar uma prótese. Durante o tratamento, fez dez cirurgias. Para colocar a prótese, seria necessário mais uma corretiva e um longo período de adaptação. Procedimento que ele tem adiado, em parte pelos compromissos que assumiu há seis anos, quando foi secretário nacional de Esportes do governo Fernando Henrique Cardoso e, depois, secretário de São Paulo. Foram seis anos em que, arduamente, voltou a velejar e teve o terceiro filho, Sofia, que nasceu em janeiro de 2000. Pela volta por cima, virou uma espécie de emblema da superação, requisitado para palestras motivacionais. A tenacidade vem muito antes de seus problemas. O pai, o coronel do Exército Dickson Melges Grael, foi um dos pioneiros do pára-quedismo brasileiro – Lars nunca saltou e diz que seu negócio é a superfície da água, não a profundidade ou as alturas. O coronel deixou um exemplo de coragem aos filhos. Dickson apoiou o golpe militar, mas rapidamente se indignou com os rumos antidemocráticos e arbitrariedades. Escreveu o livro-denúncia Aventura, corrupção e terrorismo: à sombra da impunidade, sem medo de represálias, que vieram. Lars é filiado ao PFL. Mas nos anos 80 era um “brizolista convicto”, muito em parte pelos companheiros do governador, como o educador Darcy Ribeiro e o comunista Luiz Carlos Prestes.
O velejador conta que depois do acidente – em que esteve muito exposto na mídia – foi assediado para disputar eleições. Ficou longe das urnas, mas ajudou a dar um peso político maior ao esporte. Em 2005 quer desfrutar dos resultados de sua gestão em São Paulo. Para 2006, aguarda definições que virão do governador Geraldo Alckmin. Ele se diz tentado a voltar a seu hábitat, o mar. “Estou no governo há seis anos. Não tenho apadrinhamento político, mas é muito tempo. Sei que é preciso legitimar pelo voto. Talvez volte para a iniciativa privada ou seja dirigente.” Pelo que já fez pela auto-estima nacional, deve pensar bem em sua decisão.
