O primeiro impulso diante da crise de energia que assusta o País é sair pela casa desligando o que for possível e não comprar novos aparelhos. Esse comportamento afetará a indústria eletroeletrônica, pelo menos no curto prazo. Mas essa não é a principal preocupação de Eugenio Staub, 59 anos, presidente da maior empresa brasileira do setor, a Gradiente. O que o inquieta é a superposição de crises, algumas conjunturais, como a de energia, outras estruturais, a exemplo da cambial. O seu sonho é ver aplicados os primorosos projetos para o Brasil, desenvolvidos pelo Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), mantido por empresários privados brasileiros e presidido pelo próprio Staub, como ele explica nesta entrevista.

ISTOÉ –

Como o sr. vê a crise energética que assola o País?

Eugenio Staub –

Está bem administrada, mas coisas elementares não são feitas. Não critico o ministro da Fazenda, talvez ele esteja certo, mas, antes de aumentar o IPI dos chuveiros elétricos para reduzir as vendas desse produto, ele deveria chamar os principais fabricantes e pedir uma sugestão melhor em três dias. Provavelmente, proporiam um chuveiro de menor consumo, e o pobre, que usa chuveiro elétrico, iria tomar banho morno, em vez de banho frio. Outro exemplo é a proposta de reduzir a alíquota de importação de geradores a zero. O certo seria convocar representantes do setor, que pode aumentar facilmente a produção, e dar uma semana de prazo para oferecerem uma alternativa.

ISTOÉ –

O governo não percebe essas possibilidades ou não admite dividir a paternidade das decisões?

Eugenio Staub –

 Ninguém quer decidir no lugar do governo, mas reivindicamos o direito de ser ouvidos, até para eles não fazerem besteira. A crise de energia é um caso típico: todo mundo sabia, há especialistas fantásticos no País. Empresários como Antônio Ermírio de Moraes estão alertando sobre isso há anos. A indústria sabe.

ISTOÉ –

Por que o País não mobiliza esse conhecimento?
 

Eugenio Staub –

 É um fenômeno cultural. Perdemos a auto-estima, não confiamos mais nos brasileiros. A gente vê isso no governo. Examine a agenda do presidente: quantos presidentes de empresas estrangeiras e quantos de empresas brasileiras ele atende? Recebe o presidente da Ford, o da Nokia, que na maioria das vezes vão lá tratar dos interesses deles. Há uma perda de auto-estima. A gente não valoriza o know-how brasileiro, a empresa brasileira, o empresário brasileiro.

ISTOÉ –

Há um preconceito?

Eugenio Staub –

 A avaliação é de que o empresário só procura o governo para tratar de seus interesses, é incapaz de pensar nas necessidades do País, não tem contribuição a dar. Brasileiro não tem graça, parecem pensar. É uma coisa que tomou conta do País, e não era assim.

ISTOÉ –

O governo não aceita a colaboração da iniciativa privada?

Eugenio Staub –

 O problema é que não existe mobilização do conhecimento da iniciativa privada brasileira. Esvaziou-se o papel das associações de classe, não se usou corretamente o Iedi e isso custa caro ao País.

ISTOÉ –

Qual é o alcance da crise de energia?

Eugenio Staub –

 É a ponta de um iceberg. Todo mundo está enxergando agora que houve uma falha do governo no planejamento e na execução. Abaixo da linha d’água há outros problemas, como a política industrial. O Brasil perdeu o pé. As empresas fizeram um esforço extraordinário para aumentar a produtividade, a qualidade e reduzir custos. Mas as indústrias novas que interessam, aquelas que puxam o comércio internacional, geram exportação e reduzem importações, não estão aqui. O governo precisa dizer que interessa ter essas empresas aqui. Um excelente exemplo de setor de ponta e dinâmico no Brasil é a aviação comercial. Mas a Embraer é o resultado de um planejamento estratégico de longo prazo e de uma política industrial. E o Brasil, coitadinho, em quem ninguém acredita porque não temos auto-estima, é capaz de ser um dos melhores do mundo nessa área. Há gênios estrangeiros na Embraer? Não há.

ISTOÉ –

Qual será o impacto da escassez de energia na indústria em geral?

Eugenio Staub –

 Estudos preliminares do Iedi indicam que o crescimento da indústria este ano poderá ser zero. O que iria puxar a economia era a indústria. Naturalmente esses dados ainda são muito precários.

ISTOÉ –

A indústria e os consumidores têm reagido.

Eugenio Staub –

 É uma reação positiva. A crise de energia não é estrutural, mas de oferta, e é completamente superável. Estrutural é a crise cambial. Até hoje, nessa área, não se foi além de resolver as emergências. A continuar como está, um dia teremos um apagão cambial.

ISTOÉ –

Como se chegou a essa situação?

Eugenio Staub –

Quando Itamar Franco entregou o governo, os índices de dívida pública, de dívida externa, a taxa cambial eram muito positivos, embora isso não tenha sido mérito dele. Mas houve covardia em relação ao problema cambial. Enfrentá-lo podia representar inflação e deterioração dramática das contas públicas. Essa postura gerou uma grande necessidade de endividamento e uma dependência externa preocupante. O País precisa atrair US$ 1 bilhão do Exterior por semana, entre investimento direto estrangeiro e rolagem de dívida. São os vencimentos do ano mais o buraco da balança de pagamentos. A privatização (nada contra, é só uma constatação) conduziu a um aumento da dependência externa. O governo fica alegre quando chegam dólares para comprar empresas como a Telebrás, usinas, bancos, porque isso ajuda a sustentar a taxa cambial. Mas esses e outros ativos públicos e privados eram brasileiros. Hoje estão nas mãos de estrangeiros e o resto da vida vão gerar remessa de divisas para pagar empréstimos, royalties e dividendos às suas matrizes. Soma-se a isso o aumento do endividamento dos Estados e governos.

ISTOÉ –

Que forma seria o apagão cambial?

Eugenio Staub –

 É uma questão de tempo e de mudanças conjunturais. Uma grande crise internacional impacta o Brasil diretamente. Felizmente, parece que este ano a crise americana vai passar, mas o stress cambial esta aí. A crise de energia provavelmente reduzirá os investimentos diretos estrangeiros. Nos próximos dois anos precisaríamos de US$ 50 bilhões por ano. Se vierem 30% a menos, o que não é absurdo, serão US$ 35 bilhões. Faltarão US$ 15 bilhões, que poderão ser supridos pelo FMI sem dificuldade, com endividamento privado junto ao setor privado lá fora. Mas isso aumenta o endividamento. Hoje temos uma panela de pressão com uma boa válvula, que é a taxa variável de câmbio. Na medida em que se começa a perceber que há falta de divisas, o dólar vai subindo. Isso provoca pressão inflacionária, desordem nas contas públicas. Então, a situação do País não é tranquila. Estamos no sétimo ano de um governo que, dentro de um ano, estará entregando um país em piores condições do que recebeu, no que diz respeito ao econômico e ao social.

ISTOÉ –

Com essa restrição cambial, o País não pode crescer.

Eugenio Staub –

Se crescer, como a sua indústria não está fundamentalmente dentro dos setores dinâmicos, começa a importar mais do que pode exportar. O Brasil é um país bem mais aberto do que a gente pensa, mas não houve contrapartida. Precisa renegociar – isso é uma coisa delicada – a sua inserção internacional, porque nós fizemos acordos muito perversos, passivos, na Rodada Uruguai e na OMC. Nós somos bonzinhos. No fundo é falta de auto-estima, de perceber que somos um parceiro importante e capaz de colocar exigências na mesa. Somos muito educados.

ISTOÉ –

Em relação à Alca, qual é a sua posição?

Eugenio Staub –

 Acho que não se deve rejeitar “in limine” a Alca, mas não dá para entrar nessa conversa sem entender o quadro todo. O Brasil só deve participar se for bom para diminuir a distância entre o nosso PIB e os do Canadá e dos Estados Unidos, se o acordo proporcionar condições de distribuir melhor a nossa renda. É preciso colocar na mesa uma agenda de pré-requisitos, como a abertura do mercado americano para nós. Mas não é isso que os americanos pensam nem o que eles fizeram com o México. Acho que, se o quadro todo for colocado na mesa, não existe a Alca. Ela também não existe sem o Brasil. Essa fantasia da Alca é para pegar o mercado brasileiro, faz parte do planejamento estratégico dos Estados Unidos.

ISTOÉ –

Qual é o nosso planejamento estratégico?

Eugenio Staub –

 Acho que o único plano que está na mesa é cumprir as metas do FMI, seguir a cartilha. O que o FMI exigiu não é irrazoável. Isso é matéria discutível, mas não é esse o problema. O problema é que não temos a nossa agenda. A indústria é o motor do desenvolvimento e não há planejamento para ela. Ninguém sobrevive sem planejamento estratégico. Uma empresa tem que planejar a estratégia, o que vai fazer, senão ela desaparece, e o País também. Nós não temos uma visão do futuro do Brasil.

ISTOÉ –

Há países que deixaram para trás a condição de subdesenvolvidos sem a indústria numa posição central?

Eugenio Staub –

 Sem a indústria, eu não conheço. Talvez haja países muito pouco relevantes em termos de população. Indústria e tecnologia são indispensáveis. O conteúdo tecnológico, isto é, de conhecimento de todos os produtos, está aumentando e pesa cada vez mais no faturamento e na riqueza das indústrias. E nós não cuidamos disso aqui. Os recursos estão aí: temos bons empresários, um bom mercado interno, bons técnicos.

ISTOÉ –

Mas o presidente, em sua obra teórica, não reserva um papel muito relevante para a indústria, tem até um certo desprezo pelo empresariado nacional.

Eugenio Staub –

 É lamentável. Mas a verdade não é essa. Pode ser ponto de vista da pessoa física. Onde está a riqueza da Alemanha, do Japão? A Coréia é um exemplo extraordinário de indústria e planejamento estratégico.

ISTOÉ –

O que falta ao Brasil?

Eugenio Staub –

 É preciso olhar para a frente, identificar as novas possibilidades para o País em alta tecnologia. Há as oportunidades claras, vocacionais em papel e celulose, aço, produtos agroindustriais, que podem se tornar importantes no contexto mundial. O que falta é negociar corretamente sua inserção no mundo para não existirem barreiras como os americanos levantam contra o nosso aço, os nossos têxteis, o suco de laranja. E há outros setores que têm crescimento dinâmico e pressionam a balança na direção contrária. Hoje importa-se muita coisa que o País poderia exportar, como componentes eletrônicos.

ISTOÉ –

Por que não exporta?

Eugenio Staub –

Vou contar uma experiência recente, extraordinária e frustrante. O ministro do Desenvolvimento, Alcides Tápias, reuniu 12 empresários de componentes do mundo inteiro interessados em estudar a fundo investimentos no Brasil. Eram todos presidentes de empresa e saíram impressionados. Na etapa seguinte, colocaram as equipes deles para estudar o que é preciso para desenvolver sua próxima fábrica, não em Taiwan, nem em Cingapura, onde já há cinco ou seis iguais, mas no Brasil, reduzindo o seu risco geoeconômico e suprindo o México, os EUA e o mercado sul-americano a partir daqui. Duas semanas depois desse evento, no entanto, o governo decidiu reduzir a alíquota de importação de componentes eletrônicos, de 14% para 2%, antecipando a mudança prevista para 2006. Um tiro no pé, um crime de lesa-pátria, porque isso vai condenar à morte a indústria nascente de componentes e nos tirar do mapa do complexo eletrônico para o resto da vida. Seremos (talvez nem isso) eternamente montadores de componentes importados, que têm alto valor adicionado. É para ficar indignado.

ISTOÉ –

Por que isso aconteceu?

Eugenio Staub –

 Atribuo a muita ingenuidade e a um complexo de inferioridade. A idéia, boa mas incompleta, é reduzir a alíquota de importação para tornar o computador mais barato e a população mais simples poder acessar a internet. O custo final inclui o computador importado, 5% a 10% mais barato, o financiamento da compra em 36 vezes, o uso do telefone e do provedor. Feitas as contas, a redução da alíquota não vai resolver.

ISTOÉ –

Essa reunião com os empresários teve sequência?

Eugenio Staub –

Há duas associações envolvidas, a Abinee e a Eletros. Ninguém foi chamado para discutir. Há uma indignação.

ISTOÉ –

Qual é a justificativa para importar em vez de fabricar aqui?

Eugenio Staub –

O pensamento atrás disso é o de que a indústria brasileira precisa de um novo choque de competitividade. Portanto, é preciso reduzir todas as alíquotas de importação. Como isso não pega bem agora, decidiu-se fazer por etapas. Isso foi dito por gente do governo, informalmente. Começaram pelo computador porque é simpático oferecê-lo ao cidadão que não pode comprar.

ISTOÉ –

Quando foi decidido isso?

Eugenio Staub –

Foi decidido nos últimos 60 dias, pelo mais alto nível do governo. Só que ninguém comunicou formalmente para nós. Vamos tomar conhecimento no Diário Oficial até o dia 21. E no dia 22 esse assunto vai ser decidido em nível de Mercosul. Isso é um erro sério. É uma catraca, baixa a tarifa e não volta mais.

ISTOÉ –

Qual será o impacto na balança comercial?

Eugenio Staub –

 O setor mais deficitário é o eletrônico, com um saldo negativo de US$ 8 bilhões. É o dobro do nosso déficit em petróleo, por exemplo. A estimativa é que esse déficit passe para US$ 15 bilhões em três a cinco anos. Não há exportação de minério de ferro, de soja, de celulose e papel que pague isso.

ISTOÉ –

O Brasil tem jeito?

Eugenio Staub –

Tem. Mas isso não quer dizer que vá dar certo. O responsável pela situação em que está não é o pobre, nem americano, nem militar: somos nós, a elite brasileira e temos capacidade para fazer a virada, se alguém conseguir mobilizar essa força. Mas se continuarmos a ser passivos, a tomar decisões erradas, como essa de reduzir a tarifa dos componentes eletrônicos, não vamos cumprir o nosso destino, seremos um país de pobres excluídos, exportando bens primários, de Terceiro Mundo mesmo, e a distância entre nós e os desenvolvidos vai continuar crescendo. Precisamos eleger um líder que seja capaz de mobilizar a força transformadora.

ISTOÉ –

Existe alguém no atual cenário?

Eugenio Staub –

Há oito ou nove candidatos, alguns deles capazes de fazer a inflexão. Mas o piloto que sentar naquela cadeira lá para pilotar o País tem muito menos possibilidade de manobrar agora do que teria antes. Há dependência externa, dos mercados financeiros, uma inserção internacional negociada na Rodada Uruguai, o Acordo de Ouro Preto, restrições criadas pelos parceiros do Mercosul. Mas eu continuo acreditando que o Brasil é viável, com “software humano” extraordinário, capaz de resolver os problemas se tiver uma direção correta.