28/04/2001 - 10:00
Conhecida como a primeira mulher a ganhar um prêmio Pulitzer, em 1921, com o romance A idade da inocência, a escritora nova-iorquina Edith Wharton soube como poucos descrever a nascente aristocracia americana do final do século XIX, colocando a nu os mecanismos econômico-sexuais que regiam a mobilidade social. Exatamente como Choderlos de Laclos fez, um século antes, com a aristocracia francesa em Ligações perigosas. Baseado no livro A casa da felicidade, A essência da paixão (The house of the mirth, Inglaterra, Estados Unidos, França, Alemanha, 2000) – em cartaz no Rio de Janeiro e São Paulo na sexta-feira 4 – conta a história de Lily Bart (Gillian Anderson, de Arquivo X), uma garota adorável cujo único defeito foi nascer pobre. Traída pela amiga Bertha Dorset (Laura Linney) e desprezada pela tia rica, Mrs. Peniston (Eleanor Bron), Lily atravessa a vida sem concretizar o amor que sente por Lawrence Selden (Eric Stoltz), por força das circunstâncias reduzido a melhor amigo.
Ao contrário do cineasta Martin Scorsese, que centrou sua versão de A idade da inocência na performance do elenco liderado por Michelle Pfeiffer e Daniel Day-Lewis, o diretor Terence Davies manteve seu compromisso apenas com a linguagem cinematográfica, a exemplo de seus oito filmes anteriores. A essência da paixão evidencia uma preocupação com as minúcias em fabulosas tomadas de câmera, nos figurinos e nos cenários interiores, minuciosamente reconstituídos. O tributo à beleza também se vê nas passagens de cena. Em uma delas, a fusão de imagens do interior da América, sob uma forte chuva, com a baía de Monte Carlo resplandecente ao sol, é pura poesia. Com tanta sensibilidade e elegância, até mesmo o casal Gillian-Stoltz, atores especializados em personagens anódinos, parece exalar paixão. São 2h20 praticamente sem música, que passam como um sonho.