O embaixador Samuel Pinheiro Guimarães é um diplomata com 39 anos de serviços prestados ao Itamaraty. Durante esse período, ocupou postos importantes no corpo diplomático brasileiro. Foi diretor do Departamento Econômico do Ministério e chefiou a Divisão Econômica para a América Latina nos anos 90, além de ter representado o País no Exterior, em Nova York e Boston. Até duas semanas atrás, dirigia o Instituto de Pesquisas de Relações Internacionais (Ipri), órgão ligado ao Ministério das Relações Exteriores, quando foi afastado em consequência das críticas que fez à Área de Livre Comércio das Américas (Alca), em palestra para oficiais das Forças Armadas, no Centro Brasileiro de Estudos Estratégicos, no Rio de Janeiro. As declarações do diplomata abalaram os salões sempre discretos do Itamaraty e fizeram o ministro Celso Lafer, titular da pasta, reagir com firmeza. O argumento de Lafer para justificar a exoneração foi de que o posto exige isenção – e o diplomata já teria opinião formada sobre o tema. Na terça-feira 17, após tomar conhecimento da sua exoneração, o embaixador manteve o tom veemente. Afirmou que a Alca vai tornar o Brasil mais periférico, e o levará a uma situação parecida com a de 1929, quando precisava importar quase tudo o que consumia, incluindo itens como palitos, talheres e tomadas. Pinheiro falou a ISTOÉ na Associação Comercial do Rio de Janeiro:

ISTOÉ – O que significa para o Brasil aderir à Alca?
Samuel Pinheiro Guimarães – Seria como o Popó lutar contra o Mike Tyson. Porque a economia americana é de peso pesado e, a brasileira, de superpena. É preciso melhorar muito para que ela chegue ao nível da alemã, que está abaixo da americana. A indústria brasileira perderá a competitividade com a Alca. Na economia, como no boxe, existem diversos estágios de competição, e o peso pena não pode, obviamente, competir em igualdade de condições com o peso pesado. Minha crítica à Alca nem sequer representa um novo estilo de diplomacia. Afinal, chanceleres (Araújo Castro, no governo João Goulart, Azeredo da Silveira e Saraiva Guerreiro, no governo Geisel) já haviam criticado, de forma veemente, os mecanismos das negociações internacionais que favorecem os países ricos.

ISTOÉ – A Alca pode anular o Mercosul?
Guimarães – Ela vai engolir o Mercosul. A Alca, como está proposta, e o Mercosul são incompatíveis. Dela resultarão regras que farão o Brasil abdicar de ter política industrial, uma política tecnológica e uma política de emprego. A indisciplina do capital impede que o Brasil procure atrair investimento estrangeiro em condições realistas, como faz a China, que atrai volumes gigantescos de capital estrangeiro, mas impõe condições de exportação, de transferência de tecnologia e outras. Mas a estratégia do governo americano é dirigida para o fortalecimento dos Estados Unidos, do seu poder nacional, e baseada na política de interesses que era defendida por George Washington.

ISTOÉ – Qual será o ambiente de negociações da Alca?
Guimarães – Será o mais favorável aos Estados Unidos, que se consideram, com justiça, a maior potência econômica e a maior potência tecnológica do planeta. Ela vai criar, gradualmente, um território econômico único, sem nenhuma barreira à circulação de bens nem de serviços, nem de capital. Neste território estarão, em igualdade de competição, de um lado as megaempresas multinacionais americanas (algumas com 40% do mercado mundial) e de outro lado, as empresas brasileiras, e estas, quando são muito grandes, são do tamanho de companhias médias americanas.

ISTOÉ – Mas algumas empresas brasileiras não serão beneficiadas pela Alca?
Guimarães – Sim. Algumas, porque têm capacidade de exportar, inclusive para os Estados Unidos. Mas a média de eficiência de cada setor da economia brasileira é inferior à média de eficiência do correspondente setor americano e, por isso, haverá um forte desequilíbrio desfavorável ao Estado brasileiro e à sociedade brasileira. Afinal, no mesmo “território da Alca” estarão empresas americanas com acesso a crédito fácil e financiamento barato e apoio do governo de seu país (inclusive para pesquisa tecnológica de ponta), e empresas encontram uma situação diferente, com um Estado enfraquecido. Diziam que haveria um aumento das exportações com a redução das barreiras ao comércio. As importações é que aumentaram, e muito, e o nosso superávit virou um déficit no comércio com os Estados Unidos, Alemanha, Espanha, Japão e outros países.

ISTOÉ – Quantas patentes os Estados Unidos têm solicitado e quantas o Brasil pede?
Guimarães – A diferença é brutal. Em 1999, os americanos pediram 29 mil patentes à Organização Mundial da Propriedade Intelectual, em Genebra, enquanto o Brasil pediu 120 patentes. Em 2000 os Estados Unidos solicitaram 39 mil novas patentes. O Brasil apresentou 160 pedidos. Isso mostra a diferença entre a potência americana e seus parceiros da Alca e até mesmo do Brasil. Os Estados Unidos representam uma potência econômica, tecnológica, comercial, agrícola. A sua safra de soja é de 90 milhões de toneladas enquanto toda a safra brasileira é de 80 milhões. Por isso, os americanos querem abrir os mercados, porque eles sabem que, com os mercados abertos para seus bens, serviços e capitais, ainda vão proteger seus setores mais frágeis, para reorganizá-los e fortalecê-los.