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Jogo obscuro No cenário internacional, crescem as suspeitas sobre os bastidores da negociação de Chávez com as Farcs

Sob suspeita de ceder território venezuelano para instalação de bases das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), o presidente Hugo Chávez finalmente conseguiu a libertação de dois símbolos da tragédia dos seqüestros na Colômbia. Ao final de 20 dias de caminhada, Clara Rojas, ex-candidata à vice-presidência, e a ex-deputada Consuelo González de Perdomo foram entregues pela guerrilha a uma comissão formada por integrantes da Cruz Vermelha e do governo da Venezuela na quinta-feira 10. Seqüestrada há quase seis anos, Clara deu à luz no cativeiro o menino Emmanuel (leia quadro), que supostamente seria libertado com ela na passagem do ano. Levada pela guerrilha em setembro de 2001, Consuelo ficou viúva e virou avó da pequena María Juliana enquanto esteve em poder das Farc.

Ao embarcar no helicóptero que as resgatou em uma clareira da mata venezuelana, a felicidade das duas mulheres por readquirir a liberdade era encoberta por uma realidade chocante. Outras 43 pessoas permanecem seqüestradas pelas Farc, integrando uma lista de reféns passíveis de negociação, pois a guerrilha pretende trocá- las por cerca de 500 rebeldes presos. Entre eles está a ex-senadora Ingrid Betancourt, seqüestrada durante sua campanha à Presidência da Colômbia, junto com Clara Rojas. "De Ingrid, não tenho notícias há três anos", contou Clara, ao desembarcar na região de Caracas, trazendo provas de vida de oito reféns. Pelos cálculos do governo Álvaro Uribe, as Farc têm ainda outras 750 pessoas em cativeiro, que não foram incluídas na relação de intercâmbio humanitário porque seu seqüestro teve fins econômicos.

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Reencontro Consuelo (à esq.), com a filha Patrícia e a neta María Juliana, que conheceu ao desembarcar na Venezuela

A missão que culminou no resgate de Clara e Consuelo ocorreu dez dias depois de uma operação fracassada, que atraiu a atenção internacional e terminou com uma troca de acusações entre Chávez e Uribe. Enquanto Chávez acusou Uribe de sabotar sua intermediação junto às Farc, o presidente colombiano denunciou que os reféns não haviam sido apresentados porque um deles, o garoto Emmanuel, se encontrava sob os cuidados de uma instituição governamental em Bogotá. Uribe estava coberto de razão. Agora, o resultado positivo da mais recente investida de Chávez abre caminho para novas negociações e tende a reabilitá-lo como mediador entre o governo colombiano e as Farc.

Ao assistir às imagens da libertação de Clara e Consuelo, Juan Carlos Lecompte, marido de Ingrid Betancourt, renovou sua esperança de que, "com a ajuda do presidente Chávez", sua mulher volte para casa em breve. Com cidadania colombiana e francesa, Ingrid é a refém de maior peso político em poder da guerrilha. É previsível que sentimentos similares aos de seu marido aflorem entre todos aqueles com vínculos diretos com os seqüestrados. No cenário internacional, por outro lado, aumentam as suspeitas de que a boa vontade das Farc em relação a Chávez tenha ultrapassado as fronteiras da identidade ideológica e esteja avançando cada vez mais pelo terreno da colaboração estratégica.

O drama de EMMANUEL

REPRODUÇÃO: REVISTA A SEMANA

IDENTIDADE REVELADA Imagem do prontuário médico do garoto nascido no cativeiro, que se prepara para encontrar de novo a mãe

Emmanuel ainda não fez quatro anos, mas já foi chamado por três diferentes nomes. O mais conhecido deles recebeu da mãe, Clara Rojas, ao nascer, por meio de uma cesariana, em um cativeiro das Farc. Oito meses depois, em péssimas condições de saúde, ele foi entregue pela guerrilha ao camponês José Crisanto Gómez Tovar, que já enfrentava dificuldades para criar seus cinco filhos. Por orientação dos guerrilheiros, todos começaram a chamá-lo de Peggy, nome de um personagem animado exibido pela tevê colombiana. Passados cerca de cinco meses, ao internar o menino em um hospital, o camponês o registrou como Juan David Gómez Tapiero, pois uma guerrilheira havia comentado que o menino deveria se chamar Juan David, por causa do pai, um integrante das Farc.

A sucessão de nomes é um reflexo da dolorosa trajetória de Emmanuel, que está sendo preparado psicologicamente para o reencontro com a mãe. Em depoimento publicado pela revista Semana, de Bogotá, o camponês revela que entrou em pânico no final do ano passado, ao perceber que Juan David era o Emmanuel que as Farc prometiam liberar junto com a mãe e Consuelo González. Desde setembro, ele estava sendo pressionado pela guerrilha a devolver o menino, mas Emmanuel se encontrava sob a guarda do Instituto Colombiano de Bem-Estar Familiar. "Eu sempre menti para eles", diz. "Dizia que o menino estava bem, em Bogotá, com minha irmã."

ALÍVIO Clara, na selva da qual foi resgatada

Emmanuel vivia então com uma mãe substituta, escolhida pela instituição governamental, que havia sido acionada pelo hospital devido aos sinais de maus-tratos que exibia, como desnutrição, leishmaniose e uma fratura não tratada no braço esquerdo. O camponês, por sua vez, tentava escapar das Farc desde 2005, quando a guerrilha ameaçou arregimentar seu filho de oito anos. O cerco apertou próximo à data da primeira operação de resgate de reféns intermediada pelo presidente Hugo Chávez. Ao procurar um promotor público e entrar para o programa de proteção de testemunhas do país, ele trouxe à tona a identidade do garoto – confirmada por dois testes de DNA – e o blefe das Farc, que prometiam libertar um refém a respeito do qual não sabiam sequer o paradeiro.