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A ESCANDALOSA vida amorosa da autora é tema de livros e reportagens

escritora francesa Simone de Beauvoir e o filósofo Jean-Paul Sartre formaram o casal de intelectuais mais badalado no efervescente ambiente cultural da França do pós-guerra. Sob os seus austeros turbantes, Simone escandalizou Paris na década de 40 e 50 com sua vida sexual pouco ortodoxa, com casos extraconjugais, alguns lésbicos. Filha de uma família tipicamente burguesa, ela partiu do seu próprio exemplo, que classificava de opressor, para atacar o que chamava de hipocrisia e reacionarismo da sociedade francesa. Foi uma das primeiras vozes a se levantar contra a opressão feminina. No entanto, a autora de O segundo sexo – livro que deu as bases do feminismo que explodiria nos EUA na década de 60 – está sendo lembrada hoje na França muito mais pela sua vida sexual do que pela sua obra. Nas comemorações do centenário do seu nascimento (quarta-feira 9), lançamentos de livros, artigos e programas de tevê mostram pouco interesse em examinar o legado intelectual da filósofa e muita energia para atacar o seu comportamento.

Na abertura dessa caixa de Pandora existencialista, escapam acusações fortes como a de que a filósofa inventou o seu lesbianismo apenas para chocar, depois negando-o sistematicamente até sua morte, em 1986. Outra acusação classifica de sexualmente promíscua a relação do casal com os seus alunos. A revista conservadora Le Point foi implacável: “Como uma mulher assim pode receber o status de ícone do feminismo?” Com uma edição especial dedicada a Simone, o semanário Le Nouvel Observateur estampou-a na capa numa foto nua, com a chamada “A escandalosa Simone de Beauvoir”. A imagem, de 1950, foi feita por Art Shay, fotógrafo americano amigo de Simone.

A reportagem questiona a coerência entre a vida e a obra da autora, que “declara guerra ao patriarcalismo, mas foi ela própria vítima da paixão por um homem”. Segundo o texto, que faz referência ao livro Cartas a Nelson Algren: um amor transatlântico 1947–1967, mais uma na onda de relançamentos franceses, ela femifoi “manipuladora e frágil, tolerante e ciumenta, e quase sempre infeliz…” A Simone que aparece nesse livro contraria as suas idéias feministas: é uma mulher submissa ao amante, no caso o americano Nelson Algren. A publicação ironiza ainda o estilo faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço e indaga: “O que se escondia por trás daqueles austeros turbantes?”

“IMAGINE O QUE ELA DIRIA DEPOIS, NO TRAVESSEIRO. QUE CHATICE SERIA”, DISSE ALBERT CAMUS, AO RECUSAR PROPOSTA SEXUAL DA FILÓSOFA SIMONE DE BEAUVOIR

Outro episódio altamente indiscreto envolvendo a vida pessoal da escritora veio à tona no recém- lançado Sartre e Camus – o polêmico fim de uma amizade no pós-guerra, do americano Ronald Aronson. Pouco depois de conhecer o escritor Albert Camus, Simone quis se relacionar sexualmente com ele. Até para Camus o niilismo tinha limites e ele recusou o convite. Disse ao amigo Arthur Koestler (também amante da escritora): “Imagine o que ela diria no travesseiro depois. Que chatice seria – tagarela, uma completa sabichona. Insuportável.”

Não faltam vozes em defesa de Simone. A socióloga Danièle Sallenave, que acaba de lançar Castor de guerre, reunindo cartas trocadas entre o casal Sartre- Beauvoir, acha que a preocupação excessiva com a vida sexual de Simone é uma forma de desmerecer a sua contribuição intelectual. “É machismo”, disse ela ao jornal inglês The Guardian.