29/03/2000 - 10:00
"O resultado das urnas não muda o status de território chinês da ilha. A independência de Formosa jamais será tolerada.” Essa primeira reação do governo da China à vitória de Chen Shui-bian, candidato independentista à presidência de Formosa pelo Partido Democrata Progressista (PDP), seguiu o mesmo tom da advertência insolente proferida dias antes pelo primeiro-ministro chinês, Zhu Rongji. Ele havia dito que os eleitores de Formosa não deveriam agir “impulsivamente” no pleito, isto é, não deveriam eleger um candidato pró-independência. Mas no sábado 18 os habitantes da ilha ignoraram olimpicamente as ameaças de Pequim e sufragaram Chen, 49 anos, um advogado oposicionista de origem humilde. Ele amealhou 39% dos votos; James Soong, também independentista, ficou com 37%; e o vice-presidente Lien Chan, do Partido Nacionalista (Kuomintang, há 50 anos no poder na ilha), teve apenas 23%. Mas o tom conciliatório adotado pelo presidente eleito da ilha parece ter esfriado os ânimos no continente. Chen propôs a realização de uma “cúpula pela paz” e convidou os líderes máximos da China, o presidente Jiang Zemin e o premiê Zhu Rongji, a visitarem Formosa e se ofereceu para ir a Pequim. As autoridades chinesas, por sua vez, anunciaram que estavam dispostas a “trocar pontos de vista com todos os partidos, organizações e pessoas de Formosa que estejam a favor do princípio da existência de uma única China. Com base nesse pré-requisito, tudo pode ser discutido”, dizia uma nota transmitida pela agência oficial de notícias Xinhua. Chen, contudo, reiterou que aceitaria discutir o princípio de “uma China”, mas rejeitava tomá-lo como base para negociações.
China e Formosa são inimigos desde que os comunistas, liderados por Mao Tsé-tung, tomaram o poder em Pequim em 1949, provocando a fuga do governo nacionalista para a ilha. Mas o reconhecimento de Pequim pelos EUA, o fim da guerra fria e as reformas capitalistas introduzidas na China por Deng Xiaoping, a partir de 1978, possibilitaram o estabelecimento de relações econômicas informais entre os dois países e permitiram a discussão sobre a reunificação. O governo chinês, que sempre considerou Formosa uma “província rebelde”, insiste na fórmula de “um país, dois sistemas”, adotada para Hong Kong e Macau. Trata-se de uma alternativa engenhosa pela qual as ex-colônias se reintegraram ao continente comunista, mas mantendo seus regimes capitalistas e democráticos por pelo menos 50 anos. Mas Formosa prefere que a China se democratize antes de falar em reunificação. As conversações, que nunca foram muito longe, sofreram um golpe em junho de 1995, porque a China ficou irritada com a visita aos EUA do presidente de Formosa, Lee Teng-hui. Afinal, Washington não reconhece Formosa como Estado. No ano seguinte, a China realizou testes com mísseis antes da primeira eleição presidencial direta na ilha. Era uma manobra para pressionar os eleitores a não reeleger Lee, mas a estratégia, como agora, se revelou um furo n’água, embora tenha agravado as tensões. Na época, os EUA chegaram a deslocar dois porta-aviões e 14 navios de guerra ao estreito de Formosa. O caldo entornou novamente em julho passado, quando Lee declarou que as negociações entre China e Formosa deveriam ser feitas na base “de Estado para Estado”. Tal heresia fez com que Pequim ameaçasse usar a força militar contra Taipé.
Bravatas à parte, parece difícil que a China passe das ameaças à ação concreta. Em primeiro lugar, uma invasão de Formosa é uma operação militar extremamente complexa. As Forças Armadas chinesas hoje não têm condições operacionais de uma guerra contra a ilha com garantia de êxito. Mas a razão fundamental para os apparatchiks (burocratas) de Pequim preferirem, entre uma rosnada e outra, uma acomodação com Taipé está na economia. A “província rebelde” é fundamental para a continuidade da expansão econômica da China. Para se ter uma idéia, o comércio bilateral atingiu nada menos que US$ 14 bilhões na primeira metade de 1999, um aumento de quase 10% em relação a igual período do ano anterior. Também em 1998, houve investimentos diretos de Formosa na China de cerca de US$ 3 bilhões. Na terça-feira 21, o Parlamento de Formosa, num gesto de boa vontade, derrubou uma lei vigente há 50 anos que proibia o comércio direto, turismo e serviços de correio entre a ilha e o continente.
Depois dos tumultos causados pela desastrosa Revolução Cultural (1966-1976), o mandarinato comunista chinês aprendeu com Deng que o poderio nacional depende mais de uma economia vigorosa do que da força das armas. Assim, o Partido Comunista parece se resignar à nova realidade dos tempos globalizados: o poder não nasce mais da ponta do fuzil, como ensinava Mao, mas da força do vil metal.