cafona

Os profissionais da exploração do meretrício, quem diria, finalmente têm seus valores reconhecidos pela sociedade dita séria. Os padrões de estética criados por cafetões sempre foram olhados com desprezo e incluídos naquele limbo denominado “cafonice”. Afinal, a marca registrada do gosto do grupo dedicado ao lenocínio é o superlativo da extravagância de cores e formas – algo que provoca a mesma ojeriza que a visão do traseiro de um mandril, aquele babuíno africano. Mas esse preconceito veio abaixo. Pegue-se o exemplo americano, em que veículos esdrúxulos, normalmente associados aos “pimps” (cafetões, em inglês), viraram moda e sucesso na tevê, em garagens insuspeitadas e em shows de automóveis do país.

Dois programas de sucesso na televisão dos Estados Unidos servem de guias deste fenômeno. Na MTV, o show Pimp my ride é um dos campeões de audiência da emissora jovem. No canal TLC, dedicado ao público mais velho, o programa Overhaulin’ serve de consultor, digamos, excêntrico-automobilístico. A expressão “pimp a ride”, explique-se, indica a “cafetinização” (diferente de cafetinagem, que é a atividade de venda de proteção paga a prostitutas) de um automóvel. O processo envolve gastos entre US$ 5 mil e US$ 250 mil em modificações no design original de fábrica. No começo deste tsunami automotivo, em meados dos anos 90, os americanos gastavam estimados US$ 10 bilhões anuais nesse processo. Em 2003 desembolsaram US$ 29 bilhões, e os números em 2004 devem ultrapassar US$ 35 bilhões – US$ 2 bilhões a mais do que o saldo da balança comercial brasileira no período.

Os pioneiros a reconhecer mérito no estilo cafetão foram os gangstas (assim mesmo, diferentes de gângsters), integrantes de gangues negras traficantes de drogas. Passou a ser comum ver um negro chegar no cortiço onde vivia dentro de carros decoradíssimos. E, como os cantores de rap e hip-hop, foram tribos irmãs dos gangstas, o modu mobile se perpetuou. Com os videoclipes de rapers, foi possível apreciar os meios de transporte dos ídolos. O público, sempre disposto a copiar as celebridades, saiu correndo atrás de rodas de magnésio, tintas metálicas, estofamentos de veludo e funileiros dispostos a transformar um respeitável Volvo numa condução de cafetão. As garagens dos subúrbios ricos passaram a ser ocupadas cada vez mais por extravagâncias sobre rodas.

Que ninguém confunda, porém, “to pimp a ride” – a cafetinização – com simples instalações de acessórios. O processo vai além de uma operação plástica. É comparável ao que o cantor Michael Jackson fez com a própria cara, só que com resultados um pouco mais atraentes, é claro. “Sempre houve uma tradição ameri-
cana em personalizar os carros. Não vejo novidades no que fazem agora”, disse a ISTOÉ o profeta da configuração pessoal de veículos nos EUA, o escritor Tom Wolfe.
“O que existe hoje é apenas uma massificação do processo de personificação de carros, e que acompanha outra massificação, que é a estética dos guetos negros americanos”, diz Wolfe.

“O mais importante numa personalização é o tipo de rodas que o carro vai mostrar”, diz Xzibit, o comandante do pelotão que semanalmente transforma bicheiras automobísticas em árvores-de-natal móveis no programa Pimp my ride. Ele é o sumo pontífice dessa moda, dono da West Coast Customs, oficina em Los Angeles, e ganhou até mesmo contrato com a vetusta General Motors para fazer alguns modelos Chevrolet entrar na onda. Depois das rodas largas, é a vez do rebaixamento da suspensão e do teto. “Mas o mais importante é o equipamento de som que vai entrar na máquina e o conjunto de gadges que acompanham.

A onda pimp é tão arrebatadora que a GM lançou no Salão do Automóvel de Los Angeles o Chevy HHR, um novo modelo de SUV, desenhado com características retrô e visando o mercado dos personalizados. Sairá da fábrica em 2006, com preço próximo dos US$ 60 mil. Mas a viatura ainda não parecia ter a verve dos cafetões. Para o Salão do Automóvel de Detroit, a empresa revelou o modelo pimp do HHR, com assinatura da equipe da West Coast Customs, em que apenas o sistema de som, com controles digitais no painel, custou US$ 68 mil. Esse exemplar único tirou dos cofres da GM US$ 3 milhões. Dinheirama que a empresa pretende recuperar com sobra, quando mandar para suas revendedoras partes opcionais baseadas no modelo, que vão ser oferecidas aos clientes para uma modificação de respeito. Ou seja: é a massificação da personificação. Os cafetões viraram lugares-comuns.