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"Um homem pula do teto de uma casa em chamas, na qual muitos de sua família morreram. Consegue salvar-se, mas na queda atinge uma pessoa, quebrando-lhe os braços e as pernas. Não havia escolha para o que saltou, mas o que ficou ferido culpa o outro por sua desgraça; e este, temendo vingança, surra-o cada vez que o encontra.” Essa parábola, contada pelo historiador marxista Isaac Deutscher (1907-1967), é uma metáfora perfeita para descrever a situação dos israelenses no Oriente Médio. Criado pela ONU em 1948 sob o impacto do Holocausto, o Estado de Israel se instalou em parte do que era a Palestina e enfrentou desde então quatro guerras contra países árabes vizinhos, nas quais ocupou paulatinamente toda a Palestina. Depois disso, se viu às voltas com duas “intifadas”, nome dado à rebelião palestina em Gaza e na Cisjordânia, territórios ocupados por Israel na Guerra dos Seis Dias, em 1967, e parcialmente entregues ao controle dos palestinos a partir de 1994. Agora, depois de quatro anos sob o domínio de um pêndulo macabro – sangrentos atentados terroristas contra israelenses e brutal repressão aos palestinos –, os dois lados parecem experimentar um sentimento de exaustão. Pudera: Israel nunca ficou tão isolado diplomaticamente – conta apenas com o apoio irrestrito de Tio Sam – e os palestinos viram sua causa ser maculada pela ação indiscriminada de grupos radicais islâmicos contra civis e pela corrupção interna. Mas a morte de Yasser Arafat e a eleição de Abu Mazen fizeram renascer uma fênix rara na região: a possibilidade de negociações de paz, virtualmente soterrada nos últimos dez anos, depois do histórico aperto de mão entre Arafat e o premiê israelense Yitzhak Rabin nos jardins da Casa Branca, em 1993.

A ironia da história é que essas mudanças começam a tomar forma no governo do primeiro-ministro Ariel Sharon, o velho representante da linha-dura israelense historicamente contrário a qualquer concessão aos palestinos e cuja visita à esplanada das mesquitas em Jerusalém, em 2000, acendeu o barril de pólvora
da “nova intifada”. Mas, no final do ano passado, os aliados conservadores de Sharon o abandonaram, depois que ele propôs uma retirada unilateral da Faixa de Gaza. Em minoria na Knesset (Parlamento), o premiê foi obrigado a montar uma coalizão com os trabalhistas de Shimon Peres, teoricamente de centro-esquerda, para se manter no governo. “Não podemos dizer ainda que as coisas estão mudando; mas ouso pensar que a sociedade não tolera mais atos de violência”, diz a deputada Colette Avital, do Partido Trabalhista de Israel. “Sabemos que há limites para a ação repressiva. Não existe saída militar para esse conflito. Sharon chegou à mesma conclusão que já tínhamos chegado. Assim, temos um líder de extrema-direita que se vê obrigado a implantar, na questão palestina, uma política de esquerda”, arrisca a deputada.

Realpolitik – Para Asher Susser, professor da Universidade de Tel Aviv, adepto da realpolitik, não apenas a desocupação de Gaza, mas também a da Cisjordânia e a formação de um Estado Palestino, atende aos interesses estratégicos do Estado de Israel. “No longo prazo, a ocupação é mais prejudicial a Israel do que aos palestinos”, analisa Susser. “A ocupação prolongada é uma ameaça à raison d’être de Israel como um Estado liberal e democrático do povo judeu. A condição sine qua non para um Estado assim é a manutenção de uma maioria judaica estável. A ocupação prolongada adicionará 3,5 milhões de palestinos ao 1,25 milhão que já vive em Israel e fará o Estado judeu perder a maioria judaica. Paradoxalmente, hoje o estabelecimento de um Estado Palestino ao lado de Israel é de interesse do Estado israelense. Assim, devemos tomar a iniciativa, estejam os palestinos prontos ou não para um acordo”, sentencia Susser.

Alguns líderes israelenses, contudo, não vêem o problema apenas sob o prisma calculista e geopolítico do professor Susser. “Aproximadamente 1,5 milhão de palestinos vive na miséria. Então, um vigoroso desenvolvimento econômico e social é precondição essencial para a paz. Sem um ‘plano Marshall’ para Gaza, teremos que fechar as fronteiras do futuro Estado Palestino”, adverte a deputada Colette Avital, em referência ao bilionário plano de ajuda econômica dos EUA nos anos 40/50 para reconstruir a Europa ocidental, destruída pela Segunda Guerra Mundial.

Mas, mesmo que isso ocorresse, ainda resta o que talvez seja o mais grave obstáculo no caminho de um acordo de paz duradouro: o destino dos cerca de quatro milhões de refugiados palestinos, filhos e netos da diáspora de 1948 e hoje apátridas espalhados em campos de refugiados dos países árabes vizinhos. O impasse sobre essa questão, aliás, foi o pretexto de Arafat para rejeitar o plano de paz de Camp David, em 2000, no qual o então premiê trabalhista Ehud Barak oferecia à Autoridade Palestina o controle sobre a Faixa de Gaza, 98% da Cisjordânia e a partilha de Jerusalém oriental. Os israelenses alegam que esse retorno mudaria o equilíbrio demográfico de Israel em favor dos palestinos. “Esse problema não está em discussão. Aceitar a volta dos refugiados é como aceitar dois Estados palestinos: um externo (Gaza e Cisjordânia) e outro interno (em Israel)”, descarta Yacob Avitai, vice-chefe do departamento de pesquisa do Ministério das Relações Exteriores de Israel. “O problema dos refugiados palestinos deve ser resolvido pelo Estado Palestino”, completa a deputada Avital.

A discussão sobre o destino dos refugiados, contudo, deve ficar para o futuro. Por ora, a maioria dos israelenses parece ter se convencido da fórmula do escritor pacifista Amós Oz: “Israel pode ter terra ou pode ter paz. Não pode ter os dois ao mesmo tempo.” Mais difícil será israelenses e palestinos aceitarem o desdobramento da fórmula de Oz: “Num conflito entre o certo e o certo, israelenses e palestinos terão que aprender a conviver como divorciados, mas dividindo os cômodos da mesma casa. No futuro, talvez, poderão ser amigos.”

Fuga da Terra Santa: Em quatro anos de intifada, o turismo em Israel caiu 90%. Em 2000, quatro milhões de turistas visitaram Jerusalém. Esse número despencou para 400 mil em 2003. Mas, no ano passado, subiu um pouco, atingindo 600 mil

* O jornalista Cláudio Camargo viajou a Israel a convite da Confederação Israelita Brasileira (Conib)