Apesar de atuações marcantes, o ator nunca ganhou um Oscar. Conheça filmes que poderiam ter rendido o prêmio:

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Assista ao trailer de "O Grande Gatsby":

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EXIGENTE
DiCaprio diz que
“O Grande Gatsby” é o filme mais arriscado de sua carreira:

"Me candidatei a receber críticas"

Antes de embarcar para Cannes, na França, onde seu novo filme, “O Grande Gatsby”, vai abrir oficialmente o festival na quarta-feira 15, o astro americano Leonardo DiCaprio concedeu à ISTOÉ uma entrevista exclusiva no Hotel Plaza, em Nova York. Ele não falou sobre o breve relacionamento que manteve com a top model Gisele Bündchen. Fumava sem parar – mas o cigarro era eletrônico. “Larguei o vício há muito tempo. Esse é só para enganar’’, disse. Na vida profissional, porém, DiCaprio não quer mais enganar, nem a si próprio nem à sua legião de fãs. Ele afirma estar cansado dos personagens românticos que lhe são oferecidos, coisa que se tornou comum desde que se consagrou como o jovem herói de “Titanic”, em 1997, o segundo filme mais visto de todos os tempos. Tinha, na época, 22 anos. Hoje, aos 38, DiCaprio prefere se arriscar em papéis mais adultos, como o dono de terras racista de “Django Livre” ou o policial espião de “Os Infiltrados”: “Preciso de personagens mais relevantes. Do contrário, fico entediado no set.” Diferentemente de seus colegas de geração, DiCaprio vai estrelar apenas dois filmes este ano e está com a agenda completamente vazia. Tornou-se mais exigente. Ao aceitar o convite do diretor australiano Baz Luhrmann para protagonizar “O Grande Gatsby”, ele sabia que estava encarando um ícone da literatura. “É o trabalho mais arriscado da minha carreira. Praticamente me candidatei a receber críticas’’, afirmou.

Seu novo filme é uma adaptação pop do famoso clássico de F. Scott Fitzgerald (1896-1940) sobre um oficial da Marinha que enriquece por meio de negócios escusos e tenta reconquistar a amada com uma vida regada a festas e prazeres mundanos. Nele, DiCaprio retoma a parceria com Luhrmann, com quem rodou “Romeu e Julieta’’, em 1996. “Eu era jovem e tinha a cabeça cheia de sonhos. Não imaginava que um dia estaria na lista dos maiores diretores de Hollywood’’, afirma o ator indicado a três Oscars, mas que ainda não foi reconhecido com nenhum. “Hoje só me coloco nas mãos de cineastas nos quais confio’’, afirma.

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"Fui eu quem convidou Tobey Maguire (à dir., no papel de
Nick Carraway) para fazer o filme. Me orgulho de sua atuação”

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"F. Scott Fitzgerald previu a Grande Depressão de
1929, ao retratar a falta de percepção das pessoas
diante do que poderia advir nos EUA"

Fotos: Theo Kingma / Rex Features; divulgação

ISTOÉ –

Acredita que “O Grande Gatsby” fará o mesmo sucesso que “Titanic” experimentou há 16 anos?

Leonardo DiCaprio –

Os meus critérios continuam os mesmos, especialmente na escolha de personagens. Mas Gatsby não é necessariamente um romântico no sentido tradicional. Ele não quer que a amante simplesmente fuja com ele. Quer que ela deixe o marido, diga que nunca o amou e se mude para o castelo que construiu para ela.

ISTOÉ –

Embora na versão pobre, esses não eram os mesmos desejos de Jack, de “Titanic”?

Leonardo DiCaprio –

Não. Gatsby tem uma visão distorcida do amor. E sabe disso, embora não admita. Ele sabe que a mulher por quem se apaixonou fala a linguagem do dinheiro, não a dos sentimentos. Ele é um homem cego diante de uma ilusão que criou. Na sua concepção, a mulher amada é um ideal, não um ser real. Representa uma obsessão.

ISTOÉ –

Como homem, isso não é um comportamento comum?

Leonardo DiCaprio –

Penso que sim. Homens têm sempre desejo por mulheres inatingíveis. Isso é comum à maioria deles, não no mesmo grau de insanidade do personagem de Fitzgerald. Desconheço quem tenha levantado um império de US$ 1 bilhão, construído um castelo e promovido festas escandalosas só para poder reconquistar a mulher que deseja.
 

ISTOÉ –

Foi essa complexidade que o atraiu?

Leonardo DiCaprio –

Eu me tornei vulnerável ao aceitar viver um personagem tão lendário. Todo mundo leu esse livro e tem a sua própria interpretação de como ele deve ser. Querem que o personagem corresponda à ideia que têm em mente. Por mais fiel que eu seja à essência do personagem, esse é o meu Gatsby.

ISTOÉ –

Como se submete à visão apresentada pelo diretor do filme?

Leonardo DiCaprio –

Na verdade, ele é o nome mais importante na criação de um filme. Atores são importantes na realização, mas já vi grandes atuações passarem despercebidas porque o cineasta não conseguiu atrair a plateia para o mundo que criou. A melhor coisa do cinema é justamente transportar o espectador por duas horas para outro universo.
 

ISTOÉ –

A literatura não proporcionaria o mesmo?

Leonardo DiCaprio –

Sim, mas confesso que não me senti conectado àquele universo quando li o romance pela primeira vez. Tinha 15 anos e não entendia por que o casal era tão apaixonado. A sensação era de uma história de amor convencional, com um desfecho trágico. Agora, ao relê-lo, percebi que tudo não passava de uma ilusão na vida dos personagens. Somente agora percebi também o lado profético do livro em relação à vida real.
 

ISTOÉ –

Qual?

Leonardo DiCaprio –

De certa forma, F. Scott Fitzgerald previu a Grande Depressão de 1929, ao retratar os abusos e a falta de percepção das pessoas em relação ao que poderia advir do rápido crescimento dos EUA.
 

ISTOÉ –

Seria algo parecido ao mostrado no filme “Cidadão Kane”, nos anos 1940?

Leonardo DiCaprio –

Sim. Algumas cenas mostrando o castelo de Gatsby lembram muito as de “Cidadão Kane’’, que foi assumidamente influenciado por “O Grande Gatsby”. Os dois protagonistas buscaram a perfeição e miraram um ideal que não existe. Tiveram existências vazias, apesar do êxito financeiro.

ISTOÉ –

É visível que a ambição do personagem o atrai. O homem Leonardo DiCaprio é ambicioso?

Leonardo DiCaprio –

Esse sentimento me aproximou bastante do personagem. Ele é um sonhador que perseguiu o seu objetivo e, para ser bem-sucedido, trabalhou sem descanso. Foi movido por uma grande força de vontade. O mesmo se passou comigo: eu quis ser ator muito cedo, movido por uma obstinação rara para uma pessoa da minha idade.

ISTOÉ –

Por que essa história fascina tanto os americanos?

Leonardo DiCaprio –

Por tratar de um período de grande vigor. Foi quando os EUA estavam se tornando uma poderosa nação industrial e todos os sonhos pareciam possíveis. Naquele momento, o novo americano era o homem que veio do nada e, de uma hora para outra, pôde gastar dinheiro na Times Square, vestir camisas caras e bonitas. O eterno sonhador.

ISTOÉ –

O poder leva o personagem ao isolamento. Isso é também uma realidade no mundo do cinema?

Leonardo DiCaprio –

Não posso fazer esse paralelo com a minha vida. Gatsby só tem um amigo, Nick (Carraway, o narrador da história), apesar de receber tanta gente em festas, esbanjar dinheiro e estar sempre em busca de diversão. É totalmente desligado do mundo, não tem conexões reais. Ao descobrir a origem de sua fortuna e de sua conduta ilegal, ninguém aparece no seu enterro. Somente Nick – e isso é trágico.

ISTOÉ –

E no seu caso?

Leonardo DiCaprio –

Tenho uma relação familiar sólida e conservo muitos amigos.
 

ISTOÉ –

Como é a sua relação com o ator Tobey Maguire, que interpreta o narrador da história?

Leonardo DiCaprio –

Fui eu quem convidou Tobey para fazer o filme. Conheço-o há mais de 20 anos e me orgulho de sua atuação. Eu sabia que ele conseguiria transmitir o que o personagem exigia. Ele faz um favor a Gatsby, por pura amizade, sem pedir nada em troca. Foi uma performance na­tural. Gosto muito da parte em que ele joga champanhe sobre os outros e se diverte para valer numa festa.

ISTOÉ –

Aos 38 anos, já se considera maduro o suficiente?

Leonardo DiCaprio –

Cresci na indústria do cinema e vejo isso como resultado da experiência e da maturidade. Atuo desde os 13 anos e, como cresci nesse ambiente, passei a me sentir confortável com o tempo. Quando olho para trás, vejo uma longa jornada que me levou aonde eu queria.

ISTOÉ –

Como chegou ao cinema?

Leonardo DiCaprio –

Morei em Hollywood desde a infância e tudo o que queria era uma chance no cinema. Não me sentia parte daquele universo, apesar de ser fortemente atraído por ele. Forcei minha entrada para conseguir trabalho e não me arrependo. Ser aceito em Hollywood foi como ganhar na loteria.

ISTOÉ –

É uma grande responsabilidade abrir o Festival de Cannes?

Leonardo DiCaprio –

Absolutamente. Toda vez que vou a Cannes, me sinto como se fizesse parte daquela sequência de helicóptero do filme “A Doce Vida’’, de Federico Fellini (risos). Sempre acho insano fazer parte do que se passa naquela cidade durante o festival. Cannes é a vitrine perfeita para filmes únicos.
 

ISTOÉ –

Qual é a sua expectativa?

Leonardo DiCaprio –

Seja qual for a recepção, trata-se de uma obra extremamente arriscada. Luhrmann recorreu a um livro respeitado com a intenção de modernizá-lo, fazer uma conexão com o espectador atual. A escolha do rapper Jay-Z para a trilha sonora é um exemplo.