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SUPERSTICIOSO
Ele tem pedra e nota da sorte, só vai a jogos do Corinthians com a mesma
camisa e começa a escrever livro ou peça de teatro apenas no início do ano

Do alto do nono andar do prédio onde mora na zona oeste de São Paulo, o jornalista e escritor Marcelo Rubens Paiva ouve um grito de gol. Duelavam Barcelona e Paris Saint-Germain, jogo transmitido pela tevê. Fanático por futebol, ele logo comentou: “Como tem gente idiota que torce para o Barça, não? Detesto esse time!”

Paiva não se encolhe para colocar para fora o que o incomoda. Aos 53 anos, faz isso com o vigor do rock’n’roll que marcou a sua geração e até hoje faz ferver o seu sangue de descendente de italiano. Um dos últimos que o tiraram do sério, este mês, foi o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, ao nomear como secretário particular o advogado Ricardo Salles. Alinhado à extrema direita, ele, entre outras barbaridades, sugeriu não ter havido crimes durante a ditadura. Paiva, cujo pai, o ex-deputado federal Rubens Paiva, desapareceu após ser levado pelos militares em 1971, exigiu uma retratação e a discussão ecoou no País. Na entrevista a seguir, o escritor – autor, entre outras 11 obras, de “Feliz Ano Velho”, livro mais vendido na década de 1980 – foi além: “O Brasil vive uma crise de inteligência”, afirma ele. “Quanto mais petróleo o País descobre, mais burro fica.”

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"A anistia é um entulho autoritário.
O (ex-presidente) Figueiredo mandou para
o Congresso uma lei do governo ditatorial

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“O Facebook e o Twitter mostram que
existe uma parcela da sociedade muito
conservadora, que resultou em figuras
como o deputado Marco Feliciano"

Fotos: Bruno Fernandes/IstoÉ; Fabio Rodrigues Pozzebom/ABr

ISTOÉ –

Como vê o trabalho da Comissão da Verdade?

Marcelo Rubens Paiva –

Não se entende o porquê de apenas dois anos de trabalho da comissão. Por que se tem de correr contra o relógio? Eu, na verdade, não sei para que serve essa comissão. Ela não é punitiva. A direita concordou com a comissão, desde que ela fosse com base na história e não uma comissão política. Que besteira é essa? Como você pode se livrar de seus ideais para fazer uma análise histórica, filosófica, literária? Impossível. E outra: a Comissão da Verdade vai contar a historinha do que aconteceu e ficará por isso mesmo?

ISTOÉ –

A comissão o decepciona, então?

Marcelo Rubens Paiva –

Desculpe a expressão grosseira, mas é uma comissão de um país de c. Enquanto na Argentina os caras põem ditador na cadeia e pedem para o Brasil extraditar o torturador (o argentino Claudio Vallejo, que era procurado por crimes praticados na ditadura portenha) do Tenório (Francisco Tenório Cerqueira Júnior, pianista brasileiro que teria sido torturado pelo argentino e desapareceu, em 1976, em Buenos Aires), o Brasil cria uma comissão que não vai punir e vai passar dois anos trabalhando para entregar um relatório. E daí? O que esse relatório implica em relação a direitos? Mesmo assim, acho que é uma comissão ousada, que chama o Delfim Netto – o braço do empresariado na ditadura – para falar da Fiesp, da participação dos empresários. Ela é interessante, mas…

ISTOÉ –

Acredita que a revisão da Lei da Anistia poderia ajudar?

Marcelo Rubens Paiva –

A Lei da Anistia é antidemocrática, precisa ser revista, é um entulho autoritário. Eu participei de passeata pela anistia. Só que o (ex-presidente João) Figueiredo mandou para o Congresso uma Lei da Anistia do governo ditatorial e ela foi aprovada. O Congresso não tinha oposição, ela era tolhida. Metade dela estava no exílio e a outra, morta. Os sindicatos estavam sob intervenção, o movimento estudantil começava a reconstruir as suas entidades. E assim veio a Lei da Anistia desse Congresso.

ISTOÉ –

Há quem defenda que ela foi importante para pacificar o País.

Marcelo Rubens Paiva –

Também já ouvi por aí que ela é uma lei democrática porque trouxe paz. Paz coisa nenhuma! Olha a tortura que rola até hoje nas cadeias, os abusos e crimes contra os direitos humanos no Brasil. Desculpe, mas a Comissão da Verdade é a prova de que o Brasil não sabe enxergar seus problemas de forma vertical, mas só da horizontal. A gente está lidando com a anistia e com os crimes da ditadura da mesma forma com que lidamos com os massacres indígenas, a escravidão, com Canudos. Falta coragem para lidar com os desvios históricos cometidos no Brasil.

ISTOÉ –

O sr. exigiu desculpas do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, pela nomeação do secretário Ricardo Salles, que disse não ter havido crimes na ditadura. Houve alguma manifestação dele?

Marcelo Rubens Paiva –

Nada! Eu espero que o PSDB reaja. Eu respeito a direita, que teve o sociólogo José Guilherme Merchior, um grande intelectual. Não se deve negar o direito de a direita pensar. Mas o que não pode é essa direita que deturpa a história, como o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, que diz não ter existido o Holocausto, e do Salles, que fala que não houve crimes na ditadura. O cara é um ignorante completo! E está sendo sustentado pelo Imposto de Renda que eu pago, já que é um secretário do governo do Estado. Pô, eu tenho o atestado de óbito do meu pai. Tá louco? Como não teve vítima da ditadura?

ISTOÉ –

O que achou da reação do PSDB nesse caso?

Marcelo Rubens Paiva –

O grupo do PSDB histórico fica indignado com esse cara e com o Alckmin. O Alckmin não combina com o PSDB, um partido do Alberto Goldman, que foi do PCB; do Serra e do Fernando Henrique, expulsos do Brasil; do Covas, que foi cassado. Eu já vi peessedebista lamentar o fato de se ter deixado criar o Alckmin. É bonita a história do PSBD, ligada às Diretas Já. Mas o que vai acontecer com o partido?

ISTOÉ –

Acha que as redes sociais dão voz às minorias?

Marcelo Rubens Paiva –

Interessante como o Facebook e o Twitter mostram a nós, que nos achávamos donos da verdade, que existe uma parcela da sociedade muito conservadora, ignorante, que não conhece história, teve uma ascensão social e resultou em figuras abomináveis como o deputado Marco Feliciano (PSC-SP). É assustador imaginar que ele é presidente de uma Comissão de Direitos Humanos.

ISTOÉ –

As redes amplificam todo tipo de discurso.

Marcelo Rubens Paiva –

Sim, como as declarações absurdas da Joelma, da Banda Calypso (que comparou homossexuais a viciados em drogas), ou frases de colunistas que comparam casamento gay ao casamento entre um homem e uma cabra. Lá, também se dá uma pecha de herói a um presidente do Supremo Tribunal Federal, como o Joaquim Barbosa, um cara completamente desequilibrado, que agride jornalista, juízes. O Brasil vive uma crise de inteligência. Quanto mais petróleo o País descobre, mais burro fica.

ISTOÉ –

Já teve vontade de ter filhos?

Marcelo Rubens Paiva –

Tive. Já engravidei uma namorada, mas ela não quis ter. Fiz uma coluna defendendo a descriminalização do aborto e me chamaram de assassino. Hoje, você fala no assunto e parece que está confessando o assassinato de uma criança. A sociedade brasileira está completamente atrasada em relação ao resto do mundo nesses assuntos de saúde pública, direitos humanos. Ter o direito de fazer um aborto em uma clínica decente é uma coisa tão evidente, óbvia, para mim. Mas em uma sociedade patriarcal, machista como a nossa, isso é reprimido, proibido, crime. O Brasil tem um lado difícil de entender. Não sei se por causa dessa comunidade católica numerosa – e, agora, incluindo esse grupo evangélico forte – ou se é o fato de sermos uma sociedade escravocrata.

ISTOÉ –

O sr. irá oficializar o seu casamento. Quem tomou a iniciativa?

Marcelo Rubens Paiva –

A ideia partiu de mim. Já fui casado antes e, agora, estou casado de novo há três anos (com a filósofa Sílvia Feola). Vai haver uma cerimônia, uma festinha, para a assinatura. Nenhum dos dois segue uma religião. Outro dia discutíamos se sou agnóstico ou ateu. Eu sou mais ateu, porque gosto de umbanda, frequento roda de candomblé, já segui o I Ching, já recebi bênção no Gantois. E também tenho superstições.

ISTOÉ –

Quais?

Marcelo Rubens Paiva –

Carrego na bolsa uma pedra da sorte; na carteira, uma nota da sorte. Tenho um colar de Xangô. Vou ao jogo do Corinthians com a mesma camisa. Se o Corinthians está perdendo, tenho um jeito de fazê-lo reverter o placar: eu paro de ver o jogo, vou para o computador, mas a minha mulher tem de ficar no quarto vendo a tevê, sem mudar de posição. É batata, o Corinthians vira o jogo. Tem mais: sempre começo a escrever um livro ou uma peça no início do ano. Toda a história que termino tem de ter a palavra “fim”. Talvez eu seja ateu, agnóstico e tenha toque!

ISTOÉ –

Em 30 anos de carreira como escritor, o universo feminino foi pouco abordado. Por quê?

Marcelo Rubens Paiva –

Sempre me incomodou o fato de não escrever bem sobre mulheres. Eu era acusado de ser um autor machista. Mas eu tenho quatro irmãs. A minha família é matriarcal. Quem manda em casa são as mulheres, sempre mandaram. Escrevi “Feliz Ano Velho” aos 22 anos, era um moleque. E eu queria entender um pouco mais sobre as mulheres para poder conquistá-las. Foi quando comecei a escrever para o teatro, construindo muitos personagens femininos, que apareceu o prazer de escrever por meio de personagens femininos. Mas erro, não acerto muito. Eu chuto bastante.

ISTOÉ –

O sr. viveu mais tempo como cadeirante do que o contrário. Como foi essa passagem?

Marcelo Rubens Paiva –

Vivi 33 anos como cadeirante e 20 como não cadeirante. Me acostumei rápido. Hoje, os cadeirantes se acostumam mais rápido porque a sociedade está mais preparada. Mas eu tive que militar muito. Outro dia, saí para pegar o metrô, mas acabei pegando o ônibus. Fico muito feliz que tenha o dedo da minha turma de deficientes, da minha militância, dentro dos ônibus. Estar em uma cadeira de rodas me fez ter o livro “Feliz Ano Velho” para escrever. Talvez eu nunca tivesse escrito nada se não estivesse assim.