Os jogadores da política entraram em campo na disputa pelo Planalto e já deram o pontapé inicial numa partida que começou nervosa e agitada. O jogo – com duração de 93 dias, se terminar em 6 de outubro, ou 114, se a decisão ocorrer no segundo turno, no dia 27 – reserva surpresas até o último minuto. A briga pelo segundo lugar na corrida eleitoral começou a pegar fogo, com o crescimento da candidatura de Ciro Gomes (PPS), embolado com o tucano José Serra. Como no futebol, na política nada garante que o time considerado favorito vá ganhar o jogo. Assim, apesar de pairar em um confortável primeiro lugar nas pesquisas, o petista Luiz Inácio Lula da Silva vem recebendo sinais preocupantes: seus palanques estaduais estão mal das pernas. Lula vai precisar usar toda a sua ginga para driblar os obstáculos nos três maiores colégios eleitorais, São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro.

Lula está abaixo da sua média nacional (de 38%, segundo o Instituto Datafolha) em São Paulo e Rio. Em Minas, terra de seu vice, José Alencar (PL), petistas e liberais ainda não conseguem falar a mesma língua. Correligionários de Alencar ameaçam apoiar nos bastidores o tucano Aécio Neves, que lidera a corrida ao governo do Estado, com 38%, seguido de Newton Cardoso (PMDB), com 29%, Margarida Vieira (PSB), com 6%, e Nilmário Miranda (PT), com apenas 4% das intenções de voto, de acordo com pesquisa do Instituto Datafolha divulgada na segunda-feira 8. No Rio, o presidente do PL, Bispo Rodrigues, declarou apoio à candidata a governadora Rosinha Matheus (PSB) e no plano federal, a Anthony Garotinho (PSB). Segundo com o Instituto Datafolha, Rosinha tem 30% das intenções de voto, seguida de Benedita da Silva (21%) e de Jorge Roberto da Silveira (PDT), com 19%. A administração da governadora petista, com três meses de duração, recebeu nota 4,4. Em São Paulo, Paulo Maluf (PPB) tem 43%, seguido do governador tucano, Geraldo Alckmin (25%), e de Genoíno (9%).

A mesma pesquisa revelou dados curiosos. Dos eleitores paulistas que pretendem votar em Lula, nada menos do que 40% preferem Maluf, 23% querem Alckmin e somente 18% votam no petista Genoíno. Maluf também consegue atrair 50% dos eleitores do tucano José Serra em São Paulo. Em Minas, 34% dos eleitores de Lula preferem o tucano Aécio Neves, 33% simpatizam com Newtão e apenas 7% votam em Nilmário. A coerência partidária ocorre apenas no Rio, onde 32% dos eleitores
de Lula votam em Benedita, 23% preferem Jorge Roberto da Silveira e 20% votam em Rosinha. É a salada ideológica em que se transformou esta eleição. Quem apostou que Serra já estava com vaga garantida no segundo turno colocou as barbas de molho. Depois de usar, em junho, 102 minutos em redes nacionais e estaduais de rádio e televisão, correspondentes ao tempo de propaganda do PPS, PDT e PTB, Ciro Gomes, contando com a preciosa ajuda da atriz Patricia Pillar, deu um salto, chegando a crescer 7 pontos porcentuais. O Instituto Ibope revelou que o candidato tirou votos de todos os seus concorrentes:
Ciro está com 18% e Serra, com 17% das intenções de voto. Lula, que caiu 4 pontos com relação à pesquisa anterior, permanece em primeiro lugar, com 34%. Anthony Garotinho ficou em quarto, com 12%. No segundo turno, Ciro, com a menor rejeição, é o único que ameaça Lula. Com 41% das intenções de voto, o candidato do PPS está empatado tecnicamente com o petista (43%).

As boas notícias para Ciro não se limitaram aos números. Ele fez um gol ao conquistar o apoio de boa parte do PFL, inclusive de seu presidente nacional, o senador Jorge Bornhausen (SC). Ciro já acenou com a participação do PFL em seu governo, caso seja eleito. “As forças vitoriosas serão as forças de ocupação”, anunciou. O bom desempenho de Ciro está tirando o sono de tucanos e petistas. Em Minas, o PSDB reage para evitar que Aécio Neves abra seu palanque para Ciro. Mas no QG de Lula a avaliação é de que, se o candidato do PPS for para o segundo turno, acabará perdendo a imagem de oposicionista devido aos apoios que vem recebendo do PFL, que sempre esteve no poder. “Se Serra cair, Ciro vai se transformar num Serra. Não vai conseguir manter a fachada de oposição e terá que abrandar o tom de seu discurso”, analisou o líder da bancada do PT na Câmara dos Deputados, João Paulo Cunha (SP). Lula começou sua campanha de rua no centro de São Paulo, no sábado 6, ao estilo Duda Mendonça, ostentando modernos óculos escuros. O petista vai priorizar visitas a oito Estados que representam 70% do eleitorado: São Paulo, Minas, Rio, Paraná, Rio Grande do Sul, Bahia, Pernambuco e Ceará. A estratégia de Ciro é passar ao eleitorado a idéia de que conseguiu atropelar Serra e por isso já polariza com Lula. Ciro ironizou a “Carta aos Brasileiros” que Lula lançou na tentativa de acalmar o mercado, com os compromissos de que vai manter o superávit primário e as metas de inflação. “O camarada (Lula) tenta enganar os banqueiros, trai a confiança de quem pensa em votar nele”, atirou. Lula reage olimpicamente, fazendo-se de surdo aos ataques dos adversários.

Ataque – Se Lula está na retranca, Serra e Garotinho partiram para o ataque. Os dois criticaram a proposta de Ciro de alongar o perfil da dívida interna e utilizaram a arma que mais irrita o candidato do PPS: a comparação de sua figura com a de Fernando Collor de Mello, pelo fato de ambos terem sido governadores de Estados do Nordeste, serem jovens e terem temperamentos explosivos. “Ciro é o genérico do Collor: embalagem diferente, nome diferente, mas o mesmo princípio ativo, o mesmo efeito”, chutou Serra, que considerou calote a proposta do adversário de alongar o perfil da dívida interna. De temperamento irascível, Ciro não deixa os ataques de graça: “Ele está sendo desonesto e tenta fazer o que Collor fez com Lula (na campanha de 1989). O Collor assumiu e tomou a poupança do povo.” Serra escolheu justamente a região Nordeste, celeiro de Ciro, para iniciar sua campanha de rua: foi ao Piauí, Bahia e Paraíba. E decidiu cancelar uma viagem ao Exterior para concentrar os esforços no País. Se Ciro tem a seu lado o charme e a beleza de Patricia Pillar, Serra – que desfila com outra bela loira, a candidata a vice Rita Camata (PMDB) – conseguiu o apoio do popular apresentador de tevê Gugu Liberato. Afinal de contas, assim como no futebol, na disputa eleitoral é preciso jogar para a platéia.

Show eleitoral

Sai Ronaldinho, entram em campo Ciro Gomes (PPS), Anthony Garotinho (PSB), José Serra (PSDB) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Depois de abrir as portas do Jornal Nacional para o craque da Seleção na véspera da Copa do Mundo, a Rede Globo fez o mesmo com os presidenciáveis, que foram sabatinados ao vivo pelo casal William Bonner e Fátima Bernardes numa série de entrevistas que começaram na segunda-feira 8. O JN é assistido por cerca de 30 milhões de pessoas por minuto em todo o País, ou 26% do total do eleitorado brasileiro. Segundo dados parciais do Tribunal Superior Eleitoral, estão aptos a votar em 6 de outubro cerca de 115 milhões de pessoas. O segundo round de entrevistas no JN está marcado para 23 de setembro. O palanque eletrônico será a vedete da eleição, já que todas as redes de televisão resolveram investir pesado na cobertura da campanha, promovendo entrevistas e debates.

O primeiro foi Ciro Gomes, que, depois de ser questionado por seu “pavio curto”, usou os dez minutos de tempo falando praticamente de economia: propôs taxas de juros maiores para os credores que concordarem em alongar o prazo para o pagamento da dívida interna do País. Garotinho defendeu o aumento do salário mínimo para R$ 280 e acabou se comprometendo a divulgar o conteúdo de fitas gravadas de forma ilegal por Guilherme Freire, seu ex-colaborador. William e Fátima também não deram folga a Serra, que foi indagado sobre sua relação com Ricardo Sérgio, ex-tesoureiro de suas campanhas, acusado de cobrar propina no processo de privatização. Serra admitiu que o governo errou no controle da aplicação de recursos para o combate à epidemia da dengue. Lula demonstrou seu estilo light, ao elogiar o trabalho de Fátima na Copa. O petista foi indagado sobre sua falta de experiência administrativa e o fato de o PT ter apoiado o Plebiscito da Dívida Externa, em 2000, que resultou na proposta de suspender o pagamento da dívida. De todos, Lula foi o que conseguiu a maior audiência, segundo o Ibope, com 41,4 pontos – a média do JN. Ciro chegou a ter 39,6 pontos; Garotinho, 38; e Serra, 35 pontos.