11/07/2007 - 10:00
Um homem com 44 anos, sorriso fácil e bochechas avermelhadas deverá chegar ao Senado esta semana. Seu nome é Jorge Afonso Argello, mas é conhecido apenas como Gim Argello. É o primeiro suplente de Joaquim Roriz (PMDB-DF), o senador que renunciou na quarta-feira 4 para não ter que dar explicações sobre um saque de R$ 2,2 milhões, no caixa do Banco de Brasília, em dinheiro vivo, que teria sido partilhado com o empresário Nenê Constantino, dono da Gol. Nada assegura, no entanto, que a temporada de escândalos no Senado esteja terminando. "Ele (Gim Argello) não dura nem um mês", previu o próprio Roriz num desabafo a amigos, horas depois de se ver obrigado a passar o cetro ao suplente.
O Ministério Público trabalha com a hipótese de que os R$ 2,2 milhões que fizeram Roriz renunciar seria apenas a primeira parcela de uma comissão de R$ 23 milhões que o grupo do ex-governador de Brasília teria acertado com Constantino em um negócio envolvendo um terreno público. Gim é o principal suspeito de intermediar o negócio. Em julho de 2006, a imobiliária Alphaville, do deputado Wigberto Tartuce, também ligado a Roriz, comprou um terreno de 80 mil metros quadrados, em uma área nobre, próxima à futura rodoviária de Brasília. O imóvel pertencia a quatro fundos de pensão de estatais, como o Regius, do Banco de Brasília. Não houve licitação e Tartuce o comprou por R$ 15,2 milhões, em 12 prestações. Logo depois, preparou um projeto para erguer no terreno um empreendimento de edifícios de uso múltiplo, com escritórios e studios residenciais. Mas a lei de zoneamento só permitia o uso do terreno para "prestação de serviços". Em novembro, a então governadora Maria de Lourdes Abadia, que fora vice de Roriz, baixou um decreto mudando os parâmetros de uso de ocupação. A área, então, passou a ser de "uso comercial de bens e de serviços", onde cabe construir qualquer coisa. Na seqüência, a Câmara Distrital aprovou uma lei ratificando o decreto. "Eu fazia tudo com a orientação dos secretários de Roriz", justifica Abadia.
No dia 9 de março de 2007, Tartuce vendeu o terreno a Constantino, por R$ 80 milhões, segundo revelou a três amigos ouvidos por ISTOÉ. Na escritura, o negócio foi registrado por R$ 47 milhões. Oficialmente, um lucro de R$ 31,8 milhões em apenas oito meses. As escutas telefônicas que comprometem Roriz são dessa época. Exatamente no dia em que Constantino assinou a compra do terreno, o corretor oficial do negócio, Deodomiro Alves Silva, foi flagrado em um conversa dizendo: "Aqui só tem peso pesado. Se a Polícia Federal baixar aqui agora, leva todo mundo. Tá eu, Gim Argello, Nenê Constantino. Se passar aqui leva todo mundo". A conversa na qual Roriz combina a partilha do dinheiro é de quatro dias depois, 13 de março. "Isso já é suficiente para justificar uma CPI", prega o deputado José Antônio Regufe, do PDT.
Como deputado na Câmara Distrital de Brasília, Gim Argello se notabilizou por mudar a destinação de terrenos públicos
Mas os indícios contra Gim Argello não se limitam a esse negócio. O Ministério Público da capital identificou um esquema oficial de grilagem de terras, que teria funcionado por muitos anos dentro do governo e da Câmara Legislativa, da qual Gim foi presidente de 2001 a 2002. Segundo o já investigado, um político localiza um terreno, quase sempre doado pelo governo, para a construção de algum equipamento público.Então, esse político encontra um empresário interessado em instalar ali um grande negócio. Um shopping center, por exemplo. Em seguida, o governo ou a Câmara muda a destinação legal do terreno. A deputada Érica Kokay, do PT, fez um levantamento minucioso. Ao todo, foram aprovadas 132 leis na Câmara Distrital que ferem o tombamento de Brasília e transformam áreas públicas em privadas. São 2,2 milhões de metros quadrados em todo o Distrito Federal. Os promotores há anos investigam casos assim, mas de maneira isolada. Num deles, sobre grilagem de terras para instalar condomínios urbanos irregulares, Gim Argello foi citado numa gravação como tendo recebido nada menos que 300 terrenos a título de propina. O caso está para ser julgado pela Justiça.
O suplente do senador também está sendo investigado pela Polícia Federal nos rescaldos da Operação Navalha. Seu grande companheiro de negócios com terras, o deputado distrital Pedro Passos, foi preso na Navalha por conta de facilidades que arrumou para a Gautama para a contrução da barragem do Rio Preto em Brasília. O processo da barragem, que ainda está em fase de ouvir as testemunhas, já tem 19 volumes. A polícia tem fortes indícios de que Gim ajudou Passos no negócio com Zuleido Veras.
Gim tem uma carreira surpreendente. Filho do dono de um ferrovelho na cidade satélite de Taguatinga, ganha a vida oficialmente como corretor de imóveis. Perdeu duas eleições para deputado distrital e ganhou outras duas. Na última, quando era o presidente do PTB de Brasília, aproximou-se do governador Roriz, chegou à presidência da Câmara Distrital e marcou sua gestão pela aprovação de leis que mudaram a destinação de terrenos públicos. A cada eleição, Gim dobra o patrimônio declarado. Ele responde a uma ação de execução fiscal na Justiça comum e foi indiciado em um inquérito federal que investiga crime contra o sistema financeiro nacional, que tramita sob segredo de Justiça. De dois anos para cá, tornou-se o corretor predileto de Nenê Constantino. Em janeiro, tentou efetivar um outro negócio estranho para o dono da Gol – a compra de um terreno atrás do Aeroporto, cedido pela Terracap (a estatal de terras da capital) à Infraero.
R$ 2,2 milhões | O suplente de Roriz, Gim Argello (PMDB-DF), é apontado pela polícia como envolvido na partilha do dinheiro que derrubou o senador |
R$ 1,7milhão | é o prejuízo da Câmara Distrital quando Gim a presidiu (2001-2002). Ele é processado por suspeita de superfaturamento em contratos de prestação de serviços |
300 lotes | teriam sido entregues ao senador Argello em troca de sua ajuda na regularização de um condomínio na periferia da capital federal |
4 processos | contra Argello estão no Fórum de Brasília. No TRF, ele está indiciado em inquérito sobre crimes contra o sistema financeiro |
Pelo plano, primeiro a Infraero compraria por R$ 43 milhões o terreno que a Terracap emprestara. Na seqüência, a Infraero desistiria do negócio e o repassaria para Constantino. O governador José Roberto Arruda vetou o plano. No dia 15 de janeiro último, Gim adentrou no escritório do presidente da Terracap, Antônio Gomes, a fim de convencê- lo a fazer o negócio. Levou Constantino a tiracolo. "É do meu interesse e do seu Nenê comprar esse lote", argumentou. "Gim, se eu fizer isso serei preso", rebateu Gomes. O negócio não deu certo. Mas a amizade com Constantino continua sólida. Dias atrás, Gim telefonou a um empresário que procurava um helicóptero para comprar: "Estou do lado do seu Nenê, fala aqui com ele, ele entende tudo de helicópteros". Este é Gim, o corretor de negócios que ocupará um dos gabinetes do Senado. Como diz Roriz, resta saber por quanto tempo.
ISOLADO, MAS AINDA NO CARGO
presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), planejava empurrar com a barriga o processo a que responde no Conselho de Ética por não comprovar a origem do dinheiro que usou para pagar pensão a uma filha fora do casamento. Primeiro, comemorou a aparição das gravações contra Joaquim Roriz (PMDB-DF). Depois, foi a vez de o novo presidente do conselho, Leomar Quintanilha (PMDB-TO), aparecer metido em acusações de desvio de verbas. Renan contava que os novos escândalos dividiriam as atenções. Mas acabou acontecendo o oposto. Se no começo ele era abraçado em plenário pela maioria de seus pares, agora perde sustentação a cada dia. Na terça-feira 3, assistiu da cadeira de presidente a duros discursos de colegas defendendo sua saída do cargo. No mesmo dia, tentou uma manobra para arquivar o processo. Sua tropa de choque devolveu o caso à Mesa Diretora, que até poderia engavetar o escândalo, mas deu um revés e devolveu o caso ao Conselho de Ética. A investigação vai prosseguir, agora com três relatores: Renato Casagrande (PSB-ES), Marisa Serrano (PSDB-MS) e Almeida Lima (PMDB-SE). Dos três, Lima é o único renanzista. A primeira medida do Conselho foi pedir à Polícia Federal que aprofunde a investigação. Renan vai continuar sangrando.