19/06/2002 - 10:00
Tão chocante e macabra quanto a execução do repórter da TV Globo Tim Lopes por traficantes de drogas é a busca do seu corpo. As escavações feitas até agora ainda não levaram ao jornalista, mas revelaram pelo menos outras seis ossadas humanas. As descobertas foram encaradas pela polícia com naturalidade. Como se estivessem desenterrando ossos de cachorros, gatos ou galinhas. E essa naturalidade mostra que o que hoje choca toda a sociedade – com a divulgação em bárbaros detalhes da morte de um jornalista – não é nenhuma novidade para as autoridades. O que aconteceu com Tim Lopes foi um desfecho corriqueiro nos morros do Rio de Janeiro, dominados pelo tráfico de drogas.
Mas o jornalista, mesmo morto, está cumprindo sua mais singela função, que é a de informar a sociedade. Sua morte nos revela, de maneira crua e sem rebuscamentos, a existência de um poderoso e organizado Estado paralelo. Um Estado cujo “poder executivo” prende, tortura e executa quem não cumpre suas leis. Leis próprias, criadas por um “poder legislativo” incontestável. Um Estado aparelhado com um “poder judiciário” que decide sumariamente quem é culpado ou inocente.
A morte de Tim e as ossadas encontradas revelam que essa lei é inapelável. Pelo menos até que a Justiça do Estado legitimamente constituído abra os olhos e deixe de encarar como natural a existência de valas comuns. E que se imponha rapidamente uma lei mais ágil, forte e eficaz do que a dos traficantes que governam o Estado paralelo.