Fotos: Renato Velasco

Herança: sarcófagos egípcios e ossada de baleia (acima)
fazem parte da coleção que
foi de d. Pedro II

Graças ao furto de livros raros de sua biblioteca, o Museu Nacional, no Rio de Janeiro, tornou-se nas últimas semanas alvo de atenção do governo e dos defensores do patrimônio histórico. Pelo menos 13 edições dos séculos XVII e XIX, com gravuras de expoentes como Hans Staden e Johann Baptist von Spix, foram roubadas e várias outras danificadas. O sumiço durou oito dias, tempo que a polícia paulista levou para achar os documentos e prender o estudante de biblioteconomia Laéssio Rodrigues de Oliveira, um dos integrantes da quadrilha. Depois do roubo, o Ministério da Educação apressou-se em anunciar a injeção de R$ 760 mil no museu e o ministro da Cultura, Gilberto Gil, foi pessoalmente informar ao diretor, Sérgio Azevedo, a liberação de R$ 500 mil para a segurança.

O lamentável episódio reflete a situação de abandono de uma instituição que abriga o acervo mais importante do Brasil – e um dos mais valiosos do mundo – na área de paleontologia e ciências naturais. Entre os tesouros há 30 mil fósseis, 500 mil espécies de plantas e dez milhões de insetos. As coleções de ossadas de animais pré-históricos brasileiros e de arte indígena e egípcia são comparadas às melhores do planeta. Funciona em um belíssimo prédio de 1803, construído como réplica do Palácio de Versalhes e que serviu de residência à família real portuguesa de 1808 a 1821, pertenceu à família imperial brasileira de 1822 a 1889 e abrigou a primeira Assembléia Constituinte Republicana, de 1889 a 1891. Em 1892, transformou-se em sede do museu. Todo esse patrimônio, infelizmente, foi mais valorizado pelos gatunos do que pelas autoridades.

“Esperamos que esse episódio sirva para encaminhar soluções definitivas”, diz o paleontólogo Azevedo. No ano passado, ele entregou ao governo uma proposta de restauração, que inclui a construção de prédios para a transferência do acervo e a instalação de equipamentos contra incêndio. A operação, de R$ 40 milhões, seria custeada pela iniciativa privada e por vários ministérios. Até agora, nada foi feito. O telhado do museu foi recuperado com R$ 2 milhões da Petrobras. A ação foi uma resposta ao temporal de 1995, que molhou a múmia de três mil anos do sacerdote Hori. Na ocasião, o governo prometeu R$ 18 milhões para uma reforma geral. Dos cofres do governo, saíram R$ 500 mil. O prédio precisa de obras contra infiltração, recuperação de fachadas e assoalhos.

Basta um passeio pelos salões para se confirmar a importância do acervo. A coleção de peças egípcias é comparável às do British Museum, em Londres, do Louvre, em Paris, e do Metropolitan Museum, em Nova York. Uma das mais antigas é o sarcófago da dama She-Amun-Em-Su, de 750 a.C., um presente de Ismail, vice-rei egípcio, para d. Pedro II, em 1872. Outro destaque são as peças e afrescos das cidades italianas de Herculano e Pompéia, feitas entre 50 a.C. e 50 d.C – as duas cidades foram destruídas em 79 d.C., com a erupção do vulcão Vesúvio. É a coleção batizada Imperatriz Tereza Cristina, a esposa de d. Pedro II. São 750 peças do maior conjunto de arte greco-romana da América Latina, do melhor período romano.

Fotos: Renato Velasco

Apelo: Azevedo lamenta abandono
do prédio onde morou a família
real brasileira

Preguiça gigante – O Museu Nacional guarda ainda Luzia, nome dado a um crânio de 11 mil anos descoberto no Brasil em 1975. A partir desse achado, reconstituiu-se o rosto da mulher pré-histórica, que revela as origens do povo americano. A gigantesca preguiça que habitava o Rio Grande do Sul há 2,5 milhões de anos é outra atração, junto com macacos, elefantes, hipopótamos e uma baleia encontrada há mais de 300 anos. Os primórdios da cultura brasileira estão representados também na exposição de cultura indígena.

Graças à atuação da polícia, parte das obras furtadas voltará em breve à biblioteca do museu. O delegado paulista Gilberto Peranovich critica a segurança da instituição. “O que sabemos é que é muito fácil entrar lá e roubar. Os rapazes se apresentaram como voluntários para recuperar livros históricos e ninguém desconfiou.” O diretor do museu afirma que a precariedade da segurança já tinha sido relatada ao governo. “Sabíamos que algo poderia acontecer, por isso pedimos mais verba.” Espera-se que, desta vez, o governo federal cumpra as promessas e libere os recursos anunciados. Se possível, antes do próximo furto.