04/07/2007 - 10:00
Pela sua extensão, o complexo que reúne 12 favelas na zona norte do Rio é considerado um dos maiores bunkers do Comando Vermelho. Ao tomar essa área com a disposição de quem quer vencer uma guerra, como fez na semana passada, o governo estadual finalmente atingiu o poder paralelo. Foi a maior operação policial contra o tráfico e, pela primeira vez, os bandidos bateram em retirada. Mas o custo foi o medo e a dor da população, que ainda teme por sua segurança.
As tropas se posicionaram por volta de 9h30 da quarta-feira 27 na avenida Itararé e começaram a entrar na rua Joaquim de Queiroz, acesso ao conjunto de favelas conhecido como Complexo do Alemão, na zona norte do Rio de Janeiro. A “guerra do Alemão” completava 57 dias e os moradores, já acostumados a tiroteios diários, não imaginavam que a batalha que se iniciava naquela manhã seria a maior operação de combate ao tráfico já montada no País. A estreita rua Joaquim de Queiroz, com as calçadas tomadas por bancas de comércio popular, foi logo ocupada por centenas de policiais. Nas entradas dos outros morros da área, mais agentes surgiram. Em meia hora, 1.350 policiais avançavam para o interior do Alemão. Foram recebidos com uma chuva de balas e a ofensiva durou sete horas, com saldo de 19 mortos e 13 feridos. A operação apreendeu 30 quilos de cocaína, 113 de maconha e um arsenal com armas antiaéreas, bananas de dinamite e dois mil cartuchos de diversos calibres. “Fizemos um trabalho de inteligência. Descobrimos onde estava o material e tínhamos a obrigação de agir”, afirmou o secretário de Segurança Pública do Rio, José Mariano Beltrame. Como costuma acontecer, a população que fica entre os efetivos da polícia e do tráfico sofreu as conseqüências. Abrigada em meio ao tiroteio, a dona-decasa Rosa Gomes parecia resignada com a rotina bélica. “Vai começar tudo de novo”, lamentava ele.
Ao invadir o Complexo do Alemão com a disposição de um Exército que ocupa um território inimigo, o governo estadual buscou quebrar a imagem de inferioridade diante da ousadia dos traficantes. E conseguiu: quando os agentes chegaram aos pontos mais remotos da favela, os bandidos bateram em retirada pela primeira vez. Enfim, o poder paralelo foi atingido. As operações policiais na área começaram há dois meses, em reação à execução de dois soldados da PM. Todas as tentativas de tomar conta do território ocupado pelo tráfico foram rechaçadas, com cenas de deboche dos traficantes até diante da Força Nacional de Segurança. Durante esse período, porém, a polícia fez os levantamentos que possibilitaram a megaoperação. Dessa vez, mesmo os setores geralmente refratários ao uso da força aprovaram a ação policial, embora com ressalvas. “O Estado estava sendo desmoralizado e precisava reocupar o espaço. Mas poderia haver uma doutrina mais nítida de redução da mortalidade em combate”, avalia a cientista política Ilona Szabo, especialista em conflitos armados e coordenadora do Programa de Segurança Humana da ONG Viva Rio. O clima de guerra é tão incontestável que o Viva Rio já cobra ações emergenciais típicas de confrontos internacionais: “É preciso ter hospitais de campanha, mutirões para recolher o lixo. A população está completamente abandonada. Daqui a pouco teremos refugiados em massa.”
Para se ter idéia do ponto a que chegou o domínio dos bandidos no Alemão, há cerca de três anos, segundo o delegado Allan Turnowski, chefe do Departamento de Polícia Especializada, não se conseguia chegar às regiões mais altas, conhecidas como Areal, Chuveirinho e Matinha. A expectativa dos moradores do Complexo (97 mil, segundo o IBGE, e 200 mil segundo as associações locais) é se, depois da reconquista, o poder público vai permanecer ou não. O secretário Beltrame promete que o cerco vai continuar. “Vamos manter o policiamento. Não é possível que um cidadão não possa transitar e fique à mercê do tráfico em um Estado informal”, diz. Ele fala também em promover uma ocupação social assim que livrar a área do domínio do tráfico e em implementar um policiamento preventivo que reaproxime a comunidade dos agentes da lei.
O tráfico no Complexo do Alemão está sob as ordens de Marcinho VP, um dos chefões do Comando Vermelho, preso em Bangu I. Na região já atuaram bandidos que ficaram tristemente famosos nos anos 90 por seus crimes, como Orlando Jogador e Uê. Na década de 80, o conjunto de 12 favelas começou a ser tomado pelos traficantes e os bairros próximos, como Bonsucesso, Penha e Ramos (antes tidos como pacatos), passaram a ser conhecidos como área de risco. São regiões que hoje motoristas e pedestres evitam, principalmente à noite. Pela sua extensão e por ser quase inexpugnável, o Alemão é tido como um dos maiores bunkers do CV. O secretário de Segurança adiantou que a polícia prepara ações semelhantes em outras áreas da cidade. Isso deve acontecer especialmente onde as investigações apontam para a existência dos maiores depósitos de armas do tráfico, como a Rocinha e a Mangueira.