19/01/2005 - 10:00

Só depois do Fórum Social Mundial, em Porto Alegre (RS), e do Fórum Econômico Mundial, em Davos, Suíça, no final deste mês, é que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva vai cair na folia ministerial de Brasília, lá pelo início de fevereiro. Assim, quando o Carnaval chegar, no sábado 5, Lula terá concluído sua segunda reforma ministerial em dois anos de mandato, executando os passos necessários para dar harmonia e conjunto à comissão de frente do governo, que precisa chegar afinada à apoteose de 2006, ano de eleição e reeleição. “Reforma, só depois que voltar de Davos”, apitou o presidente a um auxiliar próximo, na quarta-feira 12, esticando ainda mais a ansiedade que domina o bloco da Esplanada que ameaça atravessar na avenida e perder a fantasia de ministro.
Dez cadeiras, um terço do Ministério, estão em jogo no remelexo que Lula ensaia para fevereiro, trocando alguns nomes de posição, tirando outros e incorporando sangue novo ao time. A mexida só não acontece já por motivos de coração e também de razão. “E a reforma, presidente?”, perguntou um cacique petista mais ansioso
na segunda-feira 10. Lula bateu com o punho direito, fechado, sobre o coração, franziu a testa e fez um sinal negativo com o dedo indicador: “É muito dolorido. Mexe com os amigos”, disse, encerrando ali mesmo o assunto que o angustia e o deixa cada vez mais solitário. Uma dor evidente é a provável saída do amigo gaúcho Olívio Dutra da pasta das Cidades, jóia petista que tem um orçamento de R$ 8,2 bi para 2005, 17% da fatia total dos ministérios. A ala mais vermelha do PT está ruborizada com a idéia, mas ela parece consolidada na cabeça do presidente, que vai consolar Olívio com a embaixada em Montevidéu, onde sobra chimarrão e carne especial para churrasco, ou um posto na cúpula do PT, talvez a secretaria-geral. Para a vaga em Cidades deve ser deslocado o ministro das Comunicações, Eunício Oliveira, atendendo ao desejo do PMDB de receber um ministério com upgrade. Isso garante a permanência no posto da outra liderança cearense no governo, Ciro Gomes (PPS), que continua na Integração Nacional para realizar o projeto que não sai do papel desde o império de D. Pedro II: a transposição de águas do rio São Francisco para o sertão mais árido do Nordeste.
Molecagem – Existem também razões menos afetivas para adiar a reforma para a véspera do Carnaval: a evolução rebelde do deputado Virgílio Guimarães (PT-MG) como candidato avulso à presidência da Câmara dos Deputados acabou atravessando o samba-enredo da unidade que o PT queria cantar votando em coro no candidato oficial Luiz Eduardo Greenhalgh (PT-SP) no dia 15 de fevereiro, uma semana depois da festa de Momo. “Isso é uma molecagem, Virgílio. Você precisa ter mais responsabilidade!”, explodiu Lula, numa dura conversa na manhã de quarta-feira 12 com o dissidente, sob o testemunho do presidente da Câmara, João Paulo Cunha. Nada disso abateu Virgílio, que continuou exibindo sua alegoria de candidato em Brasília. Impotente, Lula não ata nem desata a reforma agora com medo de que eventuais decepções dos preteridos acabem somando votos para candidatos avulsos como o petista Virgílio, o líder pefelista José Carlos Aleluia (BA) ou o príncipe do baixo clero Severino Cavalcanti (PP-PE). O que o Planalto quer é a mesma coisa que pedem todos os partidos aliados: “Para ganhar nosso apoio, o PT precisa primeiro resolver seus problemas internos, apresentando um único candidato em plenário”, ouviu o presidente do PT, José Genoino, sucessivamente, dos presidentes do PTB, Roberto Jefferson, e do PMDB, Michel Temer.
Cota pessoal – Por não resolver seus problemas internos, o PMDB deixou de ganhar um terceiro ministério para o próprio Temer. “Lula iria convidar o Michel para a pasta das Cidades”, conta um ministro. A divisão rebelde do PMDB sob o inesperado comando do próprio Temer, que sustentou a convenção que tentou afastar o partido do governo, acabou enterrando a idéia. Movido pela mesma racionalidade política, Lula encontrou um lugar no Ministério para Roseana Sarney, licenciada do Senado desde o mês passado, quando cresceram os boatos de sua indicação. O PFL já lhe apontou a porta da rua, que ela vai atravessar antes de assumir a pasta das Comunicações, primeiro passo para se filiar, logo depois, ao PMDB do pai, o senador José Sarney, principal alvo do agrado de Lula.
Mais do que uma concessão ao PMDB, Roseana será uma ministra da cota pessoal de Lula, que admira sua garra para sobrepujar a saúde frágil: num espaço de quatro anos, entre 1998 e 2002, ela resistiu a mais de dez cirurgias diversas, que a prostra-
ram por quase 12 horas nas mesas de operação. Esta delicada intervenção política, unindo pai e filha no coração de Lula, ajudou a serenar a sucessão do Senado, hoje um paraíso de paz em comparação ao convulsionado terreiro da Câmara.
Com cuidado extremo, Lula faz outro difícil remendo: a reconstituição política de José Dirceu, chefe da Casa Civil, que saiu de cena após o estouro do caso Waldomiro Diniz. O vácuo permitiu o avanço do PCdoB, com o ministro Aldo Rebelo, na tomada da Articulação Política no coração do Planalto, para desespero do PT velho de guerra. Aos poucos, Dirceu recupera o espaço perdido: a candidatura de Greenhalgh, a atração de Roseana e a paz entre Renan Calheiros e José Sarney foram obra e arte do ministro da Casa Civil. Ele tenta agora emplacar o aliado João Paulo Cunha na liderança do governo no Congresso, para retomar de vez o jogo político por onde o PT se expressa com mais autoridade. “Ninguém aguenta mais o ar de coitadinho do Aldo Rebelo, que aparelhou todo o gabinete com gente do PCdoB”, reclama um deputado do PT.
Volta para casa – Lula vai cortar na carne, devolvendo ao Congresso dois ministros: Amir Lando, da Previdência, que volta ao Senado, e Ricardo Berzoini, do Trabalho, que retoma sua cadeira na Câmara. No lugar de Lando, o PMDB terá o senador Romero Jucá, que relatou o Orçamento. Para o posto de Berzoini, cadeira cativa do PT, Lula deve deslocar o dileto amigo Luiz Dulci, hoje seu ministro-chefe da Secretaria Geral. Agnelo Queiroz deve continuar nos Esportes para não atrapalhar as obras do Pan-2007, programado para o Rio de Janeiro. Dono da hora e da caneta, Lula pode inovar noutra área crítica para o PT: a Saúde. Humberto Costa pode ter alta do Ministério e ceder seu posto, surpreendentemente, para um nome fora do PT e do governo, o médico e escritor Drauzio Varella, autor de Estação Carandiru. É um mestre-sala tão exuberante que a arquibanda do PT só pode levantar e aplaudir.
