Imagine uma casa que pode ser monitorada como uma conta bancária. O morador usa o telefone ou acessa a internet, digita sua senha e recebe instruções sobre os serviços disponíveis. Os preguiçosos podem escolher o sistema automático. Ao selecionar o modo Amanhecer, a residência ganha vida própria. Na hora marcada, as cortinas se abrem, o jardim se irriga, a cafeteira começa a funcionar, assim como a banheira e o aspirador de pó central. Nos dias quentes, o morador pode agendar o horário para a limpeza da piscina e, no final de semana, programar o horário para a churrasqueira esquentar a grelha elétrica. No banheiro, a surpresa fica por conta dos suportes ligados ao sistema de calefação, que mantêm aquecidos toalha, roupão de banho e pantufas. Estas são algumas das atrações da chamada Casa Inteligente, exibida no Salão e Fórum de Inovação Tecnológica, que aconteceu em São Paulo.

A residência de R$ 4 milhões foi construída em 124 horas, tem 1,4 mil metros quadrados, 38 cômodos e é uma vitrine de tudo o que existe de mais moderno em tecnologia de automação. O cenário é de sonho, mas o funcionamento das geringonças nem sempre corresponde às expectativas. O comando de voz para subir e descer as cortinas algumas vezes funcionava, outras não. Na noite de abertura da casa, na terça-feira 30, o sistema vocal para ordenar a limpeza da piscina estava desativado por “problemas técnicos”. O engenheiro carioca Hélio Sinohara, produtor de sistemas inteligentes para residências, explicou que a tecnologia de comando de voz ainda deixa a desejar. “Os controles ditados pela voz apresentam alto índice de erros e sua comodidade é discutível. Por isso mesmo, a melhor alternativa continua sendo o controle remoto”, defende.

Para quem não se importa de voltar do trabalho e ter de conversar com as paredes, a casa inteligente reserva boas novidades. Basta uma caminhada para notar que a babá eletrônica, por exemplo, é algo do passado. Ao usar o controle fixo na cabeceira da cama, os pais podem exercer a autoridade apagando as luzes, desligando o aparelho de som e acionando um contador de histórias eletrônico no quarto das crianças, sofisticação talvez não recomendada pelos psicólogos.

A grande promessa da tecnologia de automação é realizar todo e qualquer desejo do consumidor disposto a pagar entre US$ 6 mil e US$ 20 mil pelo programa. Com o dólar acima dos R$ 3, o luxo acaba saindo caro.

Por trás da tecnologia, há pelo menos 40 mil metros de cabos por onde passa a energia que viabiliza o seu funcionamento. Às 18h35 da quarta-feira 31, um apagão de quatro minutos na região norte de São Paulo deixou toda a casa inteligente às escuras. E quem entende alerta: “Para não ficar refém da tecnologia nesses momentos é preciso ter a opção de acionar o sistema tradicional”, diz Sinohara.