04/07/2007 - 10:00
Já se sabe que o aquecimento global, impulsionado pela crescente emissão de gases poluentes, está transformando o planeta. Também já se sabe que, se de um lado do mundo há gente morrendo de frio, do outro, tem gente morrendo pelo excesso de calor – e prova disso é a recente manchete dos principais jornais do mundo dando conta de que 120 pessoas no Paquistão e na Índia não suportaram uma temperatura de 52 graus e faleceram. Na semana passada surgiu a mais nova notícia nesse setor do termômetro ambiental e, infelizmente, ela também é triste: um dos povos indígenas mais antigos do mundo, os esquimós correm o risco de ter a sua cultura de milênios completamente devastada dentro de 20 anos. Motivo: os animais que lhes servem de alimento estão migrando para outras partes do planeta por causa do degelo do Ártico – leia-se aquecimento global. "O que é mais lamentável é imaginar uma cultura desaparecendo por causa da fome", diz um comunicado do Centro de Pesquisa do Clima e do Ambiente, da cidade norueguesa de Oslo, transmitido a ISTOÉ.
"O meu povo caça há mais de cinco mil anos sobre o gelo do Ártico. Mas agora o gelo está fino, ele se quebra e traga os caçadores. Muitos não conseguem escapar e morrem. Cada temporada de caça pode se tornar uma viagem sem volta", diz Nicodemus Illauq, líder da comunidade esquimó da cidade de Clyde River, no Canadá. Os esquimós vivem praticamente da caça da foca e dos ursos polares e esses dois animais são encontrados sobretudo no gelo que cobre o oceano Ártico – esse gelo vem desaparecendo nos últimos tempos, e esse é o período mais crítico do ano, com seu ápice em agosto.
Segundo a pesquisadora norueguesa Grete K. Hovelsrud, o degelo previsto de grande parte do Pólo Norte mudará o habitat e a forma de vida desses habitantes, apesar de sua histórica capacidade de adaptação a condições ambientais e sociais sempre em transformação. Estima-se que os esquimós se instalaram há mais de seis mil anos na região ártica, que se estende ao longo do Alasca, Groenlândia, Sibéria, Canadá e Escandinávia. Nela vivem atualmente cerca de quatro milhões de pessoas pertencentes a grupos indígenas como os saami (presentes na Noruega, Suécia e Finlândia) e os inuits (concentramse no Alasca e Canadá). É nessa região que cerca de 15% de gelo vai se esvaindo anualmente.
O degelo decorrente do aumento da temperatura já torna possível perceber mudanças no ecossistema local. Na Noruega, por exemplo, o bacalhau passou a se deslocar mais ao norte em busca de águas geladas (e surpreendentemente aumentou a sua velocidade de nado), enquanto na Groenlândia foram descobertas novas espécies de peixes até agora desconhecidas naquela região. Outros efeitos negativos são a alta do nível do mar, causando inundações de cidades, maior erosão e desintegração de grandes placas de gelo que impedem a passagem de navios cargueiros que abasteciam os esquimós. “Os esquimós, ainda que boa parte deles seja dizimada, não serão extintos. Mas perderão sua tradição e cultura, terão de se adaptar e buscar outros meios de vida e novos habitats”, diz a pesquisadora Hovelsrud.
O DENTE DA FARAÓ
Uma das mais famosas rainhas do Egito é identificada por um dente molar
Um simples dente está solucionando um dos maiores enigmas da história antiga: a identificação da múmia de Hatshepsut, a primeira mulher- faraó do Egito, que reinou há cerca de 3,5 mil anos. A descoberta foi anunciada pelo arqueólogo Zahi Hawss e deu-se a partir de pesquisas do professor de ortodontia egípcio Yehya Zakariya. De posse de um dente molar encontrado por acaso numa pequena caixa com o nome da rainha, ele passou a se dedicar freneticamente a desenterrar uma série de múmias, para ver se elas tinham os dois molares e, no caso de faltar um deles, testava o molar que tinha em mãos na arcada dentária do mumificado. Tanto procurou, que achou: o dente se encaixou perfeitamente na arcada dos restos mortais de uma mulher. Partindo do dente para a boca, se ele é de Hatshepsut (isso é fato), então a boca também é dela – e, conseqüentemente , o resto do corpo embalsamado também. A rainha Hatshepsut foi uma mulher obesa que morreu na casa dos 50 anos em decorrência de câncer ósseo. Detalhe: ela usava mesmo a barba postiça que caracterizava os soberanos do Egito, fossem eles homens ou mulheres.
Acreditava-se que o corpo embalsamado da mulher-faraó havia sido encontrado em 1903, no Vale dos Reis, onde o jovem faraó Tutancamon também fora sepultado. A certeza caiu por terra ao ser provado que se tratava, na verdade, dos restos mortais da amade- leite de Hatshepsut (chamava-se Sitre In). Agora a identificação é cientificamente confiável. “Um dente é como impressão digital”, diz o arqueólogo Hawass. “O molar tem 1,8 cm de largura e se encaixa perfeitamente na mandíbula superior da múmia. É cem por cento definitivo: a múmia é da rainha.” Hatsheput era filha do faraó Tutmés I e da rainha Ahmose, e casou-se com o seu meio-irmão, Tutmés II – herdeiro do trono pela parte paterna. Com a morte do marido, ela assumiu o poder. Após o seu falecimento em 1482 a.C. e a restituição ao poder da linhagem masculina, iniciou-se uma sistemática eliminação de tudo aquilo que poderia lembrá-la, sobretudo porque fora uma governante generosa – até seus bustos foram partidos e seus afrescos, riscados. Fez-se de tudo para que o mundo se esquecesse dessa rainha do Egito. Mas eis que surgiu um molar.



