04/07/2007 - 10:00
Nesses tempos atuais de shopping centers e megastores, a sobrevivência em Paris de uma livraria como a Shakeaspeare and Company parece um milagre de preservação – tanto de patrimônio histórico quanto literário. Fundada em 1951, ela se mantém firme num charmoso quarteirão da rive guache, às margens do Sena e com vista para a catedral de Notre Dame. Pelas suas salas entulhadas de livros raros já circularam escritores do porte de Henry Miller, Samuel Beckett e Anaïs Nin.
Em seus concorridos saraus de leitura ecoaram as vozes de Lawrence Durrell e de beatniks como Allen Ginsberg, William Burroughs e Gregory Corso – sendo que alguns desses escritores chegaram a morar no local, uma vez que, além de livraria, a Shakespeare and Company funciona como hotel barato para autores iniciantes – estima-se que nesses 56 anos de vida ela tenha recebido mais de 40 mil escritores. Foi numa das 13 camas distribuídas pelos três andares do prédio que o jornalista e escritor canadense Jeremy Mercer se acomodou no inverno de 2000. Decidiu narrar essa sua experiência em Um livro por dia – minha temporada parisiense na Shakespeare and Company (322 págs., R$ 39,90), que chega esta semana às livrarias brasileiras.
O lema da livraria, em duas frases: “Seja gentil com estranhos, pois eles podem ser anjos disfarçados” e “Dê o que pode, pegue o que precisar”. Essas são as máximas do americano George Whitman, 93 anos, fundador da loja, que pedia a seus hóspedes que ajudassem na limpeza e no atendimento a clientes. Mais importante: pedia que lessem um livro por dia. Ele não tem o menor parentesco com o poeta americano Walt Whitman, mas sempre se aproveitou da coincidência nos sobrenomes para impressionar os freqüentadores da casa – dizia que era neto ilegítimo do autor de Folhas da relva. Mulherengo e sedutor, quem não resistiu aos encantos de Whitman foi Anaïs Nin, amante de Henry Miller. “Miller e Anaïs estavam sempre lá e a intimidade do rela- FREGUESES FAMOSOS ALLEN GINSBERG O poeta beatnik, autor de Uivo, precisava se embriagar para declamar a obra JAMES JOYCE Foi graças a Sylvia Beach, da antiga livraria Shakespeare and Co., que Ulisses foi publicado ANAÏS NIN A amante de Henry Miller foi uma das conquistas de George Whitman, dono da livraria SAMUEL BECKETT Econômico nas palavras como mostram seus livros, ele não falava: ficava só olhando Whitman HENRY MILLER O autor de Sexus era freqüentador assíduo da livraria, “o país das maravilhas dos livros” ERNEST HEMINGWAY Em Paris é uma festa ele dedica um capítulo à primeira Shakespeare and Company cionamento de George com ela ainda é tema de grande especulação”, escreve Mercer.
Era debaixo de colchões ou entre livros que Whitman guardava a maior parte do dinheiro que ganhava e essa mania fez com que o local se tornasse um dos alvos prediletos de ladrões. Havia também os “ladrões” letrados como o beatnik Gregory Corso, que gatunava edições raras para vender e, assim, abastecer o seu vício em heroína. Entre os títulos que hoje estão na Shakespeare and Company figuram as primeiras edições de Ulisses (James Joyce), que foram lançadas com o selo da própria livraria – não a atual, da rue da la Bûcherie 37, mas sua antecessora, que ficava no bairro de Saint- German-des-Prés. Criada por Sylvia Beach (1887-1962), essa casa original, cujo nome vinha do fato de vender livros em inglês, era visitada por Ernest Hemingway, que lhe dedicou um capítulo em Paris é uma festa. Em 1941 ela foi fechada pelos nazistas e, três anos depois, reaberta pessoalmente pelo próprio Hemingway, após a desocupação alemã. Whitman comprou então todo o acervo e adotou o mesmo nome Shakespeare and Company. Ele diz que “administra uma utopia socialista disfarçada em livraria”.




