Na semana passada, o presidente Lula viveu um surto, digamos, meio retrô. Voltou ao tempo em que o Partido dos Trabalhadores propunha "governos paralelos". Desta vez, o objeto da brincadeira é um tema sério: a inflação.

As autoridades econômicas deveriam decidir qual seria a meta para 2009. Henrique Meirelles, presidente do Banco Central, propunha 4%. Seu colega Guido Mantega, ministro da Fazenda, defendia um cinto um pouco mais largo, com a meta em 4,5%. Tentando agradar aos dois lados, o presidente partiu para uma solução salomônica. Apoiou a proposta de Mantega, mas sinalizou que o governo irá perseguir o alvo de Meirelles. Ou seja: agora há uma meta oficial, de 4,5%, e uma meta paralela, de 4%. Deu para entender? É estranho mesmo e nem os tubarões do mercado financeiro compreenderam direito a lógica da decisão palaciana. "Isso tudo é uma boa piada, virou gozação", disse o professor Fábio Kancsuk, da Faculdade de Economia da Universidade de São Paulo. "Foi mais uma trapalhada do governo." Brincadeiras à parte, restou uma dúvida: qual é mesmo a inflação que o Brasil quer ter?

A resposta depende das diversas alas do governo. Para uma grande parte dos líderes e aliados do PT, e neste grupo além do ministro Mantega também está o senador Aloizio Mercadante (PT-SP), a meta pode ser um pouco mais frouxa para permitir que o País cresça a velocidades mais rápidas. O argumento justificaria o aumento da meta para 4,5% – a terceira maior entre os 25 países que adotam o mesmo mecanismo em todo o mundo. Um pouco mais de inflação, segundo essa corrente, seria sinônimo de juros mais baixos e, portanto, de mais velocidade no crescimento do PIB, que este ano deve ficar próximo aos 5%.

Mas, para a grande maioria dos economistas, a decisão de trabalhar com dois objetivos só vai atrapalhar o País. "A idéia de que a inflação promove o crescimento é, no mínimo, ultrapassada", afirma categórico o professor Kancsuk, que defende a meta de 2,5% para um futuro próximo. "A inflação baixa", completa o economista do Banco ABNAmro, Jankiel Santos, "permite planejamento de longo prazo, o que atrai investimento e acelera o crescimento". Ao elevar a meta da inflação no Conselho Monetário Nacional e mantê-la em 4% no Banco Central, o governo pode ter dado um tiro no pé. Ou melhor, dois. O primeiro porque a indecisão entre um e outro valor dificulta a previsibilidade das políticas monetárias, aumenta a incerteza do investidor e afasta o investimento.

E o segundo porque, com os dois pontos de tolerância para cima e para baixo, os agentes formadores de preço podem trabalhar com índice de inflação que varia de 2,5% a 6,5%. "Isso é esquizofrenia", afirma o sócio da consultoria Tendências José Márcio Camargo.

"É bem possível que alguns agentes industriais gostem da brincadeira e aumentem os preços, apostando na garantia que até a inflação de 6,5% o Banco Central não vá aumentar os juros."

Não é preciso ir longe para perceber que alguns setores só estão à espera de alguma brecha para ativar suas antigas máquinas de reajustes. Os produtores de eletroeletrônicos já admitiram que estão pressionados pelos fornecedores de insumos para conceder aumentos. E, com a economia aquecida, alguns segmentos até se anteciparam ao afrouxamento do governo. As siderúrgicas anunciaram aumento de 7% para o aço, mesmo patamar que as resinas termoplásticas sofreram. É a chamada "inflação de demanda", que, segundo os economistas, seria uma das mais assustadoras. Diante desse quadro, a Anfavea, associação que reúne as montadoras instaladas no País, externou sua preocupação com o aumento das matérias- primas em patamares bem maiores do que a inflação, sem eco algum em Brasília. A saída para algumas de suas associadas para manter a produção em alta e evitar mais falta de produtos no mercado interno foi buscar aço no Exterior. Fiat e Ford foram as primeiras. "As commodities industriais têm tido aumento, pressionando os custos de produção", admite Rogelio Golfarb, diretor de Assuntos Corporativos da Ford na América Latina. "Não há como a indústria absorver estes aumentos que vêm se acumulando nos últimos anos." Segundo levantamento da Anfavea, de janeiro de 2002 a abril de 2007 o aço subiu 142%, os metais não ferrosos, 115% e o plástico, 84%. No mesmo período o IGP (Índice Geral de Preços) ficou em 62%. "Apesar da apreciação do câmbio que serve como âncora inflacionária, podemos sofrer uma pressão da demanda", afirma Junkiel dos Santos, do ABN-Amro. "Mas não será nenhum grande susto." Para José Márcio Camargo, no entanto, a situação é ainda mais grave. "Não há dúvida que a pressão inflacionária está a caminho", afirma. "E ela virá tanto nos setores de produtos comerciáveis como no de não comerciáveis – leia-se serviços."

Para quem acha que a visão de Camargo é alarmista demais e não se contenta com o exemplo do aço ou das resinas plásticas, a Fundação Getúlio Vargas constatou que construir no Brasil está cada vez mais caro. O Índice Nacional da Construção Civil subiu de 0,46% em abril para 1,15% em maio. Os metais puxam a elevação com o aço tipo vergalhão subindo 1,43% em maio, a alta mais intensa dos últimos três anos. O reflexo apareceu no mesmo índice medido pelo IBGE, que constatou aumento de 5,17%, nos últimos 12 meses, patamar bem acima da inflação do período. E também acima da meta proposta, seja ela a de 4% ou a de 4,5%. "O aquecimento da demanda já está ameaçando a economia", afirma Márcio Nakame, coordenador do Índice de Preços ao Consumidor da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (IPCsumidores Fipe). "O aumento de renda doméstica nos últimos meses vai continuar pressionando o preço de serviços e produtos e a inflação deve subir."

Levantamento do instituto mostra que uma grande pressão virá do setor de serviços. "Os itens não comercializáveis cresceram 6,3% de janeiro de 2006 a maio de 2007", diz Nakame. E a inflação do período? 4,4%. Para piorar ainda mais a situação, o Brasil está em meio ao que Nakame chamou de um minichoque agrícola. Com uma demanda maior do que a oferta, os conIPCsumidores viram o preço do leite disparar e crescer 11,64% no acumulado de janeiro a junho de 2007, enquanto a inflação ficou em mero 1,8%. E, para acompanhar o leite, o velho e bom pãozinho sofreu um reajuste de 10% desde 1º de julho. "A questão agrícola é temporária, sazonal, e tem impacto restrito na inflação" afirma o mesmo Nakame, mas "os indicadores de renda doméstica continuarão muito fortes e devem exercer uma grande pressão sobre os preços". O resultado aparece no acumulado dos 12 meses em que a inflação está passando de um patamar de 3,5% para o de 4%.

Apesar dos indícios de alta, Ricardo Amorim, diretor executivo para mercados emergentes do Banco WestLB, trata de acalmar os ânimos. "É muito improvável que a demanda gere uma pressão inflacionária importante no Brasil neste ano e mesmo no próximo", afirma. "Um crescimento acelerado de importações e investimentos tem contribuído para a expansão da oferta e é improvável que isto mude nos próximos meses." O professor Rogério Mori, da Escola de Economia da Fundação Getúlio Vargas, vai na mesma linha ao defender que o aumento da demanda não é suficiente para gerar uma pressão inflacionária, "que permanecerá comandada pelo câmbio sem perspectivas de reviravolta nos próximos meses".

Postas as cartas, ainda resta saber qual a inflação que o Brasil realmente quer. O intervalo está posto. Varia de 2,5% a 6,5%. "Esquizofrenia pura", como bem disse José Márcio Camargo. Quem tem coragem de discordar?