Quando se lançou o desafio, há quase cinco anos, muita gente duvidou que fosse possível transformar em realidade o sonho de sediar os Jogos Pan-Americanos 2007 no Rio de Janeiro. Era necessário construir um estádio, reformar outras dez instalações esportivas, cuidar da infra-estrutura urbana e equacionar o problema crônico da Segurança Pública. A poucos dias da abertura, os preparativos estão em fase final e, afora alguns atrasos próprios de eventos dessa magnitude, tudo indica que o Pan será um sucesso capaz de credenciar o Brasil para abrigar outras grandes competições. “Se os pessimistas acertassem, diriam ‘nós alertamos’. Como não acertaram, esquecem o que disseram e passam a exaltar os jogos”, diz o prefeito do Rio de Janeiro, Cesar Maia. Os críticos poderão lembrar que o custo do Pan está sendo 14 vezes maior do que previa o orçamento inicial: até o momento são mais de R$ 4 bilhões. Por outro lado, se tudo der certo nesses jogos, o Brasil se fortalecerá na disputa pela Copa do Mundo de 2014 (cuja candidatura já foi lançada e é vista como uma das favoritas) e também pela Olimpíada de 2016. “O Pan vai alavancar nossa identidade internacional”, acredita Maia.

Com o cenário quase pronto, basta torcer para que durante 17 dias de competição os mais de cinco mil atletas das três Américas se empenhem ao máximo para derrubar recordes e, por tabela, fazer história no Rio.

Nesta semana chegam as primeiras equipes. É verdade que canteiros de obras ainda estão a pleno vapor e há muitos acabamentos a fazer. Mas os organizadores garantem que esses problemas serão resolvidos nos dias que faltam.

Existem outros contratempos que preocupam, como a retenção de equipamentos importados de segurança e substâncias para exames antidoping, que estão na alfândega há 15 dias. Com a experiência de quem fez parte da organização de dois Jogos de Inverno (Turim e Salt Lake City) e da Olimpíada de Atenas, a espanhola Montserrat Guardia, responsável pelo Centro de Operações Tecnológicas do Pan, diz que é assim mesmo: “Nesses grandes eventos, os comitês também temiam não terminar os preparativos a tempo.” Como se sabe, tudo correu bem nessas competições. Com 95% dos preparativos concluídos, já é possível comemorar os bons resultados do Pan, mesmo antes de as provas começarem. A cidade ganhou belas instalações esportivas, como o Velódromo, o Parque Aquático Maria Lenk e o recauchutado Maracanãzinho, que passou a ter ambiente climatizado, novo piso e iluminação de primeira.

O cartão de visita, no entanto, é mesmo o estádio João Havelange, apelidado de Engenhão por estar localizado no bairro de Engenho de Dentro. É o mais moderno da América Latina e suas formas lembram as arenas esportivas européias. Sua grande atração arquitetônica são os quatro arcos que sustentam a cobertura das arquibancadas, cada um com dois metros de diâmetro. As peças ligam dois vãos de 180 metros e outros dois laterais de 220 metros. O fato de não terem sustentação intermediária atraiu a curiosidade internacional – a obra foi tema de um programa do canal americano Discovery. “O estádio também foi projetado com a preocupação de passar uma bela imagem quando for mostrado na tevê”, comenta o arquiteto Carlos Porto, um dos autores do projeto. O Engenhão tem capacidade para 45 mil torcedores e foi construído já com a possibilidade de aumento de acomodações, caso a Copa de 2014 ou a Olimpíada de 2016 seja realizada no Brasil. No estádio, serão disputadas provas de atletismo e os jogos de futebol masculino e feminino.

Para os atletas brasileiros, o fato de o Rio sediar o Pan criou uma oportunidade única: a de disputar competições de alto nível diante da torcida. “Não existe esse calor humano em lugar nenhum do mundo”, exalta Jadel Gregório, o craque do salto triplo que integra a delegação do atletismo brasileiro. Se os mais experientes se emocionam com essa idéia, os mais jovens estão nas nuvens. “Ter passado por todas as eliminatórias e estar no Pan é um sonho”, diz o carateca Caio Duprat, 20 anos, que na semana passada conheceu o Engenhão de perto. “Mas é só o começo: quero medalha”, diz ele, que disputará os Jogos no reformado Centro Esportivo Miécimo da Silva.

Entre os esportistas nacionais, há vários entre os favoritos e a expectativa é de que o País bata o seu recorde de medalhas pan-americanas para conseguir chegar em terceiro lugar no quadro geral, atrás apenas de Estados Unidos e Cuba. No Pan de Santo Domingo (República Dominicana), em 2003, Brasil e Canadá levaram, cada um, 29 medalhas de ouro. Mas perdemos a terceira posição para os canadenses pela contagem total de medalhas (123 contra 128). Como tradicionalmente os países que sediam têm o desempenho turbinado pela força da torcida, o objetivo dos brasileiros não está longe de ser alcançado.

Paralelamente à boa expectativa no campo esportivo, o Pan do Rio já gerou boas marcas para a economia. No ano passado, foram criadas 16.600 vagas na construção civil por conta das obras para a competição. A rede hoteleira também tem razões para comemorar: a previsão é de que a taxa de ocupação na rede carioca chegue a 90% em julho. “Os hotéis vão praticamente dobrar seu faturamento no período”, acredita Alfredo Lopes, presidente da Associação Brasileira de Hotéis do Rio de Janeiro. É esperado um total de 780 mil turistas. Um estudo da Fundação Getúlio Vargas mostra que o evento fará com que a economia local movimente mais de US$ 1 bilhão. Especialistas acreditam que cidades do interior e Estados vizinhos ao Rio possam ser beneficiados com a injeção de dólares.

É certo que muitas promessas feitas no projeto inicial do Pan não foram cumpridas, como a extensão do metrô até a Barra e a criação de um corredor de transportes públicos. Os equipamentos de vigilância chegaram em cima da hora e a questão da Segurança Pública está longe de ser equacionada. Mas a vontade de realizar uma bela festa esportiva impede que o ânimo dos organizadores arrefeça. “A disposição dessas pessoas é grande, supera qualquer obstáculo”, elogia o presidente do Comitê Olímpico Brasileiro, Carlos Arthur Nuzman. Se depender deles, o evento terá êxito total, a começar pela cerimônia de abertura, prevista para as 16 horas do dia 13, no Maracanã. A concepção do show ficou a cargo do produtor-executivo da Disney, Scott Givens, da carnavalesca da Imperatriz Leopoldinense, Rosa Magalhães, e do cenógrafo e designer Luiz Stein. No campo estarão 4.500 voluntários que executarão coreografias criadas pelos três. No palco de 28 metros de diâmetro e cinco metros de altura, em formato de sol, vai se desenrolar o show cujo tema serão as manifestações populares brasileiras, como samba e maracatu. “Vai ser o maior evento que o Brasil já sediou”, diz Stein. É só o começo. Com o sucesso do Pan, outros megaeventos virão.