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A guerra de vaidades travada entre os cabeleireiros mais badalados do Brasil faz com que o consumidor de luxo ganhe um salão de beleza cada vez mais requintado, que nada deixa a dever a glamourosos endereços do eixo Paris, Milão e Nova York. Os Edwards Mãos de Tesoura da vida real desdobra

m-se para oferecer mais sofisticação às suas clientes e assim abocanhar uma fração maior do rico universo da beleza, setor que movimenta R$ 15,4 bilhões por ano no País, segundo o Sebrae, e que traz no topo do ranking os gastos no cuidado com os cabelos. Os ases das tesouras viraram superexecutivos e disputam a clientela classe A do País.

OFICIAL Wanderley Nunes é o cabeleireiro da primeira-dama, Marisa Letícia

Há dois anos, quando dois salões de alto luxo foram inaugurados em São Paulo – o Studio W, de Wanderley Nunes, e o MG Hair, de Marco Antonio Di Biaggi –, muitos apostaram no fracasso dos empreendimentos pela sua grandiosidade. O prognóstico negativo não se confirmou. Os dois cabeleireiros podem festejar

os salões lotados e apostam na expansão dos negócios. O W Iguatemi fica na cobertura do shopping onde estão as lojas mais caras de São Paulo e substituiu com os seus amplos 1,6 mil metros quadrados o antigo salão no térreo que tinha 450 metros quadrados. Recebe hoje oito mil clientes por mês e estuda abrir uma filial em Brasília em parceria com o empresário Alexandre Accioly. Ficará no prédio da Academia A!Body Tech, que acaba de ser inaugurada por Accioly. Vai inflacionar o mercado de cabeleireiros em Brasília, já que o corte com Wanderley (entre R$ 250 e R$ 350) é três vezes mais do que as brasilienses ricas costumam pagar.

Com dois mil metros quadrados, o MG Hair é apresentado como o maior salão da América Latina. Teve um investimento de R$ 3 milhões. Segundo Sônia Di Biaggi, irmã de Marco Antonio, e uma das administradoras do salão, o faturamento mensal gira em torno de R$ 900 mil, em média. As cifras de investimento também são altas: só em cadeiras de cabeleireiro italianas e poltronas Philippe Starck foram gastos R$ 400 mil. E o espaço é mais que salão. Tem um andar dedicado às noivas, um espaço para tinturas e outro de estética (comandado por Luiza Sato). A joalheria que se instalou no MG Hair já vendeu um brinco de ouro branco, brilhantes e água marinha avaliado em R$ 42 mil para uma executiva que se penteara para um evento e queria uma jóia para arrematar o visual. A arquiteta e decoradora Bya Barros adora esses mimos. “Sempre que você vai embora o próprio Marco Antonio vem trazer um presente, um creme, um xampu. O salão te pega no colo”, diz Bya, que gasta, em média, R$ 2 mil, cada vez que vai lá.

LUXO Marco Antonio Di Biaggi fatura R$ 900 mil por mês no seu salão MG Hair

Arqui-rival de Di Biaggi, Wanderley Nunes é o cabeleireiro da primeira-dama, Marisa Letícia, e comanda uma equipe de 600 funcionários que se distribuem nos quatro salões Studio W da capital paulista – juntos os salões recebem 30 mil clientes por mês. Mas há demanda para toda essa sofisticação? Para Wanderley, é certo que sim. “Cabelo é a palavra mais falada no mundo. E a mulher brasileira é muito consumista quando se trata de beleza”, diz ele. A pesquisadora carioca Ruth Helena Dweck, do departamento de Economia da Universidade Federal Fluminense, no Rio de Janeiro, atesta o que a experiência de Wanderley Nunes tem mostrado. No seu estudo O impacto socioeconômico da beleza, ela afirma que os brasileiros estão entre os povos mais vaidosos do planeta e que isso se comprova no crescimento da indústria nacional de perfumaria e cosméticos. “A preocupação com a beleza impulsiona o setor de serviços, com a sofisticação dos salões de beleza e o quase desaparecimento das barbearias”, diz a pesquisadora.

Marco Antonio Di Biaggi acrescenta um outro elemento ao boom dos salões de luxo: o carisma pessoal do profissional. “O crescimento desse mercado não acontece se não tiver o respaldo de estrelas como eu, por exemplo”, diz ele, cabeleireiro da bilionária Athina Onassis, da apresentadora Adriane Galisteu e das atrizes Danielle Winits e Deborah Secco. No seu salão, fotos das loiras famosas estão espalhadas pelas paredes. Ele conta que a maioria das mulheres que pisam o MG Hair quer ser loira. “É como se, ao ficar com o cabelo loiro e longo, a mulher estivesse mais perto de ser alta e magra”, diz Biaggi, contando o que ouviu de uma cliente: “Eu nunca terei o corpo e a altura da Gisele Bündchen, mas os cabelos dela eu posso ter.”

É nesse universo de fantasias que Marco Antonio trafega, disputando tesourada a tesourada a clientela rica e famosa do País com Wanderley Nunes. O prestígio dos cabeleireiros em terras brasileiras deu um salto e tanto desde que Nunes passou a privar da intimidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O caminho até o palácio lhe foi aberto pela primeira-dama, Marisa Letícia, que entregou a cabeleira loura aos seus cuidados desde o início do governo. Wanderley teve o casal presidencial como convidado de honra de sua festa de aniversário de 46 anos realizada em sua cobertura no Morumbi, em São Paulo.

“Essa história de ganhar notoriedade através de clientes famosos é cafonérrima!”, alfineta o cabeleireiro Helio Nakanishi, que há 27 anos atende a clientela privilegiada de Brasília e tem como novíssima cliente a ministra do Turismo, Marta Suplicy. Helio cuidou do cabelo de quatro ex-primeiras-damas, Sarah Kubitscheck, Maria Teresa Goulart, Rosane Collor e Ruth Cardoso. “Atendi ícones da política, mas não ligo mais para o poder. Acho que não vem de lá o modelo estético, como antes”, diz ele, que, ao contrário dos seu colegas paulistas, não gosta de ser associado às suas clientes célebres. Helio comanda o Centro de Beleza Helius, localizado no Lago Sul, região nobre de Brasília.

Alheia às farpas, a estilista brasileira Mariele Capssa, que mora em Nova York, viaja a São Paulo especialmente para cortar o cabelo com Wanderley. “As mãos dele têm uma energia mágica. Ele sempre me deixa linda”, diz ela. A agenda do cabeleireiro também não deixa dúvidas. São dois mil clientes assíduos, com horário marcado. Uma média de três cortes por hora, 20 por dia. É ancorado nessa demanda que este nicho de mercado se expande. A pesquisadora Ruth Dweck atribui o incremento comercial dos serviços de luxo à maior participação da mulher no mercado de trabalho, ao interesse crescente dos homens por produtos e serviços de beleza e ao aumento da expectativa de vida e o conseqüente interesse em parecer sempre jovem. “Nós vendemos sonhos”, diz Biaggi. Sonhos embalados em ambientes luxuosos e arrematados por tesouras milionárias.

R$ 15,4 bilhões é o que movimenta por ano o setor de beleza no País, segundo o Sebrae