11 de julho, a missão. Um novo foguete com a bandeira brasileira pintada em seu corpo alaranjado e de fabricação 100 por cento nacional será lançado da base de Alcântara, no Maranhão, uma das melhores plataformas do mundo (com 620 quilômetros quadrados). O evento tem três funções: duas atendem às áreas tecnológica e científica, a terceira delas vai ao ar para redimir Alcântara de uma série de três lançamentos anteriores, todos fracassados – no último deles, em 2003, o foguete explodiu no chão, causou 21 mortes e transformou a plataforma em sucata carbonizada e retorcida. Não há uma pessoa envolvida na missão de 11 de julho que não garanta, no entanto, que desta vez a base perderá o estigma de micada – e nesse rol contam-se cerca de 300 especialistas europeus e americanos que estão chegando ao Brasil para assistir ao lançamento. Expectativa e torcida na contagem regressiva, o fato é que o Centro de Alcântara merece ser valorizado: ele é a menina-dos-olhos e a dor-de-cotovelo de astronautas de todo o mundo, incluídos (segundo especialistas brasileiros) os da Agência Espacial Americana (Nasa). Motivo: a sua proximidade com a linha do Equador (dois minutos e 18 segundos de latitude sul) dálhe uma posição privilegiada em relação ao movimento de rotação da Terra e isso facilita o impulso dos foguetes – o que implica, além de segurança, a economia de 30% de combustível no instante do lançamento. Mais: o regime de chuvas geralmente bem definido e ventos em limites plausíveis fazem com que o lançamento de foguetes seja possível, praticamente, em todos os meses.

Comprovar o avanço da tecnologia brasileira nesse setor e colher informações para pesquisas científicas são as principais funções desse foguete construído pelo Instituto de Aeronáutica e Espaço. Batizado VSB- 30, sairá do solo para permanecer 20 minutos no espaço, na Missão Cumã II, a 287 quilômetros de altitude – beirando assim a fronteira entre a atmosfera da Terra e o universo extraterrestre. Ele, o foguete em si, tem cinco metros de comprimento, chegando a 12 metros se forem contados também os seus módulos propulsores. "A nossa tecnologia evoluiu muito", diz o coordenador da Agência Espacial Brasileira, engenheiro Raimundo Mussi. "Já abastecemos atualmente, por exemplo, os europeus que abandonaram os seus foguetes Skylark-7." É claro que também essa nova tecnologia tem de dar certo para que os insucessos do passado sejam esquecidos e, nesse ponto, dormem tranqüilos os responsáveis pelo VSB às vésperas de sua partida – entre eles o próprio presidente da Agência Espacial Brasileira, engenheiro Sérgio Gaudenzi. "A operação Cumã II será um sucesso", diz ele. "Estamos lidando com um foguete leve, com carga de 81 quilos, muito mais fácil de ser controlado que os anteriores, que carregavam 600 quilos de carga."

Nos 20 minutos em que deverá permanecer no espaço, o VSB- 30 está programado para fazer experimentos científicos sobretudo nas áreas da engenharia, da biologia e da medicina, tudo em ambiente de baixa gravidade. "No ambiente de pouquíssima gravidade ou de gravidade zero, moléculas e microorganismos se comportam como de fato eles são", diz Mussi. "Isso ajuda até no desenvolvimento de medicamentos." Enquanto o foguete testa essas moléculas no espaço, um satélite a ele acoplado transmitirá todas as informações referentes às experiências para uma equipe de cientistas na base de Alcântara. Entre as diversas instituições que armazenaram material de pesquisa no VSB-30 estão a Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), a Universidade de São Paulo (USP) e a Universidade de Hohenheim, na Alemanha. Os cientistas da Uerj querem compreender os danos sofridos pelo DNA quando ele está em microgravidade. Sabese que a permanência de vida no espaço pode levar a lesões que, se não forem corrigidas, causam mutações e morte celular. Pois bem: é entendendo essas mutações no DNA, enquanto ele viaja lá no espaço, que se abrem cada vez mais as portas para o desenvolvimento de tratamentos genéticos, cá embaixo na terra. Já a USP e os alemães da Universidade de Hohenheim contam com o novo foguete brasileiro para, em outro ambiente de gravidade, fazer experimentos com materiais que podem concorrer para a descoberta de medicamentos contra a epilepsia e a amnésia – e, quem diria, até contra a dor de cabeça. Como se vê, esse foguete e sua missão têm, assim, tudo para fazer o bem. Portanto, VSB- 30, preparar para o lançamento.