• Ele não tem cheiro nem gosto. Ele frequenta os romances policiais de Conan Doyle e põe a pensar o calculista Sherlock Holmes. Ele frequentou a vida de uma família na cidade paulista de Campinas. Ele mata na literatura e na vida real. Ele é um dos mais poderosos e letais venenos que existem na face da Terra. Com os senhores, o arsênico!

• Até a hora do almoço do domingo 30, num restaurante da cidade e saboreando um filé de pescada, o médico homeopata Hudson da Silva Carvalho, a sua mulher, Thelma Almeida Migueis, e as filhas do casal Layla, 17 anos, e outra de 15 anos cujo nome está sendo preservado formavam uma família. Horas depois, da família só restava a filha caçula.

• Na madrugada da segunda-feira todos deram entrada num hospital. Pai, mãe e a filha de 17 anos com vômitos e diarréia. A filha menor só com vômitos. Pai, mãe e a filha de 17 anos foram morrendo. A filha de 15 anos também esteve na UTI mas sobreviveu. Um Sherlock afoito diria: foi o filé de pescada. Inocente-se desde já o peixe. O arsênico vai entrar nessa história.

• Entre o almoço e a internação e morte no hospital, a família comeu em
casa um bolo de chocolate feito e servido pela filha menor. Aí é que todos começaram a passar mal.

• Na quinta-feira 3 o laudo do Instituto Adolfo Lutz forneceu o resultado do exame de urina da filha morta de 17 anos. Aqui entra ele: na urina há arsênico. A polícia já não tem dúvidas de que ela, o pai e a mãe também morreram vitimados pelo veneno. Elementar, meu caro Watson: foram envenenados. De que forma ou por quem, essa era a grande questão para Sherlock Holmes resolver até o fechamento dessa edição. Mais um emaranhado: se há um olhar para o bolo, há também um olhar para a botica que o pai mantinha em casa. Há o bolo de chocolate, e há a botica na qual havia arsênico que o pai manipulava para os seus medicamentos homeopáticos. Falta encontrar o confeiteiro.