Encurralado pelos fatos, Pedro Calmon Mendes, o advogado da jornalista Mônica Veloso, jogou fora a máscara com a qual pretendia encobrir sua verdadeira atuação no caso Renan Calheiros. Depois de mentir descaradamente à imprensa e ao Conselho de Ética de Senado, ele apresentou na noite de quarta-feira 27 os seis CDs, cuja existência até então negara, com as gravações de diálogos que Mônica manteve com Renan Calheiros e o lobista Cláudio Gontijo, da empreiteira Mendes Júnior. “Mais uma vez, ele dá uma demonstração de que se trata de um advogado fora da lei, que não respeitou o Senado Federal, nem o Conselho de Ética”, atacou o senador Almeida Lima (PMDB-SE). “Estamos diante de um farsante, de alguém que faz da mentira uma ferramenta profissional”, disse o senador Valter Pereira (PMDB-MS).

Enquanto Calmon Mendes protocolava os CDs no Conselho de Ética, o Jornal da Band levava ao ar uma reportagem que novamente comprovou a existência da chantagem feita pela dupla Pedro Calmon e Mônica Veloso e demonstrou como a jornalista gravou seus encontros secretos com Renan, em março de 2005. Na operação, Mônica foi auxiliada pelo editor de imagem Alexandre Colmar, que trabalhava na produtora da jornalista. Ele teria comprado para ela um gravador pequeno e, mais tarde, foi quem transferiu as gravações para os CDs. O cinegrafista Leidimar Pereira dos Santos revelou que ensinou Mônica a usar um microfone de lapela, sem fio. Segundo ele, Mônica levou, sozinha, os equipamentos da produtora.

A desculpa usada por Calmon para justificar a entrega dos CDs e dos laudos ao Senado é a de que circulavam “versões falsas” das gravações que até então ele negava. O problema da nova versão de Calmon é que os diálogos publicados até agora foram periciados, a seu pedido, por um dos maiores especialistas de Brasília: Aidano Faria. Na última semana, o perito disse a um interlocutor que está fora de Brasília, mas que os laudos que produziu são aqueles publicados por ISTOÉ e mostrados na reportagem do Jornal da Band. Aidano disse ainda que não se negará a confirmar isso seja no Senado, seja na Justiça. O perito decidiu ficar momentaneamente afastado de Brasília depois que quatro homens encapuzados entraram na sua chácara e atiraram nele. Segundo o Boletim de Ocorrência, que ele registrou em 6 de março, na 30ª Delegacia de Polícia, em Planaltina, um dos tiros atingiu seu braço.

Depois de a reportagem da TV Bandeirantes e de a própria atitude de Calmon confirmarem a chantagem denunciada por ISTOÉ há quatro semanas, boa parte dos senadores já não parece tão disposta a dar crédito absoluto às lorotas do advogado. “A verdade é que surgiu agora um fato novo que é preciso considerar”, ponderou, na quinta- feira 28, o senador Heráclito Fortes (DEM-PI). “Eu confesso que as minhas convicções arrefeceram um bocado depois disso.” Detalhe: na véspera, os Democratas chegaram a pedir a renúncia de Renan Calheiros.

Com a crise transformada em disputa política, o Senado, com o Conselho de Ética agora renovado, tem a chance de restaurar a sua imagem com uma apuração isenta, que revele, de fato, o que aconteceu. A atrapalhada tropa de choque de Renan, que tentou a todo custo arquivar a denúncia sem que nada fosse investigado, foi substituída no Conselho de Ética, embora o colegiado ainda patine sem relator para o caso. Renan tem que explicar os problemas na documentação que apresentou e as suspeitas de que notas de venda de gado anexadas em sua defesa foram forjadas. Mas é igualmente relevante o processo urdido para pressionar o presidente do Senado.

Outra conseqüência da admissão das gravações por Pedro Calmon é que Renan, agora, já fala publicamente sobre a chantagem que sofreu. “Disseram que não havia gravação, já está provado que há gravação. Disseram que não havia perícia, há perícia. Disseram que não havia chantagem, está comprovado que há chantagem”, disse Renan. O senador agora pensa em processar Mônica Veloso e seu advogado. Isso porque ela não gravou apenas as conversas que teve com Renan. Gravou também conversas que Renan tinha com outras pessoas por telefone, caso, por exemplo, do ministro do Tribunal de Contas da União, Guilherme Palmeira. “Isso é crime”, adverte Renan. “Tive três conversas difíceis com esse advogado. Agora, fica bem claro o que é que ele queria”, continua o senador. “Eles queriam a reparação de um possível prejuízo da produtora de Mônica. Mas falavam em valores incompatíveis com a minha economia e com a minha realidade”, revela Renan. E explicita os valores pedidos: “Havia uma sugestão de que a reparação do tal prejuízo chegaria a R$ 20 milhões ou R$ 30 milhões”. Renan conclui: “Se caráter pagasse imposto, esse advogado teria devolução.”